O positivismo foi um movimento do século XIX que valorizava apenas o conhecimento científico como verdadeiro. No que concerne à sociologia, ela era tida como uma espécie de “física social” e utilizava o paradigma newtoniano para compreender a realidade. Assim, buscava investigar leis gerais que regem a sociedade. Seu principal lema era “Ordem e Progresso”, a mesma frase inscrita na bandeira do Brasil, o que leva a reflexão se esse movimento ainda se faz presente no século XXI, especialmente no contexto brasileiro.
Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019 a 2022), isso se tornou mais evidente. O então ministro da Economia, Paulo Guedes, problematizou o FIES(programa de financiamento estudantil para alunos de baixa renda em faculdades privadas) ao afirmar que estudantes com baixo desempenho, que zeraram a redação, conseguiam ingressar no ensino superior, o que configura uma falácia. Além disso, o ex-presidente também demonstrava posicionamentos favoráveis ao trabalho infantil, como ao dizer “deixa a molecada trabalhar”, além de seu lema de campanha, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
Com sua derrota nas eleições, ocorreram manifestações pedindo intervenção militar e uma tentativa de golpe. Todos esses episódios possuem algo em comum: a lógica positivista. Em todos eles, há uma tentativa de manter uma ordem política tradicional no Brasil, centrada em privilégios históricos, machismo, racismo e desigualdades estruturais. Assim como no positivismo, que reforça a ideia de aceitação dos “lugares sociais” e de papéis previamente definidos, onde a felicidade estaria vinculada ao bem público e à manutenção da ordem.
No entanto, esse cenário levanta um questionamento essencial: que “ordem” é essa que deve ser seguida e por quê? Será que a ciência realmente encontrou leis universais da sociabilidade humana que devem ser obedecidas cegamente? Grada Kilomba, teórica portuguesa, questiona justamente essa lógica. Suas reflexões giram em torno de qual ordem está sendo considerada como “natural” e quem a definiu. Ela também critica a hierarquização das vozes, mostrando como grupos hegemônicos se sobrepõem na construção do conhecimento e na imposição de valores, definindo o que seria uma ordem universal.
Desse modo, o positivismo ainda se faz presente na realidade brasileira. Isso aparece em discursos contrários à ascensão social de grupos historicamente marginalizados, na defesa de sua exploração desde a infância para manter estruturas de classe, e também na ideia de um “bem comum” que ignora as particularidades da sociedade. Além disso, se manifesta em pedidos de intervenção para restaurar uma suposta ordem, revelando a dificuldade em lidar com mudanças e pensamentos divergentes. Isso é extremamente problemático, pois ignora subjetividades, naturaliza a segregação e perpetua visões tratadas como universais e corretas.
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