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segunda-feira, 25 de abril de 2022

Positivismo no cenário militar: desordem e regresso

 

Durante a Idade Média, o cenário industrial evidenciou a explosão de crises sociais protagonizadas pela sociedade fabril. Nesse sentido, o advento e crescimento das indústrias foi a gênese da desordenada explosão demográfica e, consequentemente, da desigualdade social. Sob essa ótica, propondo como solução para esse paradigma caótico, Auguste Comte apresentou a teoria do Positivismo, a qual exaltava o progresso científico como alternativa para o desenvolvimento da sociedade. Sendo assim, a concepção positivista enfatizava o pensamento racional e sistemático como parâmetro para concretizar o progresso social, dessa forma, preteria o misticismo e a ordem teológica, aspectos que corroboram o regresso da humanidade. Tendo em vista que o positivismo constitui um sistema filosófico, ele procura estipular a máxima unidade na explicação dos fenômenos universais, evidenciando seu caráter dogmático físico e cético metafísico.

Primeiramente, Auguste Comte, na sua teoria dos três estados, ressalta a importância da história passar por uma gradual evolução, sendo submetida às sucessivas etapas lineares. Nesse viés, o memorável lema “Ordem e progresso” elucida a teoria comtiana em questão, assim, a ordem corresponderia ao artifício utilizado para firmar a inércia dos estados perante às revoluções e grandes transformações, já o progresso representaria a consequência inevitável desse cenário.

Ademais, outra marca do Positivismo no contexto brasileiro corresponde ao período da Ditadura Militar, visto que o autoritarismo e as desumanas e abusivas torturas, as quais infringem os direitos humanos, foram ambos justificados pelo positivismo jurídico, concepção ideológica que alega que as normas escalonadas são provenientes do Estado. Sob esse prisma, tendo em vista as situações anteriores, a norma jurídica é formalmente dotada de mecanismos que legitimam sua força obrigacional, sendo assim, em detrimento do positivismo jurídico, foram estipulados os Atos Institucionais, medidas que exaltavam a Ditadura, bem como justificavam as maiores brutalidades que violavam os direitos e garantias fundamentais.

Portanto, tanto o Positivismo jurídico como a Ditadura Militar buscavam garantir a segurança nacional, no entanto, os militares utilizaram dos mecanismos positivistas para legitimar os desumanos atos de violência, tortura e perseguição.

Pandemia: da concretude à alienação atrelada aos ídolos

 

Francis Bacon, fundador do método indutivo de investigação científica, foi um dos assíduos críticos da Filosofia Grega, escolástica e renascentista. Nesse sentido, a partir de uma análise empirista, Bacon propõe uma reforma do conhecimento, preterindo a lógica aristotélica, a qual não apresentava uma noção segura científica. Sob esse cenário, o filósofo afirmava que a existência de ídolos, ou seja, falsas noções intrínsecas na psique humana, intensificava a inércia da racionalidade humana, impedindo seu efetivo progresso. Traçando um panorama comparativo com a realidade contemporânea, pode-se citar a disseminação de “fake news”, tendo em vista que essas notícias falsas não só constituem o imaginário humano, corroborando a alienação e a vulnerabilidade à manipulação, mas também impedem a obtenção de um conhecimento verídico e validado pela racionalidade. A exemplo disso, é imprescindível salientar o caso relacionado às vacinas contra a COVID-19, no qual o negacionismo, fundado por notícias falsas, foi a gênese de movimentos antivacina no Brasil.

Segundo Francis Bacon, os ídolos podem ser divididos em quatro aspectos, sendo eles: os ídolos da tribo, os ídolos da caverna, os ídolos do foro e os ídolos do teatro.

Primeiramente, os ídolos da tribo constituem a própria natureza humana, originando-se nos preconceitos, limitações e em supostas verdades absolutas. Sendo assim, os ídolos da tribo simplificam as noções racionais e reduzem o complexo ao simples e, por consequência, concebem as irredutíveis superstições. Para elucidar essa definição de Bacon, é possível citar o caótico cenário pandêmico, no qual os indivíduos adotavam a equivocada premissa de que as vacinas que combatem a COVID-19 poderiam findar em resultados nefastos, invalidando seu verdadeiro propósito preventivo. Nesse viés, o movimento antivacina solidificou-se devido aos negacionistas ídolos da tribo (“fake News”), os quais foram instigados por indivíduos imprudentes que exercem influência sobre a população brasileira, tendo como lamentável resultado a morte de mais de 600 mil pessoas. Sob essa óptica, é notório ressaltar como a humanidade fica sujeita à manipulação e aos danosos efeitos das notícias falsas.

Outrossim, os ídolos do foro correspondem à tendenciosa arte de manipulação em massa por meio das palavras. Desse modo, a ambiguidade é promovida pelas distorções e pelas abstrações, as quais estão presentes em discursos proferidos por oradores parciais que, impiedosamente, manipulam seu público. Transpondo para o paradigma real, é possível enfatizar o irresponsável comportamento dos indivíduos que, sob um amplo domínio e influência, utilizaram das palavras para pregar não só uma visão deturpada da vacina, mas também para preterir a relevância da pandemia e do isolamento social. A exemplo disso, pode-se citar alguns líderes influentes que, a partir das notícias desvinculadas da veracidade, negligenciaram as irreversíveis consequências da COVID-19, tal como fez Jair Bolsonaro, o Chefe de Estado brasileiro, durante 2020 e 2021.

Portanto, o cenário pandêmico pôde elucidar o contexto redigido por Francis Bacon, evidenciando como a humanidade ainda está vulnerável aos ídolos e às suas falsas concepções de realidade. Logo, os homens ainda possuem um forte vínculo com os ídolos concebidos pela sociedade, comprovando que a humanidade é facilmente manipulada pelas notícias falsas e não possui autonomia suficiente para refutá-las e alcançar o conhecimento verídico e racional.