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sexta-feira, 28 de março de 2025

A equívoca tentativa de imposição da ordem ante o “fim do mundo”

 Eu sou o tenro signatário da ordem,

 Sou as marcas de uma relação de progresso,

 Sou o empecilho das interações que contesto,

 Sou um retrato pintado ad unguem.


 Vivendo à margem da desordem,

 Reconheço as nuances do retrocesso,

 Mas faço juras saudosas aos protestos,

 Que me formam à medida que me destroem.


 Sou signatário da ordem, mas não vivo dela.

 Sou resultado do progresso, apesar de ser abandonado por este.

 E padeço à sequência de dívidas que me cobram.


 E sigo questionando se essas dívidas desferem sequelas,

 Pois qual preço se paga por presumir o que nunca conheceste?

 Qual certeza resta por tentar apagar aquilo que retomam?


- Do Positivo sobre a Realidade.


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 A corrente de pensamento positivista, instituída e perpetuada entre os séculos XIX e XX, tendo como fundador o pensador Auguste Comte, coaduna a primazia dos saberes ditos científicos em detrimento do conhecimento oriundo de fontes alternativas, tais como os cernes teológico e metafísico (este, por sua vez, sendo definido por Comte como um estado de transição). Engendrando acepções como “Física Social”, o estudioso ratifica a sistematização e atribuição de uma lógica objetiva aos estudos atrelados ao âmbito das Ciências Sociais, uma vez que, segundo proposições comtianas, os fenômenos sociais devem ser analisados sob a óptica de leis imutáveis. A imutabilidade, neste caso, é suscitada como atributo imprescindível à legitimação e revalidação de um determinado conhecimento, o qual passaria, diante do estabelecimento da ordem, a receber o desígnio de “científico”. Apartando noções vinculadas à ideia do que seria o conhecimento verdadeiramente seguro e confiável, no qual podemos nos embasar a fim de otimizar estudos contribuintes ao progresso da ciência, a variabilidade ostensiva de relações sociais não é uma surpresa, muito menos uma indagação. Pelo contrário: a pluralidade das interações notadas socialmente não só é factual, como também é crucial ao desenvolvimento de novos saberes. Álvaro Vargas Llosa, autor da obra literária “Liberty for Latin America”, avultou a maneira como o olhar de fascínio consumado em torno do Positivismo acarretou uma vicissitude inexorável, outrossim a escalada de relatos históricos orientados, desafortunadamente, por opressão e miséria. Os casos não são escassos: a política elitista de Porfirio Díaz no México e a Ditadura Militar no Brasil com o Sorbonne Humberto de Alencar Castello Branco são exemplos notórios de como a corrente de pensamento registrada intitulou episódios particularizados pelo abuso de poder e repressão de mobilizações populares.


 Doravante, é insustentável atestar que vivemos em um momento de progresso. Para se discorrer acerca de tal concepção, faz-se indeclinável enfatizar as indagações que sondam o tão almejado progresso: este é natural em consonância com a suposta “evolução” da sociedade? A ordem é uma condição ou uma consequência deste substantivo? Em caso hipotético de estabelecimento intrépido de sucessivas relações de progresso, é seguro estagnar uma perspectiva aliada às ideias de ciclo ou de fluxo? Afinal, apesar de todas as questões levantadas precedentemente, é certo que há diferenças entre pensar em ciclagem e pensar em fluidez. A primeira evoca o discernimento da sequência orgânica de experiências, enquanto a segunda é entendida por um teor menos fatalista e mais consequencialista. Nesse sentido, é cabível apresentar um exemplo didático que ilustra tal distinção: as relações entre matéria e energia. Não se pode conceituar um desses elementos sem pressupor a existência e relevância do outro, todavia, à medida em que falamos de ciclagem de matéria, discorremos sobre o fluxo de energia. No primeiro caso, é pouco provável a percepção de esgotamento, sendo destacada, por sua vez, o entendimento da renovação. O segundo caso contrapõe-se: há uma convicção de dissipação, não de conservação. Corroborar os princípios ideológicos do Positivismo é corroborar a lógica do ciclo. No entanto, esta lógica, quando aplicada aos dias hodiernos, nos quais o ódio configura-se como partícula da normalidade, é perigosa e, de certo modo, mortal. 


