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segunda-feira, 4 de julho de 2022

Autoenlaço, o desespero por si mesmo e demais divagações sob o viés da Sociologia Compreensiva

Em algum lugar entre o etéreo e o tangível, caminhava um ser despossuído de feição, aparência e função. Inserido nos campos quiméricos da existência – onde tudo parecia apresentar razão para existir – ele simbolizava uma tela em branco, enquanto aguardava para ser preenchido e ressigificado pelas cores do indubitável. Ele vagava, sentindo os aromas daquilo que desejava ser, contudo, ainda não era capaz de enxergar os caminhos corretos para tornar-se, ao invés de somente almejar. O que estimulava cada um dos seus passos era a suspeita de que no seguinte residiam as respostas para todas as perguntas desesperadas da sua essência incompleta e incerta. Caminhou por mais dias do que conseguia contar.
Contudo, após tanto buscar, deparou-se com algo nunca visto antes: uma estação de trem. Deserta como estava, parecia estar em desuso há bastante tempo. Nenhum sinal de ocupação, nenhum sinal de respostas. Ainda assim, o ímpeto da sua curiosidade o impediu de retornar para o caminho que antes seguia. Então, após subir os degraus da entrada principal, seguiu – assim como sempre – a esmo; sentou-se em um dos bancos empoeirados e esperou. Nenhum trem, nenhum resquício de esperança. Porém, a partir de determinado momento, ouviu o ecoar de um rádio, que pronunciava palavras enevoadas – talvez em um idioma estrangeiro. Aguardou ainda sentado, por mais um tempo, sob o subterfúgio de estar presente no espaço para caso o som parecesse estar mais próximo. A voz não aparentava desejar se aproximar; assim, o ser, guiado pelas ondas sonoras, foi em busca do único resquício de vida que teve acesso durante muito tempo. 
O som fez com que ele fosse levado a uma bilheteria – intitulada do que, aparentemente, era o nome da estação de trem: Cultura. Lá, encontrou o fatídico rádio, que era embalado por uma mulher bastante idosa. Ela possuía longos cabelos grisalhos, infinita rugas ao longo de todo o rosto, e um cachecol grande e vermelho. Havia apenas uma lamparina em toda a bilheteria que acentuava ainda mais os traços do cansaço situados ao longo de toda a essência daquela mulher. Quando se apresentou, disse que seu nome era Judite e que não encontrava alguém há muito tempo. Parecia estar radiante, apesar da exaustão promovida pela idade avançada. Comentou, também, que os trens passariam somente durante a madrugada e que conseguiria prestar assistência, caso assim eu desejasse. Agradeci e imediatamente senti um incômodo inundar o meu corpo. Não sabia o meu nome, tampouco a função da minha existência. Judite existia para os bilhetes e para consertar o rádio – conforme os postulados seguintes dela –, mas para que eu servia? Não saberia dizer. Para todos os efeitos, apresentei-me como um viajante. 
Ela disse que eu não era o primeiro viajante a passar por aqueles confins e perguntou-me qual era o meu destino. O desconforto retornou – ou não havia ido embora, de fato. Alguns minutos escorreram e respondi que não tinha ideia de qual opção escolher. Eram tantas e eu sou tão pouco. Ela fixou o olhar em mim por alguns instantes e, finalmente, disse que não havia problemas e que desde sempre lidou com perdidos como eu. Não sabia que eu estava perdido, mas realmente fez sentido. Nenhuma outra palavra me definia tão bem.
Judite deixou o rádio – ainda ligado – em cima da mesa, girou cadeira e, quando virou para mim, estava com uma caixa repleta do que pareciam ser bilhetes prateados. O nível de complexidade era diverso – alguns eram mais simples e outros, mais rebuscados –, porém, todos simbolizavam certeza e, pela primeira vez, estive perante uma decisão importante, e não apenas diante escolhas prosaicas. 
