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domingo, 29 de março de 2026

Um positivista no futuro

 

Em seu escritório silencioso, Auguste Comte inclinava-se sobre a escrivaninha, cercado por papéis meticulosamente organizados. A pena deslizava com precisão enquanto ele redigia mais um trecho de sua obra, o “Curso de Filosofia Positiva”.

Seu pensamento gravitava em torno daquilo que chamava de ordem social. Para ele, a sociedade deveria funcionar como um organismo: cada indivíduo ocupando seu papel, cada função contribuindo para a harmonia do todo. O trabalho, nesse sistema, era elemento central — organizava a vida coletiva, estruturava as relações e conduzia ao progresso.

“O trabalho”, escrevia ele, “é um elemento fundamental da coesão social, pois estabelece a utilidade de cada um e assegura a estabilidade do conjunto.”

Cansado, apoiou a cabeça sobre a mão. Por um instante, seus olhos se fecharam — e o mundo ao seu redor pareceu dissolver-se.

Quando tornou a abrir os olhos, já não estava em seu escritório.

Diante dele erguia-se um prédio amplo, moderno, com paredes pixadas e estudantes circulando em grupos. Um letreiro indicava tratar-se de uma universidade pública, UNESP. Intrigado, aproximou-se, guiado por vozes que o conduziram até o anfiteatro.

Ali, um cartaz anunciava a palestra:

“Entre a precarização, automatização dos processos e escala 6x1: A quem serve o Direito do Trabalho?”, com o Dr. Denilson Carvalho, Débora de Araújo e Matheus Rigonatti.

Comte sentou-se discretamente ao fundo.

Quem conduzia a exposição era Matheus Riconatti, cuja fala era firme e atravessada por experiências concretas. Ele não se limitava a conceitos abstratos: narrava sua atuação junto a mototaxistas, entregadores de aplicativos e trabalhadores ambulantes — categorias frequentemente invisibilizadas e desprotegidas.

Falava da precarização do trabalho como regra, não exceção. Da ausência de garantias básicas, da instabilidade constante, da transferência de riscos ao próprio trabalhador. Descrevia rotinas exaustivas, marcadas não por vínculos formais, mas por algoritmos, avaliações e uma permanente insegurança.

Comte franziu a testa.

Aquilo não correspondia à ordem harmoniosa que ele concebera. Em sua teoria, o trabalho deveria integrar o indivíduo à sociedade de maneira funcional, quase orgânica. No entanto, ali parecia haver ruptura — não integração.

Uma estudante levantou a mão e questionou:

— Se o Direito do Trabalho deveria proteger o trabalhador, por que ele tantas vezes parece servir mais à manutenção da produção do que à dignidade humana?

A pergunta ecoou no auditório — e dentro de Comte.

Foi então que ele observou com mais atenção os rostos ao redor.

Havia ali não apenas jovens atentos e críticos, mas uma diversidade que lhe causou profundo estranhamento: mulheres, pessoas negras, estudantes de origens que, em seu século, dificilmente teriam acesso a espaços de formação superior — e muito menos a um curso tradicional como o Direito. Não eram figuras silenciosas; participavam, questionavam, confrontavam.

Aquilo o desconcertou.

Em sua época, o saber acadêmico era restrito a uma elite bastante definida. A presença ativa daqueles sujeitos indicava uma transformação social que ele não havia previsto em toda sua extensão. Se, por um lado, aquilo parecia representar um avanço — um sinal possível de progresso —, por outro, as falas que emergiam daquele mesmo espaço revelavam que a ampliação do acesso não significava, necessariamente, a superação das desigualdades.

Comte sentiu que sua própria ideia de ordem começava a vacilar.

“Talvez”, pensou, “a ordem não seja, por si só, garantia de justiça.”

Matheus Riconatti prosseguia, ressaltando que esses trabalhadores — embora essenciais para o funcionamento cotidiano da sociedade — permaneciam à margem das proteções jurídicas mais básicas. Havia ali uma contradição evidente: quanto mais indispensável o trabalho, menos reconhecido ele parecia ser.

A tecnologia, que poderia aliviar o esforço humano, surgia não como libertação, mas como instrumento de intensificação: mais controle, mais exigência, menos tempo de vida fora do trabalho.

Comte sentiu um desconforto crescente.

Se o trabalho deixava de ser um fator de equilíbrio social e passava a ser um instrumento de intensificação das desigualdades, então sua teoria estava — ao menos em parte — incompleta.

O auditório começou a se dissolver.

As vozes tornaram-se distantes.

E, subitamente, ele despertou.

De volta ao seu gabinete, a pena ainda em sua mão, o manuscrito diante de si. O silêncio era absoluto — exceto pela inquietação que agora lhe parecia impossível ignorar.

Releu o que havia escrito.

Hesitou.

Pela primeira vez, considerou que a realidade social poderia escapar às estruturas rígidas de sua teoria. Que a ordem, sem reflexão crítica, poderia servir não ao progresso coletivo, mas à manutenção de desigualdades profundas. Que o trabalho, longe de apenas integrar, também poderia excluir, explorar e reduzir a vida a sua dimensão produtiva.

Molhou novamente a pena na tinta.

E, antes de continuar, acrescentou à margem:

“O trabalho organiza — mas também pode oprimir. Entre a ordem e o progresso, é preciso perguntar: a quem serve?”

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