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domingo, 15 de março de 2026

"A necessidade de imaginar e a dor em conhecer" - Uma crônica por Aiça Santana Santos.

Foi em um dia quente, daqueles de início de verão, quando eu estava no laboratório de informática da faculdade estudando. Estava lendo através do computador um livro de sociologia, de C. Wright Mills, que o professor havia passado e cujo conceito seria cobrado na prova. “Imaginação Sociológica” era o título da obra, mas afinal o que isso significava? Eu não fazia a menor ideia, tampouco conseguia compreender o texto, ainda mais naquele calor que os ventiladores da sala não davam conta de amenizar. Como não compreendia o excerto da obra resolvi fazer uma pausa, passei as mãos pelo cabelo, e me convenci que depois de tomar um ar me sentiria melhor.

Peguei uma banana que estava na minha mochila para comer, e me levantei para sair da sala, quando reparei no rapaz que estava sentado no computador à frente do meu. O moço, de óculos; camisa azul escuro; aparentemente um pouco mais velho do que eu; acabou por chamar-me a atenção, mas não devido a sua aparência e sim por causa da sua expressão de choro.

Olhei para os lados e como apenas nós estávamos na sala resolvi perguntar o que se passava com ele.

- Oi amigo, você está bem?

Ele levantou a cabeça, para me encarar, e depois de passar as mãos pelo rosto me respondeu.

- Não, eu não estou bem.

Fiquei um tanto atordoado com aquela resposta que não me dava muitas explicações. Logo, pensei que ele pudesse estar estressado com algum trabalho da faculdade então, movido pela curiosidade, resolvi olhar o que estava na tela do computador, pois não era possível que ele estivesse lidando com um conteúdo mais chato do que eu. Porém, para a minha aflição, o que vi naquele computador era pior do que esperava. Na tela estava a imagem de uma escola destruída, pessoas correndo e um verdadeiro cenário de ataque militar. Ao ver as imagens acabei me assustando um pouco e encarei o rapaz.

- É por causa dessas notícias que você está assim?

- Sim, estou lendo essas notícias por conta da matéria de Ciência Política, para me manter atualizado, mas eu não aguento mais ler tanta desgraça!

- É, te entendo, lidar com a realidade pode ser difícil porquê algumas coisas acabam se tornando inerentes ao sistema das relações entre as pessoas e até países. À medida que isso acontece vamos nos sentido impotentes, para resolver esses problemas que surgem, já que estamos limitados pelo nosso ambiente.

- Então qual o sentido em ler isso e saber dessas mazelas se no fim eu não consigo fazer nada, e ainda fico com problema emocional? Não tem a menor lógica!

Ele me questionou parecendo motivado a bater no computador e chorar ao mesmo tempo.

- Olha não é bem assim, por mais que te cause incômodo e até dor, ler essas notícias se faz necessário para você entender o cenário da realidade por completo.

- Só que nem os mais sábios conseguem ver o quadro todo.

- Talvez ninguém consiga ver por completo, mas se você puder com um pouco de imaginação relacionar a sua perspectiva individual com outras, e englobá-las com o cenário da realidade, você vai conseguir ver grande parte do quadro. Pode ser que não o cenário todo, mas com certeza bem mais do que enxergava antes.

Aquele moço ficou me encarando como se a minha resposta, por mais estruturada que fosse, não lhe ajudasse muito já que não resolvia seu impasse. Por isso, resolvi continuar falando.

- Sabe, ter consciência dessa estrutura social em que vivemos e saber fazer essas ligações a respeito do que acontece com o que sentimos é ter sensibilidade, uma característica importante, para se resolver um problema estrutural que tenha nos impactado intimamente.

O garoto, agora sem muita reação, estava com uma expressão pensativa e eu, me dando conta do tempo que estava gastando ali, resolvi ir embora para finalmente tomar um ar fresco.

- Mas relaxa aí amigo, você consegue, eu vou indo porque estou precisando sair um pouco desse abafado.

Não me lembro mais se na época percebi o que aconteceu naquele dia. Agora anos depois, posso não recordar se tirei uma boa nota naquela prova de sociologia, mas lembro que através da razão junto com a experiência que tive naquela sala cheia de computadores, abafada e com aquele rapaz, eu aprendi o que era imaginação sociológica.


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