Judite olhou para mim e perguntou se eu estava com alguma bagagem. Eu disse que não e que carregava comigo somente os pilares de mim mesmo e as lembranças daquilo que já se foi (li essa frase em algum outdoor, acho; pareceu-me pertiente). Ela sorriu e levantou-se da cadeira, saindo logo em seguida. Durante os momentos subsequentes, a noção de solidão retornou e preencheu todo o espaço. Até mesmo o calor da luminosidade da lamparina estava esvaindo-se. Nenhum sinal de trens, nem de respostas. 
Após certo tempo, Judite retornou com uma mala, passou-a por cima do balcão e entregou-a para mim. Pediu-me para abrir e verificar se estava do meu gosto. Quando abri, encontrei diversas roupas, livros e utensílios domésticos. Avistei, dentre outros aspetos,  um chapéu, um livro de filosofia e uma bússola. Fiquei tão atônito ao ponto de esquecer-me de agradecer pelo presente. Era a primeira vez que eu ganhava um. Pensei em recusar, mas, analisando a felicidade da doadora, seria, no mínimo, um ultraje. Assim, peguei algumas coisas aleatoriamente e, ao final, estava vestindo uma calça marrom, uma camiseta amarela, e uma grande blusa esverdeada. Coloquei o chapéu (já mencionado) sobre a minha cabeça e calcei uma bota preta. Estava sentindo-me completo, também, pela primeira vez.  
“Tudo isso irá ajudar você a se encontrar e a definir quem você é”, disse Judite. Admito que não sabia qual era a utilidade do livro de filosofia, bem como de muitos outros fatores presentes na mala, mas estava certo de que a bússola seria de grande ajuda e não pretendia deixar que escapassem as oportunidades de entender factualmente o que tudo representava. Decidi acreditar em Judite.
Disse para ela que não conseguiria pagar por nada daquilo, nem mesmo pelo bilhete, e ela respondeu prontamente que eram presentes da própria estação de trem. Ela não usaria aquelas coisas e, considerando o fato de que, segundo ela, os trens estão sempre passando por aqueles trilhos, ela gostaria de entregar todos os bilhetes pendentes, para todos aqueles que precisarem – talvez como forma de filantropia. Ela disse que, assim como eu, já esteve perdida. Após todos esses eventos, finalmente encontrei a minha voz e agradeci por todo suporte. Ao final, Judite entregou para mim um dos bilhetes mais esbeltos e desejou que a minha viagem fosse boa e que eu fosse feliz. Acenei com a cabeça, retribuí o sorriso e, apertando o bilhete na mão direita e a mala na esquerda, afastei-me da cabine de bilhetes. Ouvi o ressoar da locomotiva; ela estava próxima. 
Antes que o trem parasse na estação, ouvi a mulher dizer:
- Você chegou até aqui, meu caro, e merece minha admiração por isso. Posso ter ajudado com o destino, mas a viagem ainda é sua, assim como todos os caminhos condizentes a ela. Você está apenas no início e estou certa de que, ao longo de toda a sua existência, você encontrará muitos outros trilhos e trens. Sempre que estiver em dúvida de qual caminho escolher, olhe a sua bagagem. Lembre-se sempre de que ela define você! 
Quando olhei, ela estava acenando com o cachecol vermelho. Acenei de volta, com um sorriso brilhante no rosto. Notei que o rádio havia voltado a tocar. Ele não seria o único a trazer alegria, no dia de hoje. O trem chegou e, olhando em volta e para as incertezas do meu passado pela última vez, parti em direção ao encontro ao meu futuro. Sentia ele sedento por mim; também estava sedento por ele. 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Epifanias do ressignificar

