Total de visualizações de página (desde out/2009)

Mostrando postagens com marcador Helena de Battisti Almeida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Helena de Battisti Almeida. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de junho de 2022

A abordagem da ação social por Weber

 

Uma das características mais marcantes do pensamento do alemão Max Weber é a sua abordagem do fato social, a que Weber atribuiu o nome de ação social. Ao contrário de Durkheim, ele defendia que o sujeito que analisa o fato social não procure distanciar-se dele, porque isso seria impossível, dada a carga de interesse que ele possui no fato – todos nós, por sermos membros da sociedade, por estarmos com ela envolvidos, somos, para Weber, incapazes de estudarmos os fatos sociais de forma distanciada. O método de análise que Weber defende é fundamentado no uso do que ele chama de tipos ideais, conjunto de ideais a respeito de um dado objeto estabelecidas de modo anterior a sua análise, ideias que se sabe não necessariamente corresponderem à realidade, mas que são extremamente úteis para chegar-se a ela.

É muito bem-vinda na atualidade essa concepção weberiana. Afinal, o tempo todo encontramos pessoas fazendo ou tentando fazer análises de toda sorte de acontecimentos. Tragicamente, elas parecem crer que suas análises são objetivas, distanciadas do objeto analisado, o que não poderia estar mais distante da realidade: cada vez mais, as alegações que fazemos são influenciadas e, pior, distorcidas por ideologias. A tendência é cada vez mais adotar a postura oposta à de Weber: utiliza-se preconceitos não para se chegar uma análise, mas para eles próprios serem a análise, e coloca-se sobre eles uma roupagem de análise objetiva e racional.

Além disso, Weber lembra que o indivíduo ocupa lugar central na análise, concepção que também permite um entendimento muito mais completo da realidade, qualquer que seja o fato social analisado, pois, afinal de contas, toda ação humana é levada a cabo por indivíduos. Certamente, o indivíduo pode ser influenciado em enorme grau pelas tendências de um grupo, mas este não existe por si só – ele nada mais é que um conjunto de indivíduos, de modo que, se uma parcela significativa deles opta por uma ação B em vez de uma ação A, a tendência do grupo que eles formam não é a mesma que seria caso optassem por A.

Evidentemente,  é de se lamentar que o pensador rejeite a pretensão de questionar com o intuito de modificar a realidade que se constata. “Uma ciência empírica não pode ensinar a ninguém o que deve fazer”. Ainda assim, as contribuições de Max Weber para todo o pensamento das Ciências Humanas são muito significativas – se é que tais palavras expressam de maneira satisfatória o tamanho de seu impacto – e por isso dignas de serem conhecidas e, uma vez conhecidas, questionadas, como devem ser todas as coisas.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

O camelô

Qualquer um que, nos últimos anos, tenha feito uso do transporte metropolitano da capital paulista com alguma regularidade certamente teve a oportunidade de observar o fenômeno dos vendedores ambulantes, ou ao menos aspirantes ao posto. Sim, há os camelôs, e há os aspirantes a camelôs, porque a Companhia Paulista de Transporte Metropolitano não permite o comércio ambulante no interior de seus trens e estações. Disso resulta que muitos que buscam afrontar a regra vendendo seus chocolates, chicletes, fones de ouvidos, pães de mel, entre tantas outras mercadorias, frequentemente perdem seus produtos para algum guarda da estação.

               Nestes breves parágrafos, olharemos para essa conjuntura sob a perspectiva do materialismo histórico de Marx e Engels. 

Primeiramente, há que se notar que somente optam pelo comércio ambulante como trabalho aqueles que se encontram em condição de marginalização abjeta. Então, lembra-se que são privados de sua fonte de renda porque a sua atividade laboral, embora perfeitamente insonte de geração de danos a outras pessoas, é banida naquele local. 

