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domingo, 5 de abril de 2026

A sistematização do trabalho e o "boom" das doenças mentais: uma crítica sob a ótica da teoria positivista

    Auguste Comte, autor da teoria positivista, afirmava que, por meio do desenvolvimento tecnológico e do aumento do conhecimento científico, a sociedade atingiria o estágio positivo, isto é, o máximo grau de desenvolvimento, de modo que a ciência pudesse solucionar todos os problemas presentes, bem como possibilitar a previsão de entraves futuros. Para tanto, seria necessária a implantação de um sistema em que a valorização de tudo o que pudesse ser observado, medido e comprovado norteasse o funcionamento da sociedade em suas mais diversas esferas.

  Dois séculos após o surgimento do positivismo, a humanidade assiste à concretização do que previa tal corrente, em especial, no mundo do trabalho. A partir das grandes revoluções industriais, com destaque para o início da fragmentação do processo produtivo e da especialização do trabalho nas fábricas, o modo positivista de funcionamento se expande na órbita empresarial: são medidos, de forma objetiva e minuciosa, a produtividade, o desempenho, o rendimento dos funcionários...de forma que análises são constantemente feitas e refeitas a fim de incrementar o lucro e a projeção de empresas, marcas e produtos.

   Todavia, a crescente produtividade nos meios trabalhistas mascara a fragilização da saúde mental dos trabalhadores. A elevação dos casos de "burnout", estresse e ansiedade decorrente das pressões e da sobrecarga no mundo corporativo revela o outro lado do tão consagrado lema "Ordem e Progresso" positivista. A consolidação de um estilo de vida fundamentado pela ciência, pela técnica e pela objetividade que lhe são próprias culmina na fragilização dos direitos humanos, como o direito à saúde, visto que as implicações psicológicas provenientes da dinâmica corporativa interferem no funcionamento adequado do organismo, e o direito ao lazer, sendo o indivíduo escravizado pelo ambiente em que trabalha mesmo fisicamente distante.

   Em suma, é fato que o avanço tecnológico tem trazido diversos benefícios à humanidade; seria hipócrita a atitude de apenas apontar seus malefícios sem considerar as vantagens proporcionadas. Entretanto, é preciso cautela em seu emprego, a fim de que a humanidade não seja dominada por sua própria invenção.

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