 

Certa vez, não inesperada ocasião

Um operador retirou suas luvas,

Rasgou o avental e limpou as suas mãos

Encarou a esteira à sua frente

Deparou-se com os olhares curiosos.

Encontrava-se inquieto

Nunca antes havia sido interpretado.

 

Em direção à porta, ele despediu-se.

Ao lado do instante do adeus, ficaram para trás

A sua depressão, as engrenagens,

Suas relações de produção,

As noites exaustivas após o expediente,

Seus turnos de dezesseis horas,

Sua segurança e, com ela,

O seu título de legítimo cidadão.

 

Eles disseram que ele teria o seu nicho

Eles asseguraram que seria feliz e digno

Eles afirmaram... enfim.

Hipóteses já não mais possuíam importância.

Ele ousou almejar existir como o planejado

Em troca, recebeu o extremo contrário:

Inadequação com o sistema.

 

Ideias e anseios quase o arruinaram.

Contudo, isso não mais aconteceria

Ele, ao ultrapassar a última porta,

Após ter sentido a densidade da poluição,

Tendo enxergado o vermelho acinzentado do anoitecer,

Tendo escutado os rumores do início da vida noturna,

Sentiu os sussurros do vento chamarem-no.

 

Lembrou-se das suas inclinações anteriores

Ouviu o seu eu do passado sedento por luz.

No âmago do recordar, buscou uma memória.

Queria ser escritor.

 

Antes que o seu gerente, irremediável e ranzinza,

O pegasse e o sufocasse por ter paralisado a Mecânica

Ele subiu em sua bicicleta, encarou o horizonte e

Partiu em direção à casa de sua mãe.

Naquele dia, pela primeira vez, apresentaria uma novidade:

Ele seria feliz. 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Conjuntura estrutural e vinculante dos fatos sociais: uma abordagem contemplada por cabelos azuis e um casaco rosa chock.

 Estimado Lemos,


Apesar de já possuir a convicção de que a nossa intimidade dispensa quaisquer formas de apresentação, sinto-me inclinado a optar por alguma, tendo em vista o fato de que praticamente tudo acaba sendo inserido na internet, nos tempos modernos. Considerando que o presente comunicado demonstra uma tendência irrevogável de ser publicado, desejo que ele seja precedido por uma breve apresentação.

Chamo-me Roberto Gonçalves Marcondes, tenho cinquenta anos e, atualmente, presidio uma empresa que atua no ramo contábil, prestando suporte para pessoas jurídicas. A organização comandada por mim é chamada de “Contos de Réis”, existe há 70 anos e possui seis filiais espalhadas pelo país. Durante toda a minha gestão, iniciada em 2013, almejei propiciar uma estrutura organizacional exímia no que tange ao controle financeiro. Assim sendo, tradições e métodos que garantiram a eficiência no passado continuam sendo aplicados, com ressalvas mínimas. Nenhum planejamento que as coloque em risco é aceito e uma exemplificação apropriada para este fato é a implantação de sistemas digitais de controle financeiro. Meu antecessor (o meu pai) sempre insistiu em reiterar que computadores eram instrumentos de alienação e de dominação comunista. Ele sempre foi sábio, então, por um tempo, segui os seus conselhos e, assim, procurei protelar a inserção de computadores nas rotinas contábeis. Porém, com o advento das necessidades atuais, as empresas começaram a desejar um tratamento digital mais aprimorado e digitalizado. Não tive outra opção senão ceder. Atualmente, temos um dos melhores sistemas do mercado (de acordo com a Jéssica, do setor financeiro), mas, ainda assim, insisto em fazer todos os balanços patrimoniais da empresa em um livro físico. Não se pode estar suscetível à alienação, tampouco à insegurança do âmbito virtual. Contudo, este não é o cerne do quadro em questão, como já deve ser do seu conhecimento, Lemos.

O estímulo que propiciou em mim o desejo de encaminhar-lhe o presente e-mail foi a última entrevista de emprego realizada por mim, no dia de ontem, – de modo mais específico, a mulher que a entrevista em questão me apresentou. Você, enquanto o advogado da empresa, certamente já conhece as minhas predileções em termos de postura profissional. O currículo da mulher (cujo nome não apresentarei para preservar-lhe o direito de privacidade) era excepcional. Ele expõe trabalhos em grandes empresas de contabilidade, uma graduação no ramo e, ainda, em Economia, e, pelas minhas conferências, ela não teve nenhuma questão problemática durante as suas experiências anteriores. Estava prestes a contratá-la imediatamente, Lemos. Ela parecia ser a funcionária ideal. Porém, como parece ser de praxe, fui enganado pelas expectativas. Nunca me senti tão transtornado.

Na ocasião da entrevista, ao me aproximar da sala específica para ela, passei ao lado de uma mulher com uma aparência questionável. Não digo no sentido de beleza, pois outras mulheres não me interessam mais do que a Cláudia (aliás, completamos vinte anos de casados, ainda na quarta, dia 28). O que me deixou intrigado foram, em específico, dois fatores: (I) a cor dos seus cabelos é azul e (II) ela estava com uma roupa que nunca seria adequada para um espaço organizacional. A jovem portava um casaco de pelos intensamente rosa, uma blusa branca, uma calça preta com incontáveis rasgados e um tênis (que chamam de All Star), também rosa. A minha secretária, Carla, disse ao meu ouvido que era ela quem seria entrevistada e, neste momento, silenciosamente agradeci ao meu filho por ter feito com que eu pagasse um plano de saúde. Senti os prenúncios de um infarto.

Você sabe que eu não sou preconceituoso. Todos podem circular como bem entenderem, contanto que não o façam na minha presença. Não sou capaz de aceitar uma postura tão negligente. Voltemos ao ponto central.

