A inteligência artificial se encontra cada vez mais presente no cenário global, e as eleições globais de 2024 nos mostram quão impactante a IA pode ser em um cenário político. Com mais de 2 bilhões de eleitores em países com EUA, Índia e na União Europeia, ferramentas como a IA generativa - deepfakes e conteúdos manipulados - espalharam desinformação de maneira inédita. Vídeos falsos de lideres políticos como Joe Biden e Narendra Modi, viralizaram em plataformas plataformas como o X (Twitter) e TikTok, resultando na influencia de opiniões políticas e até resultados eleitorais. Relatórios da ONU e da Comissão Europeia alertam para o risco de polarização e erosão da democracia.
Essa crise contemporânea ecoa as preocupações de Francis Bacon (1561-1626), em sua obra Novum Organum (1620) o mesmo identificou os "ídolos da mente" - preconceitos que distorcem o conhecimento humano - e propôs uma "Grande Instauração" para renovar o aprendizado tendo como meio a observação empírica e da eliminação de vieses. Esse ensaio interpreta o caso da desinformação por IA que ocorreu nas eleições de 2024 a luz da teoria baconiana argumentando que os deepfakes representam "ídolos digitais" modernos, e que o método de Francis Bacon oferece ferramentas para o combater.
Bacon classificou os obstáculos ao conhecimento verdadeiro em quatro categorias de ídolo:
-Da Tribo: distorções inerentes à natureza humana, como a tendência a impor ordem fictícia sobre o caos ou a acreditar em aparências sem verificação. Bacon alertava que "o intelecto humano é como um espelho falso, que, recebendo raios desigualmente, distorce e descolora a natureza das coisas". Nas eleições de 2024, deepfakes exploram exatamente isso: vídeos "realistas" de candidatos dizendo frases manipuladas enganam o público, que assume veracidade baseada em percepções sensoriais.
-Da Caverna: experiências e predisposições pessoais, confinadas como em uma caverna platônica. Bacon observava que cada indivíduo "tem uma caverna ou antro próprio, que refrata e descolora a luz da natureza". No contexto eleitoral, algoritmos de redes sociais criam "bolhas" personalizadas, onde deepfakes são interpretados de acordo com crenças prévias.
-Do Mercado: são erros decorrentes da comunicação imprecisa, onde "palavras impõem-se ao intelecto" e criam confusão. Deepfakes e posts virais exemplificam isso: rótulos como "humor" ou "satírico" mascaram intenções maliciosas, espalhando desinformação como um "comércio falacioso".
-Do Teatro: "falsas filosofias" ou dogmas teatrais que substituem a realidade por encenações. Bacon comparava-os a peças de teatro, cheias de "mundos fictícios". Nas eleições americanas de 2024, narrativas como "eleições roubadas" (ecoando 2020) foram amplificadas por IA, criando "teatros" conspiratórios que ignoram evidências empíricas.
Esses conceitos, originalmente direcionados à filosofia natural, revelam-se surpreendentemente aplicáveis à era das inteligências artificiais, onde algoritmos e dados digitais amplificam vieses humanos. O caso da desinformação por IA nas eleições de 2024 ilustra como o progresso tecnológico pode amplificar os ídolos da mente, transformando ferramentas de avanço em vetores de ilusão. Porém as ideias Bacon podem combater os problemas atuais com sua ênfase no empirismo e na indução oferece um roteiro para mitigar esses riscos.
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