Em seu escritório silencioso, Auguste
Comte inclinava-se sobre a escrivaninha, cercado por papéis meticulosamente
organizados. A pena deslizava com precisão enquanto ele redigia mais um trecho
de sua obra, o “Curso de Filosofia Positiva”.
Seu pensamento gravitava em torno daquilo
que chamava de ordem social. Para ele, a sociedade deveria funcionar como um
organismo: cada indivíduo ocupando seu papel, cada função contribuindo para a
harmonia do todo. O trabalho, nesse sistema, era elemento central — organizava
a vida coletiva, estruturava as relações e conduzia ao progresso.
“O trabalho”, escrevia ele, “é um elemento
fundamental da coesão social, pois estabelece a utilidade de cada um e assegura
a estabilidade do conjunto.”
Cansado, apoiou a cabeça sobre a mão. Por
um instante, seus olhos se fecharam — e o mundo ao seu redor pareceu
dissolver-se.
Quando tornou a abrir os olhos, já não
estava em seu escritório.
Diante dele erguia-se um prédio amplo,
moderno, com paredes pixadas e estudantes circulando em grupos. Um letreiro
indicava tratar-se de uma universidade pública, UNESP. Intrigado, aproximou-se,
guiado por vozes que o conduziram até o anfiteatro.
Ali, um cartaz anunciava a palestra:
“Entre a precarização, automatização dos
processos e escala 6x1: A quem serve o Direito do Trabalho?”, com
o Dr. Denilson Carvalho, Débora de Araújo e Matheus Rigonatti.
Comte sentou-se discretamente ao fundo.
Quem conduzia a exposição era Matheus
Riconatti, cuja fala era firme e atravessada por experiências concretas. Ele
não se limitava a conceitos abstratos: narrava sua atuação junto a
mototaxistas, entregadores de aplicativos e trabalhadores ambulantes —
categorias frequentemente invisibilizadas e desprotegidas.
Falava da precarização do trabalho como
regra, não exceção. Da ausência de garantias básicas, da instabilidade
constante, da transferência de riscos ao próprio trabalhador. Descrevia rotinas
exaustivas, marcadas não por vínculos formais, mas por algoritmos, avaliações e
uma permanente insegurança.
Comte franziu a testa.
Aquilo não correspondia à ordem harmoniosa
que ele concebera. Em sua teoria, o trabalho deveria integrar o indivíduo à
sociedade de maneira funcional, quase orgânica. No entanto, ali parecia haver
ruptura — não integração.
Uma estudante levantou a mão e questionou:
— Se o Direito do Trabalho deveria
proteger o trabalhador, por que ele tantas vezes parece servir mais à
manutenção da produção do que à dignidade humana?
A pergunta ecoou no auditório — e dentro
de Comte.
Foi então que ele observou com mais
atenção os rostos ao redor.
Havia ali não apenas jovens atentos e
críticos, mas uma diversidade que lhe causou profundo estranhamento: mulheres,
pessoas negras, estudantes de origens que, em seu século, dificilmente teriam
acesso a espaços de formação superior — e muito menos a um curso tradicional
como o Direito. Não eram figuras silenciosas; participavam, questionavam,
confrontavam.
Aquilo o desconcertou.
Em sua época, o saber acadêmico era
restrito a uma elite bastante definida. A presença ativa daqueles sujeitos
indicava uma transformação social que ele não havia previsto em toda sua
extensão. Se, por um lado, aquilo parecia representar um avanço — um sinal
possível de progresso —, por outro, as falas que emergiam daquele mesmo espaço
revelavam que a ampliação do acesso não significava, necessariamente, a
superação das desigualdades.
Comte sentiu que sua própria ideia de
ordem começava a vacilar.
“Talvez”, pensou, “a ordem não seja, por
si só, garantia de justiça.”
Matheus Riconatti prosseguia, ressaltando
que esses trabalhadores — embora essenciais para o funcionamento cotidiano da
sociedade — permaneciam à margem das proteções jurídicas mais básicas. Havia
ali uma contradição evidente: quanto mais indispensável o trabalho, menos reconhecido
ele parecia ser.
A tecnologia, que poderia aliviar o
esforço humano, surgia não como libertação, mas como instrumento de
intensificação: mais controle, mais exigência, menos tempo de vida fora do
trabalho.
Comte sentiu um desconforto crescente.
Se o trabalho deixava de ser um fator de
equilíbrio social e passava a ser um instrumento de intensificação das
desigualdades, então sua teoria estava — ao menos em parte — incompleta.
O auditório começou a se dissolver.
As vozes tornaram-se distantes.
E, subitamente, ele despertou.
De volta ao seu gabinete, a pena ainda em
sua mão, o manuscrito diante de si. O silêncio era absoluto — exceto pela
inquietação que agora lhe parecia impossível ignorar.
Releu o que havia escrito.
Hesitou.
Pela primeira vez, considerou que a
realidade social poderia escapar às estruturas rígidas de sua teoria. Que a
ordem, sem reflexão crítica, poderia servir não ao progresso coletivo, mas à
manutenção de desigualdades profundas. Que o trabalho, longe de apenas
integrar, também poderia excluir, explorar e reduzir a vida a sua dimensão
produtiva.
Molhou novamente a pena na tinta.
E, antes de continuar, acrescentou à
margem:
“O trabalho organiza — mas também pode
oprimir. Entre a ordem e o progresso, é preciso perguntar: a quem serve?”
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