 Evgeni Zamiatin, consagrado autor russo, introduz em sua magnífica obra distópica “Nós” uma perspectiva contrária aos preceitos idealizados por Comte, tendo em vista que o escritor suscita a ordem como inibidora do progresso, colocando em contestação até mesmo a frase que estampa a bandeira do Brasil. Se a ordem revela seu antagonismo em relação à mudança, então não se pode estipular este posicionamento como crucial ao progresso. Almejar neutralidade no âmbito científico, em especial no campo de estudo das Ciências Sociais, é alavancar os dados atrozes que são emitidos a respeito do genocídio na Faixa de Gaza, é ocultar as conquistas encabeçadas pelas minorias sociais (apesar de estas representarem a maior parcela da população global), desde o movimento negro até as reivindicações feministas e LGBTQIAP+, é se conformar com o cenário de violência, degradação, desrespeito, desumanização e perseguição ao qual a sociedade vigente sucumbe. 


 Nessa circunspecção, desmistificar a ideia do ciclo aplicado à humanidade é substancial, pois grandes mudanças não são provindas da passividade, isto é, não se pode cogitar a averiguação da ordem quando esta é inviável. Como poderíamos falar sobre uma suposta ordem condicionada pela imparcialidade em um mundo em que cada indivíduo sai em defesa de seus próprios interesses, independentemente do quão prejudiciais essas predileções são aos outros sujeitos? Como poderíamos ser neutros no planeta que experienciou o holocausto judeu, o genocídio ucraniano, o massacre em Ruanda, o terror no Timor-Leste, as guerras mundiais, dentre outras atrocidades que configuram atentados à humanidade? Ao discorrermos sobre o progresso, esperemos que este seja resultado daquilo que há de mais subjetivo em toda a humanidade: a sensibilidade, pois esta orienta ações embasadas na empatia, atributo escasso contemporaneamente. Se a indiferença engendra o mundo ordenado, que mergulhemos na desordem da compaixão e da alteridade.


Enya Souza dos Santos - 1º ano de Direito (Matutino)




Ecossocialismo: O caminho para a esperança!

 Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora de mundo?

Pedro Duarte Silva Sinicio Abib - Direito Noturno

        A palestra “Estamos no fim do mundo?”, trouxe importantes reflexões acerca da ordem imposta sobre nossas vidas, e a esperança de mudanças mas também de existência no futuro, principalmente ao tratar com uma geração que começa a construir seus passos e lutas sobre a ameaça da catástrofe climática, cada dia mais real. Em meio a debates sobre genocídios, golpes, reivindicações e questionamentos sobre conquistas e esperanças, um termo me chamou atenção, o Ecossocialismo, enquanto mecanismo de transformação e principalmente de esperança.

        Em um mundo em emergência climática e simultaneamente experienciando a ascensão da extrema direita, as possibilidades de futuros vão se esvaziando e a luta por dias melhores enfraquece. Donald Trump em seus discurso de posse, ao tratar sobre exploração de combustíveis fósseis durante seu mandato, disse: “we are gonna drill, baby, drill” (Nós vamos perfurar, baby, perfurar), evidenciando um negacionismo completo em relação ao aquecimento do globo e confirmando a incapacidade do atual sistema posto, o capitalismo, de lidar e oferecer soluções reais para o problema.

        Outro exemplo foi o do Ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, Ricardo Salles, que disse em entrevista que iria aproveitar a pandemia de COVID para “ir passando a boiada”, uma vez que o agronegócio estava sofrendo com problemas de produção. Ou seja, o sistema é tão ineficiente em relação ao tratamento da crise climática, que ao perceber suas consequências, a queda na produção devido a mudanças no clima, decide que não só não irá tratar do problema, como na verdade irá se certificar de trabalhar em sua intensificação, visando continuar com a lógica destrutiva que nos trouxe até aqui. A ordem ignora qualquer ciência e continua com o desmatamento e a exploração em busca de um lucro nunca suficiente. Seria como se um médico, recomendasse a um paciente com câncer no pulmão que continuasse a fumar, uma vez que o estrago já está feito e deve se tirar o “melhor proveito” da situação.   

