Cartaz afixado em restaurante de São Paulo, que culpava 'o pessoal do Bolsa Família' pela falta de funcionários, viralizou nas redes sociais.
A questão da ausência de trabalho é usualmente ligada à moleza e à ausência de dedicação, principalmente quando se trata dos mais novos, que frequentemente precisam lidar com essas falsas ideias. Além disso, há também um forte juízo negativo sobre auxílios governamentais, como o que hoje é chamado de Bolsa Família. Falas do tipo “Viciados no Bolsa Família”, proferida por Ricardo Faria, proprietário da Global Eggs, ilustram como essa ótica está impregnada na nossa sociedade. Fica a dúvida, então: a dificuldade dos jovens em ingressar no mercado de trabalho é, de fato, uma dificuldade pessoal, ou está ligada a cenários sociais de maior escala?
Para o sociólogo C. Wright Mills, idealizador da noção de imaginação sociológica, é crucial distinguir entre adversidades particulares e dilemas coletivos. Em seu texto, ele argumenta: “Quando, numa cidade de cem mil habitantes, somente um homem está desempregado, isso é seu problema pessoal [...]. Mas quando numa nação de 50 milhões de empregados, 15 milhões de homens não encontram trabalho, isso é uma questão pública”. A visão de Mills se aplica ao quadro atual, pois frequentemente dilemas intrincados são simplificados demais, fazendo com que a culpa recaia sobre pessoas ou grupos específicos. Isso pode levar a classificações depreciativas, como “a galera do Bolsa Família”, que acabam solidificando preconceitos sociais. No tocante ao desemprego, por exemplo, perto de 5,5 milhões de brasileiros, o que corresponde a 5,1% da força de trabalho, estavam sem ocupação no último trimestre de 2025, segundo o IBGE. Quando uma dificuldade atinge milhões, ela transcende a esfera individual e se estabelece como um tema público, demandando uma investigação mais profunda sobre suas raízes, como a disparidade no acesso à instrução e às oportunidades laborais.
Portanto, usando a imaginação sociológica, vista como a habilidade de mudar a lente e conectar vivências singulares com arranjos sociais maiores, é imperativo analisar aspectos como a carência de postos para o primeiro emprego, a exigência de experiência prévia e o próprio panorama econômico do país. Assim, percebe-se que o obstáculo para a inclusão dos jovens no ambiente de trabalho não pode ser explicado somente por traços de caráter impulsionador por programas socioeconômicos. Pelo contrário, representa um desafio social mais abrangente, o que evidencia que boa parte das ideias preconceituosas e dos estereótipos ligados a este tema não se sustentam na realidade social.
CARRANÇA, Thais. O Bolsa Família é culpado pela dificuldade das empresas em contratar? Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj45n2qzrkqo. Acesso em: 15 mar. 2026.
MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
Ana Julia Generosa Gabriel Dionizio
1º ano de Direito - matutino
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