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domingo, 5 de abril de 2026

Entre a Física Social e o Lugar Obscuro: Uma análise de 'Corra!' através de Comte e Kilomba.

 

 O longa-metragem “Corra!” (2017), dirigido e produzido por Jordan Peele, é um filme de terror protagonizado por um jovem negro que, ao conhecer a família de sua namorada branca, se sente deslocado e com um pé atrás de que a família seja racista. Ao decorrer do filme, é descoberto que a família Armitage realiza procedimentos para transplante de cérebro de um comprador para o corpo da vítima e, antes do procedimento, é realizado uma preparação com a vítima em questão, a hipnose, como um meio para a dominá-las.

            A partir da obra, é possível observar e comparar não só as características do pensamento positivista, apresentados por Comte, como elementos presentes no livro “Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano”, escrito por Grada Kilomba:

    • Comte define que na sociologia, onde fenômenos sociais são estudados e submetidos a “leis naturais invariáveis”, os fatos devem ser tratados como objetos de observação – sem críticas ou fascinação -, tal como no filme, onde a família Armitage percebe a população afro-americana somente como objetos biológicos, com fim de alcançar a imortalidade. Ademais, os Armitage creem estar promovendo um progresso científico através desses procedimentos, subestimando impasses éticos/metafísicos e superestimando uma eficiência tecnológica.
    • Kilomba descreve que a ideia de um sujeito negro como alguém inferior e desprovido de voz é construído pelo racismo e, na obra, é evidenciado pelo “Lugar Obscuro”, onde o protagonista está fisicamente presente, no entanto, possui sua consciência limitada ao conseguir apenas ver e ouvir, mas não falar ou agir, perdendo seu lugar de sujeito e transformando-se em uma espécie de objeto da branquitude, tal como é evidenciado na cena em que o protagonista é leiloado. O deslocamento social do protagonista deve-se à constante análise e julgamento de seu corpo, como se fosse um defeito presente em um espaço pertencente aos brancos; esse é um elemento também expressado por Kilomba, afirmando que enquanto os brancos sentem-se em casa, os negros são tidos como impróprios e fora do lugar, marcando situações de estranhamento.


    • Por fim, vale destacar que Comte defende que as observações frias e fatos sociais devem basear a ciência, enquanto Kilomba argumenta que essa “objetividade” se trata de um disfarce utilizado pelos brancos para validar seu próprio conhecimento e desqualificar a experiência do oprimido, julgando-a subjetiva e emocional. No longa-metragem, as cenas em que a doutora Missy Armitage (a mãe) utiliza das práticas de hipnose no protagonista, utilizando uma colher e uma xícara de chá, representam essa neutralidade opressiva, utilizando o conhecimento para dominá-lo, além de desqualificar sua experiência.

            Desse modo, “Corra!” possibilita a análise e o debate entre as variadas maneiras de enxergar a realidade, através da representação extrema da física social pela família Armitage, da conexão entre o filme e a crítica decolonial acerca da escassez de expressão da população negra e da associação da objetividade, defendida por Comte, com uma prática opressiva, criticada por Kilomba. Portanto, o filme acaba por revelar questões públicas envolvendo as estruturas de poder – o positivismo e o colonialismo – que continuam tentando objetificar pessoas.

- Catarina de Oliveira Fernandes – 1°ano Direito - matutino

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