Após ter acalmado os meus impulsos de dar meia-volta, notei que a jovem estava com a mão estendida para mim. Não pude deixar de notar que ela carregava uma aliança de casamento. Ao menos era casada. Cumprimentei-a brevemente com medo de que a alegria que irradiava dela fosse transmitida para mim e me fizesse colocar algum fator gritantemente rosa. Levei-a em direção à sala, ao lado da Carla; em seguida, iniciamos a entrevista.

O relato dela foi estritamente fiel ao currículo. A formação dela era, de fato, admirável. Através do que ela explanou, notei traços de organização, destreza e de eloquência fascinantes. Juntamente com esses pontos, verifiquei, também, que o casaco rosa parecia estar rindo de mim. Decerto, uma afronta.
Forcei-me a conter o meu impulso de pedir que Carla trouxesse um roupão para a jovem para que esta o utilizasse como substituto do casaco. As minhas confirmações de acompanhamento da conversa eram monossilábicas. Estava espantado pelo contraste entre o azul e o rosa e, concomitantemente, encantado pela formação profissional da mulher. Estava realmente indignado.

Ela finalizou a sua apresentação com algo em torno da seguinte declaração: “aah, gostaria de postular, para efeitos de maior compreensão, que sou, também, uma blogueira de moda”. Lemos, senti o impulso de sair correndo. Como eu poderia aceitar uma blogueira de moda (seja lá o que isso for), com os seus trajes intensamente coloridos e com o seu cabelo assustadoramente azul prestando auxílio a uma startup internacional? Por razões óbvias, não tive outra escolha. Exclui de imediato a possibilidade de contratação.

Agradeci pela exposição direta dos fatos e fiz elogios quanto à sua formação; porém, ao final, não plantei sementes de esperança. Disse a ela que, apesar de tudo, ela não poderia ser aceita em um ambiente contábil justamente por ser colorida demais. O clima que se sucedeu não foi amistoso. Ela me disse que eu estava sendo desrespeitoso, simplista e superficial, e que exporia o caso nas redes sociais. Carla direcionava olhares severos para mim.

Ao final da conversa, eu enxergava apenas dois tons: rosa e azul. Tinha de sair dali o mais rápido possível, posto que eu já havia tornado tudo muito complicado quando propus que, para ser admitida, ela pintasse o cabelo de preto e contatasse o estilista da minha mulher (ela não aceitou o cartão com o número dele). Em síntese, a entrevista foi um caos e, quando ele foi mitigado, agradeci novamente pela exposição do currículo perfeito. Ela foi acompanhada por mim até a saída do escritório e, desta vez, não houve aperto de mão.

Despedi-me e, enquanto estava indo em direção ao meu escritório, ouvi Carla pedindo o “arroba” da jovem. Espero que isso não seja um estabelecimento de compras de roupas e acessórios. Caso seja, terei de ter uma conversa bastante delicada com Carla e acredito que ela não gostará... Após todas as cores da minha visão terem sido reconvertidas para os tons de cinza característicos da minha sala, pude finalmente descansar.

Hoje, durante a manhã, Cara não olhou nos meus olhos e apenas disse que talvez seria interessante contatar o advogado da empresa, como segurança. É esta a razão do meu contato, Lemos. Precisamos resolver esta questão antes que outra empresa de design cancele o contrato conosco. Já se foram três, somente nas primeiras horas de atividade, de hoje.

Confio na sua capacidade, meu caro amigo!

Desde já, muitíssimo obrigado pela assistência!

Roberto Marcondes.

P.s.: para caso seja interessante e indispensável comentar, enquanto escrevia este e-mail, Carla mostrou para um “story” (pesquisei no google e parece-me que se trata de um vídeo curto) da jovem entrevistada, no dia de ontem. Nas imagens, ela comenta acerca de como os fatos sociais exercem uma influência estrondosa e silenciosa, até em entrevistas de emprego; regulando meticulosamente a forma de existir de todos aqueles que pertencem a uma sociedade. Tentei buscar, também, o significado dos fatos sociais no google, mas, desisti. Achei uma grande loucura. Fatores que influenciam de modo determinante a vida de todos, incluindo aqueles que utilizam casacos malucos? Onde já se viu? Realmente insustentável. Preciso, e com urgência, agendar uma consulta com o cardiologista.