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domingo, 27 de setembro de 2015

Cortam-se as flores, deixam-se os cabos

Sabia-se de uma coisa única: os jagunços não poderiam resistir por muitas horas. Alguns soldados se haviam abeirado do último reduto e colhido de um lance a situação dos adversários. Era incrível: numa cava quadrangular, de pouco mais de metro de fundo, ao lado da igreja nova, uns vinte lutadores, esfomeados e rotos, medonhos de ver-se, predispunham-se a um suicídio formidável. Chamou-se aquilo o “hospital de sangue” dos jagunços. Era um túmulo.(trecho de os sertões)

As pessoas choravam nos seus depoimentos, ficou difícil para contermos o nosso choro. Estavam arrasadas, sem ter para aonde ir. A prefeitura ofereceu uma bolsa aluguel de 500 reais para alugar uma casa, impossível, inclusive sofriam o preconceito de serem moradores da ocupação Pinheirinho. Por volta das 04 da tarde deixamos o abrigo, as pessoas queriam continuar relatar as suas tristezas, foi delicada a nossa despedida, deixando para trás aquele povo sofrido por uma violência que jamais esquecerão em suas vidas.(trecho de reportagem sobre o caso pinheirinho)

Com os constantes debates acerca das leis e do direito, dois teóricos destacam-se com visões opostas: Hegel e Marx. O primeiro coloca a lei como necessária para a liberdade e o direito como uma forma de suprir as demandas da evolução do homem em sociedade, já que com ele toda limitação e singularidade individual ficam suprimidas; assim, o direito consolida-se como um pressuposto para a felicidade. Marx, por outro lado, classifica o direito como um instrumento de dominação político-social classista, sendo o Estado de Hegel apenas uma abstração, fundado em uma ilusão que impede a busca da felicidade real, deixando sempre o sonho de colher as flores, sem jamais ter a liberdade para alcançá-las. Baseando-se nessas duas correntes de pensamento político-filosófico, analisarei dois casos de luta pela permanência no Brasil: Canudos e Pinheirinho, que apesar de terem ocorrido em épocas distintas, contaram com o mesmo desfecho.
O massacre ocorrido em Canudos é considerado uma das maiores vergonhas da história brasileira. A comunidade era liderada por Antonio Conselheiro, o ícone de um movimento popular de fundo sócio-religioso, e abrigava diversos moradores que proviam seu sustento e conviviam pacificamente. Isso irritou diversos representantes da ordem social burguesa, como o clero e os latifundiários, que se aliaram ao governo para destruir essa realidade, não sem antes difamar os habitantes, chamando-os de monarquistas e acusando-os de querer derrubar a República; com isso, rapidamente angariaram o apoio da população. Assim, deu-se início a tragédia. O Estado como libertador dentro da concepção hegeliana provou-se uma farsa, já que apenas libertou os ricos de conviverem com a realidade de miseráveis lutando colher as flores há tanto tempo prometidas.
Em relação ao caso Pinheirinho, é fácil traçar um paralelo. Novamente, o direito provou valer apenas para aqueles que podem comprá-lo, mesmo que isso signifique ignorar direitos fundamentais, como o direito a moradia. Como no caso anterior, boatos foram espalhados sobre o local, dessa vez por intermédio de uma das maiores redes televisivas do país, o que mais uma vez trouxe o apoio popular (isso é, o apoio da população paulista da direita burguesa). Dessa vez, entretanto, tentativas de conseguir justiça por meio do judiciário foram feitas, mas falharam. Um novo massacre ocorreu, e nenhuma lei foi capaz de impedi-lo. Vigorou na República contemporânea a palavra de ordem do estado da Velha República: “A questão social é uma questão de polícia”.
O fato do direito conduzir os interesses de maneira classista e desigual está mais do que provado; aliás, demonstra-se não apenas nos casos de alta repercussão como os citados, mas principalmente na realidade cotidiana de uma boa parte do povo que definha para engrandecer uma pequena parcela da sociedade. Como os burgueses têm consciência de que criaram seus próprios coveiros, infundem nestes ideologias que os permitem sonhar com uma vida de melhor qualidade, sem que nunca cheguem realmente a possuí-la. E mesmo quando ela está quase palpável, tiram-lhes tudo o que quase conseguiram, deixando apenas a lembrança do que poderia ter sido, mas jamais ocorreu. Cortam-se as flores, deixam-se os cabos.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

