A Sociologia surgiu no século XIX como uma ciência que pretendia descobrir leis naturais e invariáveis para o funcionamento da sociedade, assim como a física de Newton explicava o universo. Para Comte, a sociedade deveria ser regida pelo binômio Ordem e Progresso, onde cada indivíduo ocuparia um lugar pré-determinado em uma estrutura harmônica. Nesse modelo, o chamado estado positivo seria o nível máximo de amadurecimento humano, priorizando a estabilidade e a aceitação dos papéis sociais para evitar o que ele chamava de anarquia moral das revoluções.
No entanto, essa busca por uma ordem estática é profundamente questionada por Grada Kilomba em sua obra: Memórias da Plantação. Kilomba denuncia a suposta neutralidade dessa ciência ao perguntar: Quem pode falar? Quem definiu esses papéis sociais?
Enquanto a física social de Comte pressupõe que o lugar de cada um é uma necessidade para o bem público, Kilomba demonstra que esses lugares são resultados de construções do racismo cotidiano. Na estrutura acadêmica, o indivíduo branco é colocado no palácio do conhecimento, enquanto o negro é visto como um corpo fora do lugar, cuja presença em espaços de privilégios é compreendida como uma ameaça à ordem estabelecida.
O debate atual sobre as Cotas Raciais no Brasil é onde esse embate fica mais evidente. Sob uma ótica positivista e conservadora, as cotas são atacadas como uma forma de desorganização da meritocracia, que é tratada como se fosse uma lei natural e neutra. Por outro lado, a perspectiva de Kilomba revela que a ordem defendida pelo positivismo clássico servia apenas para manter privilégios históricos. As cotas funcionam como uma ferramenta de reorganização social, rompendo com a ideia de que existem lugares sociais fixos e desafiando a premissa de que a harmonia depende do silenciamento de grupos marginalizados.
Nota-se, portanto, que, ao ocupar a universidade e os centros de decisão, a população negra não gera anarquia, mas sim uma nova dinâmica que exige uma ciência social consciente de a partir de que lugar se fala. Assim, a Sociologia deixa de ser uma física de controle para se tornar um espaço de reformas, provando que o verdadeiro progresso não existe sem o questionamento de quem define a ordem.
Maria Clara Romanini Rizzo
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