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domingo, 26 de abril de 2026

Quando a Engrenagem Parou (Ou Quase)

 Era estranho perceber como algo invisível podia bagunçar tanto o mundo. Antes, tudo parecia funcionar no automático — escola, trabalho, transporte, encontros. Uma engrenagem silenciosa, quase perfeita, como descrevia Émile Durkheim ao falar da sociedade.

 Até que chegou a COVID-19.

 No começo, parecia distante. Uma notícia aqui, outra ali. De repente, virou rotina: álcool em gel na entrada, máscara no rosto, medo no olhar. A cidade desacelerou. As ruas ficaram vazias, mas as casas… cheias de tudo — trabalho, aula, ansiedade, improviso.

 As escolas fecharam as portas, mas não pararam. Migraram para telas, plataformas, conexões instáveis. Professores viraram quase youtubers, alunos aprenderam a estudar entre notificações e silêncios. Não era o ideal, mas era o possível. A função da educação resistia, mesmo que meio torta.

 No trabalho, a sala virou escritório. Quem podia, ficou em casa. Quem não podia, enfrentou ônibus cheios e riscos diários. De um lado, reuniões online; do outro, a luta para garantir o básico. A tal “organização social” continuava — mas com rachaduras mais visíveis.

 E os hospitais… esses nunca pareceram tão centrais. Profissionais exaustos, corredores lotados, decisões difíceis. Ali, dava pra ver claramente: sem aquela parte funcionando, o resto desmoronava.

 Ao mesmo tempo, surgiam regras novas. Distanciamento, quarentena, vacina. Algumas seguidas, outras questionadas. Porque a sociedade também é isso: acordo, conflito, adaptação.

 No fim das contas, talvez a pandemia tenha feito algo curioso: mostrou que aquela engrenagem nunca foi tão automática assim. Ela depende de pessoas, de decisões, de ajustes constantes.

 E mesmo falhando em vários pontos — desigualdade, desinformação, cansaço coletivo —, ainda assim tentou continuar girando.

 Talvez seja isso que o funcionalismo nunca deixou de dizer: a sociedade não para. Ela se reorganiza. Mesmo quando tudo parece fora do lugar.


Yuri Teixeira dos Santos - Matutino

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