        Sob tal contexto, percebi que o problema é na verdade a ordem, o sistema, o capitalismo, porque essa exploração destrutiva não pode ser separada dele, faz parte de seu cerne. A verdade é que a ordem que nos trouxe até aqui, está caminhando para o precipício, está ruindo e mesmo assim, tentando nos manter sobre seus princípios, dizendo que tudo ficará bem, quando na verdade, já falhou. Nós, então, nos encontraremos, em um tempo nada distante, diante de uma escolha, o fim deste sistema, ou o fim de nosso mundo. É neste dilema que enxergo o Ecossocialismo, uma nova ordem, uma nova oportunidade, enquanto um coletivo, de apresentar uma solução viável e principalmente justa, para um futuro ecológico e de justiça social, associando as lutas dos trabalhadores, à essencial luta ecológica, aos saberes ancestrais indígenas e as práticas coletivas. Somente assim poderemos instaurar um futuro possível e existente, é a tarefa da nossa geração. A geração que vive com a incerteza sobre ter um futuro, deverá ser a geração que transformará e possibilitará, um justo e sustentável, em um processo de convencimento de toda a população global, de que apenas com a mobilização contra o sistema posto, poderemos existir e compartilhar de um futuro, e que caso o contrário, estaremos todos enquanto espécie, em ameaça de extinção, tornando óbvia e única a escolha pela mudança. Precisamos mobilizar nossa luta ao redor do clima, para permitir que exista um mundo pelo qual possamos lutar.


quinta-feira, 27 de março de 2025

O Sol há de nascer novamente

No romance “A Náusea”, o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre evidencia, através da figura de Antoine Roquentin, um aspecto fundamental da modernidade: a angústia. A narrativa gira em torno de um jovem historiador que, de forma repentina, se vê invadido por um vazio interior ao ser confrontado com suas experiências, memórias e acontecimentos ao redor, desenvolvendo perturbações emocionais que o acompanham durante toda a trajetória.  

Mesmo que tenha sido escrita em 1938, a obra de Sartre é a representação absoluta de uma sociedade hodierna cada vez mais perdida diante de uma realidade repleta de tragédias e maldades em ascensão. A náusea sentida por Roquentin ao refletir a respeito de si mesmo ressurge no século XXI quando, percebendo o caminho que a humanidade vem tomando nos últimos 50 anos, fazemos a constatação: o mundo está acabando e não há nada a ser feito.  

De acordo com o The Washington Post, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou, em junho de 2024, que “no final de maio, mais de 1,5 bilhão de pessoas – quase um quinto da população do planeta – suportaram pelo menos um dia em que o índice de calor superou 103 graus Fahrenheit, ou 39,4 graus Celsius, o limite que o Serviço Nacional de Meteorologia considera fatal”. Simultaneamente, pesquisadores do clima preveem que a Terra atingirá um aumento na temperatura de 3ºC até o final do século, o que ocasionará o derretimento quase total das camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental e um consequente aumento exponencial do nível do mar.  

O Sexto Relatório de Avaliação (AR6) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que cerca de metade da população global vive atualmente em situação de escassez grave de recursos hídricos durante pelo menos um mês por ano, enquanto as altas temperaturas médias facilitam a proliferação de doenças endêmicas como dengue e malária. Pelo mesmo motivo, a produção agrícola sofre sérias dificuldades: na África, um continente conhecido por já enfrentar problemas severos de fome, o crescimento da produtividade diminuiu um terço desde 1961. Graças a enchentes e tempestades extremas vindas de alterações significativas na atmosfera, desde 2008, mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo foram obrigadas a deixarem suas casas. Com o aumento máximo de 1,5ºC exigido pela Conferência de Paris de 2015, as espécies terrestres com alto risco de extinção atingirão 14% de toda a biodiversidade e os custos com subsídios para as principais culturas alimentares ultrapassará os 60 bilhões de dólares. E o que é pior: a situação do aquecimento global chegou em um ponto evolutivo irreversível.  

