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domingo, 26 de abril de 2026

Do “todos contra todos” à ordem: o papel do Direito na sociedade atual

  Em São Paulo, no ano de 2014, André Luiz Ribeiro, um professor de história, foi vítima de um linchamento pela população local após ser confundido com um assaltante. Esse tipo de caso, lamentavelmente, não é pontual ou atípico na sociedade brasileira contemporânea, mas um comportamento recorrente de uma população desesperada que, em um momento de instituições disfuncionais, atua quase em um estado de natureza hobbesiano, em uma realidade na qual impera o medo e o estado de “todos contra todos”. Nesse contexto, vê-se nítido que há, não um estado pleno de anomia, mas ao menos parcial, devido à ineficiência do monopólio do uso legítimo da força pelo Estado e à rarefação da coesão social no país. Assim, prevalece a questão: qual é, nesse cenário, a função do Direito hoje?

  Para o sociólogo francês Émile Durkheim, o funcionalismo é uma lente para enxergar a realidade em que cada elemento de uma sociedade exerce uma função importante dentro dela. Por meio dessa forma de compreender de maneira aprofundada o mundo, o funcionalismo analisa os fatos sociais e os questiona: “qual é a função desse fato para a sociedade?”. Assim, pode-se analisar casos como o de André Luiz Ribeiro de modo crítico, buscando entender quais foram os reais motivos para que casos catastróficos como esse permeiem a sociedade brasileira.

  Em primeira análise, nota-se a exponencial decadência das instituições estatais, que não têm a credibilidade e a capacidade de manutenção da harmonia necessárias para sua atuação plena. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, quando isso ocorre, essas organizações sociais passam a ser classificadas como “instituições zumbis”, ou seja, ainda existem, mas são incapazes de realizar os papéis que deveriam cumprir, tornando-se “mortas-vivas”. Nesse cenário, a população enxerga o risco de o estado de anomia pairar sobre a sociedade e entende como necessária sua intervenção na justiça, ou seja, “fazer justiça com as próprias mãos”. Nessa conjuntura, emerge a importância do Direito, que atua como o alicerce da ordem e a fonte de esperança da população. Assim, a atuação legítima do Direito deverá reforçar a confiança nas instituições, limitar os poderes e garantir a aplicação justa das normas.

  Além disso, no mundo contemporâneo, nota-se o crescente enfraquecimento da coesão social, isto é, o afrouxamento dos laços, valores e regras compartilhados, essenciais para o pleno convívio das pessoas em uma coletividade harmônica, capaz de comportar diferenças em paz. Na maioria das sociedades atuais, prevalece a solidariedade orgânica, que entende a importância dos indivíduos com base na interdependência e na divisão do trabalho. Contudo, na realidade presente, em que a visão individualista perpassa quaisquer possibilidades de olhar para outrem com apreço, torna-se nítido o crescimento do medo, da desconfiança e do isolamento das pessoas. O Direito surge, também nessa problemática, como uma ferramenta capaz de reerguer a coesão social por meio da reorganização dos conflitos e da reafirmação dos valores coletivos ao punir certas condutas e proteger direitos, garantindo um mínimo de estabilidade e justiça.

  Dessa forma, à luz do funcionalismo de Émile Durkheim e diante de casos como o linchamento de André Luiz Ribeiro, evidencia-se que o Direito exerce uma função indispensável na manutenção e na reconstrução da ordem social. Ao reafirmar normas, organizar os conflitos e restaurar a confiança nas instituições, ele se consolida como instrumento fundamental para a retomada da coesão social e para a superação de práticas que ameaçam a convivência coletiva.

Pedro Raszl - 1° ano de Direito matutino

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