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domingo, 26 de abril de 2026

A linguagem como ordem social e silenciamento

 

Em uma ótica proposta por Émile Durkheim, a linguagem é um dos exemplos mais tradicionais de fato social, uma vez que a língua e a gramática já existiam antes do nascimento de um indivíduo, sendo, portanto, um sistema concluído e estruturado, onde o indivíduo as herda da sociedade que a impõe, por meio da educação.

Durkheim ainda descreveria a linguagem como uma Instituição Social, já que ela apresenta crenças e condutas estabelecidas pela sociedade, denominadas consciência coletiva, unindo pessoas com o objetivo de garantir que todos tenham ciência de uma base lógica e cultural comum. Essa instituição garante a comunicação e a compreensão de grupos, resultando na organização de ações dentro da coletividade, ou seja, permitindo a coesão social e fortalecendo a sociedade. A exemplo, Grada Kilomba conta que, para que pudesse ingressar em um doutorado, houve exigência de realização de um teste de linguagem alemã; esse exemplo demonstra que a língua é utilizada como um filtro, com o fito de organizar quem pode pertencer a um círculo social e, nesse caso, acadêmico.

Além disso, a gramática apresenta coercitividade. A utilização errônea da norma padrão – ou até mesmo a utilização de uma comunicação carregada de gírias – ou apenas a não utilização da língua padrão pode acarretar uma espécie de sanção social, tornando obrigatório a utilização desse padrão social a fim de garantir a participação em interações sociais. Por exemplo, em uma entrevista de emprego, o candidato que não apresentar habilidades com a língua inglesa – que é um requisito exigido por diversas empresas – é punido com a desclassificação no processo seletivo. Mas por que a gramática resiste as tentativas de mudanças individuais? Porque busca, através de meios coercitivos, manter a uniformidade e a ordem social.

Em um ponto de vista baseado em Kilomba, a característica coercitiva presente nesse modelo de organização social é utilizada como ferramenta de poder que serve as autoridades e os poderosos, considerando que:

1.     Os poderosos regularizariam discursos marginalizados através de meios que forçariam as minorias a mudarem suas ideias para uma comunicação pertencente a zona de conforto do grupo dominante, implicando na alteração de pensamentos e impedindo uma possível afronta ao poder;

2.     Seguindo em uma mesma linha, a linguagem seria usada pelos dominantes para desqualificar a voz dos oprimidos, classificando-a como algo “emocional” e “específica”. Essa rotulação permite aos dominantes ignorar ou, até mesmo, invalidar discursos, com o fito de manter o controle;

3.     Por fim, em casos acadêmicos, é utilizada como um método de barrar a entrada da população marginalizada em universidades, através de avaliações linguísticas, tal como foi expresso no final do segundo parágrafo. Kilomba ainda define que esse procedimento define que tem permissão para produzir conhecimento e quem não tem.

Dessa maneira, a análise da gramática através de Durkheim e Kilomba nos apresenta, respectivamente, um fato social que atua como ferramenta para instituir ordem e harmonia através da coercitividade e, por outro lado, representa uma estrutura de poder que busca repreender e silenciar os indivíduos marginalizados.

- Catarina de Oliveira Fernandes – 1° Direito matutino

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