O Direito é comumente visto como uma ciência lógica, baseada em normas e leis frias; porém, a realidade revela que ele é conduzido por pessoas e, consequentemente, está sujeito a erros da mente humana. Existe a ilusão de que a racionalidade do Direito é inata e de que se pode fazer julgamentos sem utilizar nenhum método; porém, a parte racional do Direito é uma conquista técnica e social que envolve a desconfiança em relação às verdades já pré-estabelecidas e às experiências vividas na sociedade atual. O conceito de "antecipação da mente", criado por Francis Bacon, está intimamente relacionado com a razão dentro dessa ciência, uma vez que, ao não utilizar instrumentos científicos corretos para perceber o mundo, acabamos por interpretá-lo com base nessa antecipação, que está relacionada com preconceitos sociais e o senso comum.
Trazendo essa discussão para a atualidade, existe o questionamento de quando uma situação se torna verdadeiramente um problema jurídico. Como exemplo, as leis de cotas raciais, que reservam vagas em universidades para estudantes negros, pardos e indígenas, foram implementadas somente em 2012, por meio da Lei de Cotas, após o surgimento de lutas e movimentos sociais que buscavam reduzir as desigualdades no acesso ao ensino superior. Anteriormente a essa data, o racismo estrutural sempre existiu no sistema brasileiro; porém, havia a falsa ilusão de que o Brasil era uma democracia racial, na qual todas as pessoas, independentemente da raça, viviam de forma harmoniosa e igualitária. Essa visão do século XX era, em grande parte, baseada na ideia de meritocracia e também na noção de que essa desigualdade era um problema individual. Segundo Wright Mills, a "imaginação sociológica" possibilita a conexão das trajetórias individuais à narrativa ampla da sociedade, revelando a verdadeira racionalidade do Direito. Sendo assim, nesse contexto, as cotas raciais se tornaram um problema jurídico somente quando se interpretou que o racismo estrutural e a desigualdade nas universidades eram uma questão pública, e não apenas um problema privado.
Além disso, a racionalidade jurídica exige o rigor do método proposto por Descartes, que consiste na necessidade de considerar como falso tudo aquilo sobre o qual se possa ter a mínima dúvida. Assim, para que o Direito atue de forma verdadeira, ele deve buscar fundamentos que sejam claros e distintos. No contexto das cotas raciais, as evidências do racismo estrutural e as estatísticas de desigualdade servem como instrumentos e recursos científicos que impedem decisões jurídicas pautadas em doutrinas viciadas e errôneas.
Portanto, o Direito torna-se racional a partir da constante evolução das pautas e da regulação permanente do intelecto, que impede que a mente seja entregue ao seu movimento espontâneo. Em vez de confiar em conceitos pré-estabelecidos e nos preconceitos que rondam a sociedade, a justiça exige o uso de método e de dados que permitam ao indivíduo responsável entender que a verdade não é uma percepção passiva e imutável, mas sim uma construção ativa que depende da capacidade de situar o ser humano dentro de seu tempo histórico e de evoluir constantemente.
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