No âmbito político, a experiência atual é marcada pelo renascimento do fascismo. Em seu primeiro discurso no Congresso norte-americano durante o segundo mandato, Donald Trump reafirmou suas posições contra a diversidade cultural e contra o suposto “privilégio” conferido às minorias no país, apelidado de “agenda woke”. Com base nessa negação institucional da pluralidade humana, a Secretaria de Educação do governo determinou o corte de verbas federais para colégios e universidades que promovam debates sobre variedade racial e sexual dentro do ambiente acadêmico. Entretanto, Trump não é um fenômeno isolado.  

Segundo o jornal Le Point, o retorno de Trump ao poder “não é um acaso. Ele faz parte de uma onda autoritária em ascensão, representada de forma ainda mais rígida por líderes como Xi Jinping, na China, Vladimir Putin, na Rússia, e Recep Tayyip Erdogan, na Turquia.”  

Na Alemanha, em 2024, o partido AfD (Alternative für Deutschland ou Alternativa para a Alemanha), classificado na extrema-direita, comemorou um “sucesso histórico” com a vitória no Estado de Turíngia, no leste do país. Nas eleições para o Estado da Saxônia, o mais populoso, a sigla chegou ao segundo lugar. Embora o partido já tenha até mesmo sido multado por fazer uso de um slogan nazista e defenda amplas medidas anti-imigração, nada foi capaz de cessar sua onda de popularidade entre os jovens alemães.  

Exemplos não faltam. Independentemente do local, essa dinâmica demonstra um fato: a opressão ganha força no cenário moderno e, com ela, o ódio.  

Diante de todo o panorama aqui abordado, surge uma pergunta: como é possível evitar a “náusea” de Roquentin em um mundo cada vez mais caótico e violento?  

A resposta é simples, mas importante: o medo se enfrenta com a esperança.  

Paulo Freire, patrono da educação brasileira, nos dá um conselho fundamental nesse sentido: “Para mim, é impossível viver sem sonho. A vida na sua totalidade me ensinou como grande lição que é impossível assumi-la sem riscos”. Isso significa que, onde há resistência, sempre existirá também a opressão. O que cabe a nós é não sucumbir perante as forças da tirania moderna: se organizar politicamente, desenvolver um estudo crítico do corpo social, ampliar as visões de mundo e lutar, ainda que minimamente, por uma conjuntura mais justa, acende em cada coração, jovem ou não, a chama da mudança.  

Através de muita luta política e, primordialmente, de muito conhecimento sociológico, poderemos entender que o amanhã é um dia que vale a pena ser vivido.  

 Vitória Alvarenga Pistore - 1º ano - Direito (Matutino)

Afrontar pelo resgate do ''nós''

 

Entende-se por ordem o estado de harmonia pleno entre as mais diversas áreas e grupos sociais. Por isso, percebe-se que o mundo contemporâneo encontra-se profundamente desornado, de modo que as pessoas –orientadas por uma hegemônica mentalidade capitalista- perpetuam um ciclo de apatia e desigualdade.

Sob essa ótica, nota-se que a humanidade hodierna acomodou-se a um sistema de relações superficiais e convenientes. Assim, quer seja enraizado em rotinas ‘’automatizadas’’, quer seja na inercia diante dos imbróglios sociais, o homem capitalista prioriza seu próprio ganho de capital em detrimento de uma sociedade mais unida e justa. Dessa maneira, o ‘’eu’’ egoísta prepondera sobre o ‘’nós’’ empático. Tal cenário, exemplificado por preconceitos como a LGBTQIA+fobia, ou ainda pelas guerras armadas e diplomáticas, como a de Gaza - genocídio do povo palestino- demonstra que atualmente a noção do coletivo perdeu-se. A cruel soberania do ‘’O problema do outro não é meu’’.

