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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Positivismo e controle social

 Augusto Comte, em 1830, começou a publicar uma série de obras que viriam a receber o título de “Curso de filosofia positiva”, nas quais ele elabora sua teoria principal: o Positivismo, uma nova vertente cientifica que buscava, de maneira inédita, analisar problemas sociais e resolve-los. Para isso, essa “ciência da sociedade” utilizava os mesmos critérios das ciências exatas, como a física e a matemática: procurava leis gerais que determinassem o funcionamento da sociedade.

O tema de “problemas sociais” encontrava-se em alta no contexto das publicações de Comte, visto que a Europa se encontrava tomada por ondas revolucionárias, responsáveis por subverter a ordem aristocrática vigente e consolidar o poder político da burguesia. A princípio, essa classe saiu vitoriosa desses processos de mudança, finalmente garantindo a si tratamento de elite, como a aristocracia detinha exclusivamente até então, porém, essas mobilizações não almejavam apenas fortalecer a classe burguesa, pelo contrário, a maior parte das pessoas que foram as ruas também buscavam maiores direitos para as classes mais baixas.

Assim, com a mudança de regime político e a permanência da miséria das classes mais baixas, o povo continuou a se amotinar, fazendo greves e manifestações, perturbando constantemente a recente formada ordem política liberal, o que comprometia os interesses políticos e econômicos da burguesia. Portanto, surge a necessidade de coibir essas “problemáticas” que afetavam a vida europeia do século XIX, sendo do interesse da elite a manutenção da estabilidade social após garantir seus próprios interesses.

A ciência em si, na verdade, era uma espécie de vertente ideológica própria, que na visão de Comte, deveria substituir entendimentos teológicos e metafísicos sobre a sociedade. Ele argumentava por uma sociedade que prezasse pelo progresso civilizatório e ordem social, aspectos que deveriam ser sobrepostos a qualquer vontade individual, já que esses preceitos uniriam os indivíduos entre si, gerando coesão social.

No processo de “positivação” da sociedade, a moralidade, por exemplo, que se estendeu em parte graças a visões religiosas, principalmente a cristã (no ocidente), deveria mudar em sua essência. Se até então, a moralidade religiosa tinha como fim a salvação individual, a moralidade positiva agiria em prol da manutenção do “bem comum”, que se associa aos aspectos essenciais supracitados. Logo, fica claro a visão coletivista dessa doutrina sociológica, mas de que forma ela se organiza e se manifesta em contraposição às reinvindicações sociais?

Com essa revisão dos sistemas de crença e moral, Comte reserva à população o papel de mantenedora da moralidade, sendo função dela reproduzir essa nova visão de bem comum e ordem, suprimindo ideias de melhoria social que acabariam por comprometer o equilíbrio da sociedade. Isso traduz numa clara espécie de controle social e manipulação, em que os interesses burgueses são reproduzidos e tomados como prioritários, e aqueles que não são diretamente contribuintes da ordem econômica são deixados de lado, tanto por atrapalharem o andamento da mesma, quanto por ameaçarem a adesão daqueles que são oprimidos de maneira semelhante.

Já nas camadas mais altas, o positivismo age para descredibilizar revisões criticas da sociedade e justificar as desigualdades sociais. Por reivindicar para si o título de “ciência”, ele nega legitimidade a outras concepções críticas, por mais factuais que sejam, atribuindo a essas títulos como “ideologia” e “corrente de pensamento”, que pressupõe que sejam apenas teorias ou baseadas em entendimentos limitados da realidade. Com isso, o positivismo domina o debate acadêmico e desqualifica seus opositores, permitindo que a status quo burguesa se mantenha.

Portanto, mesmo nascido a séculos atrás, o positivismo ainda contribui para a manutenção das desigualdades sociais e preservação das dinâmicas de poder.

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