                                     Tenho,logo existo



  Dentro do corpo social moderno vigora, com o adentrar dos meios de produção capitalistas, a sociedade do consumo. Nela, o desejo de adquirir bens materiais, muitas vezes desnecessários, rege a vida cotidiana dos cidadãos e molda-os para um modo de pensar individualista e provido de desejos líquidos, retirando do homem o bem maior que poderia almejar possuir: a liberdade.
  De fato, o ser humano encontra-se preso aos seus desejos de consumo que jamais podem ser preenchidos verdadeiramente, abdicando de sua liberdade natural para viver de modo individualista, em que trabalha fervorosamente, dando lucro de uma pequena parcela burguesa (através da mais-valia), para comprar objetos que logo serão descartados e que não lhe fariam falta alguma, mas são estes desejados ardentemente devido à imposição do sistema capitalista. Este, ao condicionar o modo de vida da população, retira dela sua liberdade, sendo -quase- impossível recuperá-la. A animação acima demonstra esse fato, já que nela vemos o ser humano que nasce em uma gaiola colocada pelo meio social que condiciona seu comportamento, pensamento e desejos, principalmente quando se trata do ato de consumir. Porém, mesmo quando tenta libertar-se das amarras do capital, seu coração já está aprisionado pelas perversas vontades criadas pelo modo de produção capitalista, impedindo-o de alcançar a plenitude de viver fora das amarras sociais burguesas.
  Segundo Engels, ao explicar o materialismo dialético, o material está relacionado com o social e o psicológico. Assim, o pensador descreve juntamente a Marx, as agruras do método de produção capitalista e propõe uma solução para o individualismo do cidadão e a liquidez de seus desejos: o governo socialista. Este, contudo, não seria utópico como suas versões apresentadas anteriormente, mas sim pautado na realidade. Nele, o proletariado toma em suas mãos o poder do Estado e toma para si os meios de produção, destruindo a si mesmo como proletariado e a diferença de classes como tal e com isso o próprio Estado. Alcança-se, assim, a verdadeira liberdade.
  A sociedade do consumo está baseada, portanto, no individualismo do cidadão e em seus desejos líquidos. Isso destrói a liberdade natural do ser – já que este se encontra agarrado profundamente aos anseios capitalistas – que só pode ser recuperada por meio da instalação de um governo igualitário e libertário, o socialista.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

                              Ditadura Social

“E é meio engraçado como você acha que fez uma escolha que te exclui da indústria da moda, quando, na verdade, você está usando um suéter que foi selecionado para você pelas pessoas nesta sala entre uma pilha de coisas.” 
(O Diabo Veste Prada)

   Segundo Durkheim, fato social “é todo aquele que independe do indivíduo e tem como substrato o agir do homem, de acordo com as regras sociais.” Assim, o homem é instruído a reproduzir um modelo coletivo de comportamento através de regras sociais coercitivas e que, caso sejam desobedecidas, trazem-lhe sanções dentro de seu meio social. Exemplo disso é a indústria da moda, que dita padrões coletivos e exclui a possibilidade de individualidade entre aqueles que desejam ser aceitos dentro da sociedade.
   Diariamente, padrões de estética, roupas e modos adequados de comportamento são criados, forçando homens e mulheres a aceitá-los caso queiram receber uma aprovação dentro de seus grupos sociais. Exemplo disso é colocado no filme “O Diabo Veste Prada”, em que a personagem principal transforma sua aparência e seus hábitos para se adequar ao meio e acaba perdendo sua essência, o que a transforma em apenas mais um produto da ditadura social. Esta, além do mundo ocidental, mostra-se presente em diversas culturas, como a muçulmana, por exemplo, em que as mulheres vestem-se de modo padronizado para demonstrar respeito à religião praticada e pela imposição que lhes é acarretada de acordo com as leis de cada país.
   Há, contudo, aqueles que se arriscam e decidem viver de maneira autêntica e livre de imposições. Estes, rapidamente, transformam-se em párias. Caso esse o da universitária Geisy Arruda, estudante universitária que ocasionou um furor dentro do estabelecimento de ensino ao utilizar roupas consideradas inapropriadas, sendo hostilizada e,futuramente, expulsa da própria universidade.Com isso demonstra-se a força do fato social,que estabelece medidas punitivas em prol de restabelecer a norma.  
  O fato social está, portanto, presente na sociedade de uma maneira tão enraizada que é improvável que se lhe escape. O caso da moda e de outros padrões comportamentais são exemplos nítidos desse fato, ao reproduzirem um modelo que visa à sincronia das ações levando ao “estado da alma coletiva”, citado por Durheim. Isso, porém, demonstra ser algo perigoso, pois dentro dessa ditadura não se admite diferenças, o que leva facilmente ao ódio e a exclusão social.