 Entretanto, ainda que constantemente ameaçados, percebe-se que ainda existem indivíduos críticos, que lutam diariamente para modificar, pouco a pouco, essa realidade desigual. Tais pessoas demonstram que o sonho de uma vida melhor –não só para mim, mas para o meu entorno- deve ser cultivado interna e externamente

Ser ativo, afrontar, e acolher é, muito além de uma resistência, uma contribuição para um mundo melhor, no qual a harmonia volte a ser a regra, e não uma exceção.


Positivismo utilizado como desculpa preconceituosa

O Positivismo foi uma corrente teórica criada pelo filósofo francês Auguste Comte que defendia que a regra para o progresso social seriam a disciplina e a ordem. Essa teoria influenciou o desenvolvimento do Determinismo, o qual sustenta a ideia de que, caso todas as leis científicas sobre a natureza e a sociedade fossem descobertas, seria possível prever com toda certeza o comportamento dos indivíduos e dos fenômenos sociais, já que tudo é determinado por tais leis. Esse pensamento parece, à primeira vista, ser algo revolucionário e que solucionaria diversas questões sociológicas. Entretanto, ele foi, e ainda continua sendo utilizado, para difundir e tentar dar algum tipo de “embasamento científico” a inúmeros discursos e ações preconceituosas. 

Na época da colonização do continente africano, os europeus colonizadores utilizaram como pretexto para subjugar a África que a Europa possuía uma geografia física mais favorável, como o clima, e pessoas com um “intelecto superior”, conseguindo assim progredir melhor que os outros países por conta disso. Em decorrência dessa análise, afirmavam que eram mais “desenvolvidos”, então teriam como papel dominar os africanos e “civilizá-los”.

Outro exemplo histórico importantíssimo que evidencia o uso do “saber científico” para disseminar ódio foi durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial. Os nazistas tinham como argumento que a “raça ariana” era mais pura biologicamente e mentalmente. Dessa forma, qualquer outro grupo de pessoas tinha que ser excluído na sociedade alemã e do seu sistema, como imigrantes, judeus, deficientes e homossexuais, sendo esses dois últimos considerados totalmente “sem valor”. 

Nos dias atuais, o Determinismo ainda se encontra presente na sociedade, como por exemplo, o dizer de que “pessoas com descendência europeia são melhores que qualquer outra pessoa”,  já que seus antepassados vieram de um “lugar melhor e mais civilizado” e é preciso sempre pensar no “progresso da civilização”.

Portanto, fica evidenciado como o Positivismo e suas vertentes influenciavam no passado  e continuam influenciando atualmente pretextos discriminatórios, levando a sociedade a ser cada vez mais dividida, marginalizadora e preconceituosa.


Giovanna Garboci Siqueira dos Santos - primeiro ano Direito noturno

A influência de Francis Bacon no pensamento Hobbesiano

Foi publicado em 1620, por Francis Bacon, um livro que revolucionaria o pensamento racional do homem e o impulsionaria para a era do iluminismo. Esse livro se chamaria Novum Organum, e versaria sobre um novo método de pensamento, mais racional, que não se baseava no senso comum e que buscava explicar detalhadamente (sem abrir margem para o fenomenológico) o método científico empírico e indutivo.

Para Bacon, o senso comum é resultado do labor da mente em buscar explicações rasas e sem fundamento racional para as indagações do cotidiano; ou segundo suas próprias palavras: “O intelecto humano não é luz pura, pois recebe influência da vontade e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem se inclina a ter por verdade o que prefere. Em vista disso, rejeita as dificuldades, levado pela impaciência da investigação; a sobriedade, porque sofreia a esperança; os princípios supremos da natureza, em favor da superstição; a luz da experiência, em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras; paradoxos, por respeito à opinião do vulgo.”

O senso comum, portanto, é tido como o propulsor que engendrou os pensamentos dogmáticos que buscavam explicar os fenômenos da natureza, e que obstaculizavam o verdadeiro conhecimento, livre de influências religiosas, opiniões pessoais e erros inerentes à própria natureza humana.