               Ora, pensemos agora na humanidade como esse ente em permanente processo de desenvolvimento, resultante não de vontades entendidas individualmente, mas de uma força histórica determinada pelas relações de produção. O que representam o camelô e o aspirante a camelô da Estação São Joaquim do Metrô em termos desse curso da humanidade? A que tipo de relação de produção eles estão sujeitos?

               A resposta a esta última pergunta é evidente: a nenhuma. Sim, a nenhuma. Esses sujeitos são colocados tão à parte da coletividade, da rede de relações fundadas no capital, que lhes é tirada até mesmo a possibilidade de estabelecer as relações de produção eivadas de exploração características de toda sociedade do capital. Isso não significa, é claro, que esses indigentes se veem livres da exploração: esta apenas deixa a esfera particular, de um empregado explorado por seu empregador, por exemplo, e entra na esfera mais ampla do particular que toda uma sociedade explora, no sentido de que ele somente se encontra em sua situação de patente precariedade por causa de todo um sistema que rege aquela sociedade, um sistema inelutavelmente vinculado à mais-valia e que portanto tem a exploração do trabalho em seu próprio cerne.

               O vendedor ambulante e aquele que tenta sê-lo na estação de metrô são apenas mais uns dos incontáveis “ninguéns”, dos incontáveis “nadas”, dos incontáveis ignorados desse sistema, condenados à sua situação em decorrência de uma série de privilégios que uns detêm mas que a eles, arbitrariamente, não couberam, e de ser o sistema em que se inserem tal que aquele que não encontra maneiras de explorar com maior eficiência as fraquezas de seus semelhantes a fim de atender aos próprios interesses é deixado para trás, a apenas olhar todos os que o passam e nunca o olham, porque para cada um nada importa além de si

 


segunda-feira, 4 de abril de 2022

Legados de pensadores e grandes problemas a afligir a humanidade

 

O filme O Ponto de Mutação, dirigido por Bernt Capra, traz uma discussão de imensa relevância a respeito das implicações da visão acerca da natureza que o filósofo René Descartes apresentou ao mundo. Nele, uma dupla de amigos, formada por um poeta, Thomas, e um político, Jack, conversa enquanto caminha pelo encantador Mont-Saint-Michel, e não demora a juntar-se a eles uma física, Sonia, a qual, ao longo do colóquio, ocupa-se de apresentar e fundamentar a sua grande preocupação com uma parte essencial do legado de Descartes. 

O fato da natureza ter passado a ser vista do mesmo modo com que se vê um relógio, fato esse que se deve, em muito significativa parte, à obra do filósofo, teve profundos impactos na humanidade — a notável aceleração do progresso técnico-científico a partir da consolidação de ideias sobre a natureza e a razão humana defendidas por pensadores como Descartes e Bacon sugere tal impacto, embora possa ser um exagero caracterizá-la como prova dele. A personagem reconhece isso e, embora consiga apontar algo de positivo no legado de Descartes (sua enorme contribuição para a desvinculação do pensamento humano da Igreja), ela volta sua atenção para os sérios prejuízos que considera que conceber a natureza como uma máquina trouxe à humanidade. Esta, para Sonia, está condenada a debruçar-se sobre questões de vultosa gravidade, como a fome e a devastação ambiental, sem produzir quaisquer resultados verdadeiramente significativos, enquanto for afetada pela "crise de percepção", para usar suas palavras, ocasionada por essa concepção da natureza. Recorrendo a constatações relativamente recentes da física para fundamentar seu argumento, a personagem afirma que a natureza não deve ser subdividida para que se investigue cada uma de suas partes e depois se junte as conclusões obtidas e acredite-se haver entendido o todo, como se fosse uma máquina, mas deve ser tratada como um imenso sistema, porque, devido às características das partículas subatômicas, toda a matéria que existe é um conjunto de interconexões. Disso decorre, segundo Sonia, que os grandes problemas a afligir a espécie humana devem ser abordados em conjunto, e não isoladamente. 

