Augusto Comte, em 1830, começou a publicar uma série de obras que viriam a receber o título de “Curso de filosofia positiva”, nas quais ele elabora sua teoria principal: o Positivismo, uma nova vertente cientifica que buscava, de maneira inédita, analisar problemas sociais e resolve-los. Para isso, essa “ciência da sociedade” utilizava os mesmos critérios das ciências exatas, como a física e a matemática: procurava leis gerais que determinassem o funcionamento da sociedade.
O tema de “problemas sociais” encontrava-se em alta no
contexto das publicações de Comte, visto que a Europa se encontrava tomada por
ondas revolucionárias, responsáveis por subverter a ordem aristocrática vigente
e consolidar o poder político da burguesia. A princípio, essa classe saiu
vitoriosa desses processos de mudança, finalmente garantindo a si tratamento de
elite, como a aristocracia detinha exclusivamente até então, porém, essas
mobilizações não almejavam apenas fortalecer a classe burguesa, pelo contrário,
a maior parte das pessoas que foram as ruas também buscavam maiores direitos
para as classes mais baixas.
Assim, com a mudança de regime político e a permanência da
miséria das classes mais baixas, o povo continuou a se amotinar, fazendo greves
e manifestações, perturbando constantemente a recente formada ordem política
liberal, o que comprometia os interesses políticos e econômicos da burguesia.
Portanto, surge a necessidade de coibir essas “problemáticas” que afetavam a
vida europeia do século XIX, sendo do interesse da elite a manutenção da
estabilidade social após garantir seus próprios interesses.
A ciência em si, na verdade, era uma espécie de vertente
ideológica própria, que na visão de Comte, deveria substituir entendimentos teológicos
e metafísicos sobre a sociedade. Ele argumentava por uma sociedade que prezasse
pelo progresso civilizatório e ordem social, aspectos que deveriam ser
sobrepostos a qualquer vontade individual, já que esses preceitos uniriam os indivíduos
entre si, gerando coesão social.
No processo de “positivação” da sociedade, a moralidade, por
exemplo, que se estendeu em parte graças a visões religiosas, principalmente a
cristã (no ocidente), deveria mudar em sua essência. Se até então, a moralidade
religiosa tinha como fim a salvação individual, a moralidade positiva agiria em
prol da manutenção do “bem comum”, que se associa aos aspectos essenciais supracitados.
Logo, fica claro a visão coletivista dessa doutrina sociológica, mas de que
forma ela se organiza e se manifesta em contraposição às reinvindicações
sociais?
Com essa revisão dos sistemas de crença e moral, Comte
reserva à população o papel de mantenedora da moralidade, sendo função dela
reproduzir essa nova visão de bem comum e ordem, suprimindo ideias de melhoria
social que acabariam por comprometer o equilíbrio da sociedade. Isso traduz numa
clara espécie de controle social e manipulação, em que os interesses burgueses
são reproduzidos e tomados como prioritários, e aqueles que não são diretamente
contribuintes da ordem econômica são deixados de lado, tanto por atrapalharem o
andamento da mesma, quanto por ameaçarem a adesão daqueles que são oprimidos de
maneira semelhante.
Já nas camadas mais altas, o positivismo age para descredibilizar
revisões criticas da sociedade e justificar as desigualdades sociais. Por reivindicar
para si o título de “ciência”, ele nega legitimidade a outras concepções críticas,
por mais factuais que sejam, atribuindo a essas títulos como “ideologia” e “corrente
de pensamento”, que pressupõe que sejam apenas teorias ou baseadas em entendimentos
limitados da realidade. Com isso, o positivismo domina o debate acadêmico e
desqualifica seus opositores, permitindo que a status quo burguesa se mantenha.
Portanto, mesmo nascido a séculos atrás, o positivismo ainda
contribui para a manutenção das desigualdades sociais e preservação das dinâmicas
de poder.
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