Thomas Hobbes, que foi secretário de Francis Bacon de 1621 até 1626, em sua obra mais conhecida: O Leviatã, utilizou da ideia do senso comum de Bacon para explicar algumas particularidades do espírito humano, como sua propensão à manipulação. Em um trecho, Hobbes afirma: “A ignorância dos significados das palavras é a falta de entendimento e dispõe os homens a aceitarem algo por confiança... e, além disso, os dispõe a aceitarem as coisas sem sentido daqueles que eles confiam”; essa observação está diretamente ligada à crítica de Bacon ao senso comum, visto que Hobbes reconhece a facilidade com que os homens aceitam ideias e crenças sem questionamento, muitas vezes baseados na confiança em autoridades. Além disso, Hobbes recorre à mesma conciliação entre fé e razão presente em Bacon para explicar a crença dos seres humanos em um ser Divino. Ele escreve: “A curiosidade, ou o amor pelo conhecimento das causas, faz que o homem busque a causa; e outra vez; a causa daquela causa, até que, por necessidade, chegue ao pensamento de que existe uma causa sem causa anterior que é eterna, e a isso os homens chamam de Deus. Por esse motivo, é impossível fazer qualquer investigação profunda das causas naturais sem estar inclinado a acreditar na existência de um Deus Eterno; mesmo não tendo qualquer ideia Dele na mente que corresponda à Sua natureza”.

Portanto, é evidente que Hobbes utilizou importantes conceitos do empirismo baconiano para fundamentar suas teorias, aplicando-os tanto na análise do comportamento humano quanto em sua reflexão sobre o papel da religião na sociedade e na política.

Yago Arbex Parro Costa - 1° ano - Direito (Noturno)

quarta-feira, 26 de março de 2025

Há quanto tempo constroem nossa memória?

A memória é uma ferramenta essencial que conecta o passado ao presente, permitindo que histórias individuais e coletivas se encontrem e contribuam para formação da nossa identidade. É nesse diálogo entre o ontem e o hoje que somos chamados a revisitar narrativas apagadas e interpretá-las a luz da atualidade. 

No livro Memórias de Plantação: episódios de racismo cotidiano, Ganda Kilomba nos convida a refletir sobre o racismo no mundo contemporâneo e a forma como ele permanece profundamente enraizado em várias esferas da sociedade. A autora destaca que essa problemática também afeta o ambiente acadêmico e a produção de conhecimento que surge dele. Kilomba demonstra como, atualmente, aqueles que se dizem responsáveis por gerar conhecimento frequentemente desqualificam suas ideias, usando argumentos impregnados de preconceito, mas mascarados de neutralidade. Esses argumentos buscam rotular o saber da autora como subjetivo ou emocional, desviando-o do que é considerado "legítimo". 

Nessa perspectiva, o pensamento positivista de Auguste Comte, ao priorizar a ciência como única forma legítima de conhecimento e relegar outros saberes a esferas secundárias, ajuda a compreender a crítica de Kilomba ao racismo epistemológico presente na academia. Enquanto o positivismo buscava uma suposta neutralidade científica, muitas vezes excluindo narrativas subjetivas, Kilomba mostra como essa "neutralidade" tem sido usada para deslegitimar experiências e memórias de grupos historicamente silenciados. Assim, sua obra desafia essa herança ao evidenciar o saber ancestral como um elemento essencial para a construção de um pensar mais justo e inclusivo, pois em um mundo em que a desigualdade social se mostra como uma ferida aberta e há muitos séculos não cicatrizada, a memória e o conhecimento tornam-se os melhores dos curativos: resistência.

Assim, pode-se compreender a memória enquanto uma poderosa arma contra as estruturas que sustentam o racismo. Ao resgatar histórias apagadas e dar voz ao que foi silenciado, reafirmamos a importância de enfrentar preconceitos enraizados e construir uma sociedade mais justa. É no ato de lembrar e recontar que nasce a possibilidade de transformação, de cura e de resistência frente à opressão e preconceito. E tal luta deve ser diária, constante e provavelmente será eterna, para que um dia possamos nós contarmos nossas narrativas e sermos os próprios que constroem nossa memória.

Pedro Augusto da Costa Leme - 1º ano Direito, matutino