É  interessante notar que as descobertas da física que fundamentam essa ideia da natureza como sistema adotada por Sonia foram obtidas por meio do método científico, cuja origem se deve justamente a pensadores como Descartes. Da mesma forma, não se pode falar em surgimento do método científico sem citar Francis Bacon. A defesa que este fez de uma razão que se apoiasse na realidade, em fatos constatáveis, para funcionar de modo eficiente, assim como da destruição de ídolos, isto é, de tudo aquilo que impede a clareza na percepção da realidade, que impede a percepção da verdade, fundamenta toda a ideia que se tem hoje a respeito da experimentação e da intepretação de seus resultados. Assim como ele, Descartes também defendia a compreensão da realidade fundamentada na razão e a preocupação em certificar-se de que ela não seja obscurecida por prenoções, mas a Descartes cabe especialmente o crédito de defensor de um modo —  um método —  de compreender a realidade em que a compreensão comece por investigações menores, pela investigação de uma parte de um todo, e seja seguida pela investigação de partes cada vez maiores, até que se chegue ao todo. 

Tendo em vista tal contradição, eu não sou capaz de dizer até que ponto Sonia está certa em sua crítica a Descartes. Quanto a suas queixas sobre a forma com que são abordados os problemas do mundo a e a sua defesa de uma outra, tudo o que posso afirmar é que incorre em grave erro todo aquele que acredita ter a resposta para como o mundo pode ser melhorado, tenha ela fundamento cartesiano, tenha ela fundamento na física das partículas subatômicas e na ideia de sistemas interconectados que dela decorre, sem que tenha antes encontrado respostas para problemas fundamentais de sua própria vida. Essa visão é eloquentemente expressa ao final do filme pela personagem Thomas, em um monólogo com referências a Enigmas, de Pablo Neruda, poema que acabara de recitar: "Isso a lembra de alguma coisa? 'Caminhei por aí, investigando a estrela sem fim?' Não é isso o que você faz, Sonia? 'E em minha rede, durante a noite, eu acordei nu.' Não é isso o que você faz, você não pega a sua rede e a joga nesses lugares longínquos da física quântica, e teoria dos sistemas, e... E você não conclui que a única coisa que você pega é você própria de novo? 'Como um peixe preso dentro do vento'... Onde estão as outras pessoas no seu sistema, Sonia? As que você ama? (...) Então diga-me, Sonia, onde estamos todos nós nisso? As pessoas reais, com suas qualidades, suas aspirações, suas fraquezas...? Onde está você dentro disso, Sonia? Onde está a Kit? Sabe, cientistas podem nos dizer quais são as metáforas internas da vida, quer sejam chips de computador, quer sejam relógios, os políticos podem nos dizer que forma nossas vidas deveriam tomar, mas...  Eu me sinto tão reduzido sendo chamado de um sistema quanto eu me sinto sendo chamado de um relógio. A vida simplesmente... Simplesmente não é condensável. Um grupo de pessoas usa um conjunto de palavras para mudar o mundo, e um outro grupo de pessoas chega com conjunto diferente de palavras para mudá-lo, e... Eu não ligo, sabe? É tudo a mesma coisa para mim. Eu não ligo nem um pouco. É como as estações mudando. (...) Mas lembrem: a vida sente a si mesma. A vida sente a si mesma. Diferentemente, talvez, de todas as suas palavras para como geri-la. E mesmo com as melhores intenções do mundo, você vai errar se você esquecer que a vida... a vida, a vida, a vida, a vida é infinitamente mais do que as suas ou as minhas teorias obtusas sobre ela. Curar o universo é um trabalho que vem de dentro  — e você me ajudou."

