No célebre filme brasileiro Que Horas Ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert, a protagonista Val, uma mulher nordestina que deixou sua região para trabalhar como empregada doméstica para uma família rica de São Paulo, é vítima de constantes opressões e julgamentos, principalmente devido à sua origem e classe social, atitudes que são gradativamente normalizadas pela personagem. No entanto, quando sua filha, Jéssica, muda-se para viver com Val, essas visões são veementemente contestadas pela jovem, que se recusa a aceitar essas barreiras invisíveis - mas extremamente rígidas - impostas entre as classes sociais. Paralelamente à realidade pós-moderna em que vivemos, as classes hegemônicas buscam se afastar, por meio de muros - sejam eles concretos ou ideológicos - daqueles que julgam "indignos" de sua companhia, fato não restrito, lamentavelmente, dentro da sétima arte. Dentre essas formas de segregação, a meritocracia é a mais forte e persuasiva forma de desunir a sociedade, sendo o mais podre fruto da ausência de imaginação sociológica.
Charles Wright Mills, ilustre sociólogo norte-americano, publicou, em 1959, o livro denominado A Imaginação Sociológica. Nessa obra, intitulada a partir da teoria central do livro, Mills destrincha a importância do pensamento crítico e racional acerca da realidade individual, considerando os contextos histórico, econômico, político e social que afetam e são afetados pelos cidadãos simultaneamente. A imaginação sociológica é a capacidade de associar experiências individuais a estruturas sociais mais amplas. Mills descreve isso da seguinte forma no primeiro capítulo de sua obra: "(...) E apesar disso, os homens não definem, habitualmente, suas ansiedades em termos de transformação histórica e contradição institucional. O bem-estar que desfrutam não o atribuem habitualmente aos grandes altos e baixos das sociedades em que vivem. Raramente têm consciência da complexa ligação entre suas vidas e o curso da história mundial."
Além disso, a meritocracia - palavra que significa "poder do merecimento" - está diretamente relacionada à maneira como a imaginação sociológica é suprimida na contemporaneidade. Esse termo, nos dias atuais, tenta exprimir a falsa realidade de que qualquer indivíduo, independentemente do contexto que o cerca, é capaz de alcançar seus desejos caso se esforce suficientemente. O que é deixado de lado nessa linha enganosa de raciocínio é o fato de que não há equidade nas relações humanas: a grande maioria da população nasce em um contexto sufocante e precisa nadar contra uma maré que é, frequentemente, desfavorável para conseguir progredir em sua vida. Logo, nessa realidade fundada por princípios burgueses e neoliberais, na qual a riqueza aparenta ser o único sinônimo de sucesso em uma vida, são bem vistos aqueles que detêm essa fortuna - mesmo que por herança - enquanto o resto da população, para se provar honroso, precisa vencer os desafios ao seu redor "por mérito próprio". Essa visão é fundamentalmente oposta à imaginação sociológica, por desconsiderar a influência das estruturas sociais na vida dos indivíduos e servir apenas como plataforma para legitimação do poder de uma classe hegemônica e manutenção dessa realidade.
Para o Direito, é necessário que, na formação de cada jurista, a imaginação sociológica esteja profundamente enraizada em seu conhecimento, a fim de evitar a perpetuação de uma realidade injusta e desigual, rompendo muros ideológicos, como o da meritocracia, que segregam os indivíduos. Assim, quando os operadores do Direito forem capazes de agir veementemente segundo a imaginação sociológica, a sociedade estará mais próxima de se libertar de julgamentos impregnados de preconceitos, como o classismo, o machismo e o racismo estrutural, e, somente então, a deusa Têmis, representada na estátua da Justiça, estará, de fato, vendada.
Portanto, é notório que, na realidade atual, marcada pela forte segregação entre os indivíduos, especialmente em razão de suas classes sociais, a meritocracia é usada como ferramenta de manutenção do poder de uma classe dominante. Nesse contexto, apenas a imaginação sociológica pode conduzir à emancipação de uma visão de mundo carregada de preconceitos. Assim, realidades como a de Val, vítima do racismo estrutural e da desigualdade social, poderão tornar-se, progressivamente, menos comuns na sociedade.
Pedro Raszl Malerba de Oliveira
1° ano de Direito matutino
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