Há muitas décadas que se busca exportar uma certa imagem de brasilidade para mundo, que frequentemente corresponde a um universo limitado ao preto e branco calçadas cariocas, aos paralelepípedos baianos e às matas vitimadas da amazônia. O Brasil da praia e do futebol é uma propaganda que já compramos pifiamente e hoje não acreditamos mais. Corrupção política, desvio de verba, guerra cultural, desastres ambientais, e, mais importante: o Hexa parece nunca vir. Nesse cenário, muitos brasileiros se acomodaram ao pessimismo, quando não ao ódio direcionado a toda a condição de brasilidade. "Brasil, ame-o ou deixo-o", de pregão, virou meta de vida.
O conflito desses contrastes foi analisado profusamente pela sociologia aqui desenvolvida. Não há poupança de autores que abordem o "jeitinho brasileiro" sob a óptica dos condicionantes materiais Parte desse trabalho, no entanto, baseou-se fundamentalmente na formulação de tipologias conforme visto em Max Weber.
Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, dialoga profundamente com o raciocínio weberiano. Em seu As Raízes do Brasil, constrói dois tipos ideais para interpretar a genealogia comportamental dos brasileiros: as figuras do trabalhador e do aventureiro. Em verdade, esse tipo de teorização parece perpassar todas as gerações da literatura nacional: casas-grandes e senzalas, sobrados e mucambos, a casa e a rua; se mais longe, também nos tempos expressos da eugenia se tinha o "tipo mulato" (a "malandragem") como fator de tensão sociobiológica. Faltará ainda alguém escrever um "clubes e favelas" para o Brasil contemporâneo. E aqui um esforço para refrear duas angústias: o desconstrutivismo binomial e o materialismo histórico.
Ao passo que o pensamento pós-estruturalista e dialético focam nas estruturas que produzem o comportamento individual, num vetor de verticalidade ou multilateralidade, a sociologia compreensiva de Weber provém horizontalmente da relação entre as partes e suas ações subjetivas. Não à toa, a cultura seria o "capital weberiano", e a família, unidade celular da sociedade.
Também cabe discutir brevemente as interações de poder. Se para Weber, a dominação é sempre probabilística, faltou-lhe o exemplo brasileiro para corroborar cabalmente sua tese. Em que sociedade se pode prestigiar mais nitidamente a fricção de forças que se interpolam e se sobrepõem no mesmo espaço? O Brasil é a terra da heterogeneidade. Há quem chame desigualdade socioeconômica ou diversidade étnica, mas persiste a noção de influxo, vicinalidade e subjacência. Nesse sentido, e retomando Sérgio Buarque, nosso cordialismo representaria um fenômeno cortante da racionalidade burocrática ocidental, a perfeita gororoba do que Weber procurou descrever em sua Ética Protestante. Perece o viralatismo a favor da importações de modelos nunca propriamente assimilados. Talvez daí a descrença de muitos brasileiros no próprio país.
Enzo Moriguchi Breslau — Matutino
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