Como exprime a personagem, especulações, reflexões a respeito da vida, tanto da vida enquanto entidade, quanto de vidas individuais, mergulhadas em toda sorte de mazelas, têm valor: elas nos ajudam a "curar o universo" (pretensão aceitável se, e somente se, a expressão é entendida como uma metáfora que se refere a solucionar problemas que afligem criaturas ao redor do mundo, pois a ideia de que o universo em si ou mesmo o mundo em si careça de uma cura, como se algo estivesse errado em sua essência, é absurdo delírio, gênito da mais pura arrogância.) Não se chega a uma resposta satisfatória a qualquer pergunta sem reflexão. No entanto, cada indivíduo deve ter a humildade de primeiramente deter-se nos muitos problemas, perguntas, que diretamente lhe dizem respeito, ou que não necessariamente afligem a ele próprio, mas cuja solução ou princípio de solução está ao seu alcance  — valendo-se para isto, inclusive, não só de si mesmo, mas também das reflexões que já fizeram tantos outros indivíduos, do conhecimento que pode adquirir de outros — para só então talvez ter a ousadia de considerar-se detentor de soluções para os problemas de âmbito global. Sou da opinião de que, na maior parte dos casos, melhores resultados são obtidos  quando um indivíduo ocupa seu tempo alimentado indigentes de seu bairro que quando o ocupa em acaloradas discussões a respeito de qual o caminho para a erradicação da fome na África. Porque a maioria das pessoas não têm o poder de tirar da situação de fome nem aqueles ao seu lado, tanto menos os que se encontram tão distantes de si. (Elas poderiam enviar dinheiro para uma instituição que prometa fazê-lo, mas deve-se considerar que é prudente não confiar plenamente em instituições com tamanha pretensão, lidando com tanto dinheiro e cujos líderes e funcionários o indivíduo pouco ou nada conhece, e que, portanto, é melhor ajudar alguém de forma mais direta, de forma que permita ao indivíduo ver a quê o dinheiro em que consiste a ajuda é destinado.) Além disso, observo que um indivíduo pouco preocupado em resolver os problemas de sua vida pessoal muito dificilmente chegará, por meios idôneos, a uma posição que o permita ter grande influência e, mesmo que chegue, não terá competência para resolver os grandes problemas — como se pode esperar que ofereça soluções para conjunturas de tão difícil compreensão e com tantos fatores envolvidos quanto uma guerra entre nações, aquele que não faz ideia de como viver em paz com o seu próprio filho? Ou, nas palavras de Thomas, "Onde está você dentro disso, Sonia? Onde está a Kit?"

Não posso dar este comentário por encerrado sem citar uma outra sabedoria proferida pelo poeta Thomas: "Eu sou um tolo." Faço esta citação para reconhecer que posso estar enganada quanto a tudo o que aqui afirmei. A bem da verdade, sou uma grande ignorante. Tanto o sou, que o meu maior mérito é ter compreendido ou, pelo menos, julgar ter compreendido, uma ideia já conhecida e já célebre mais de dois mil anos antes de meu nascimento: "só sei que nada sei". Não obstante toda a minha ignorância, eu acredito ter algo de valor para dizer, porque, afinal, é algo que decorre do próprio reconhecimento desta ignorância; não é muito mais do que isto: que todo aquele que por ventura — ou desventura: como queira — ler este texto saiba que muito provavelmente é um grande ignorante, e que ele amplia seu valor e  adquire a possibilidade de discutir grandes problemas com alguma sombra de legitimidade somente à medida que se ocupa de sair de sua ignorância, isto é, de aperfeiçoar o funcionamento de sua razão, fornecendo-lhe matéria-prima e garantindo o bom funcionamento de suas engrenagens, o que acontece não somente por meio da reflexão e do estudo em sentido estrito, mas também por meio da busca de soluções para os problemas da própria vida, para os problemas de natureza pessoal.

 Encerro, afinal, o comentário, reforçando a ideia que julgo ser de singular importância, por meio de palavras que tomo emprestadas a Paulo de Tarso: "Não sejam sábios aos seus próprios olhos."