Em março de 2026, o debate promovido pelo Centro Acadêmico de Direito na FCHS, com a presença de Débora de Araújo e Matheus Rigonatti (VAT), trouxe à tona uma questão que ultrapassa as salas de aula: a quem, afinal, serve o Direito do Trabalho? A discussão, centrada na precarização e na automação, ganha contornos dramáticos quando confrontamos a persistência da escala 6x1 com as bases teóricas que sustentam nosso ordenamento jurídico.
A tese apresentada por Araújo revela um cenário onde a vontade do capital, potencializada pela inteligência artificial e pela tecnocracia, instrumentaliza a norma jurídica. Sob essa ótica, o Direito do Trabalho muitas vezes atua como um "guardião silencioso", que se diz neutro enquanto protege o individualismo liberal. É aqui que o conflito se estabelece: de um lado, a leitura marxista denuncia o desgaste do proletariado; de outro, o positivismo de Auguste Comte enxerga o trabalho e o direito como "fatos sociais" — engrenagens que devem ser mantidas em harmonia para garantir o progresso e a ordem coletiva.
O problema reside no que podemos chamar de positivismo ignorante. Ao interpretar a CLT de forma puramente positiva, defende-se que, se a lei autoriza a jornada 6x1, a prática é automaticamente legítima. Essa visão rígida reduz o Direito a uma ferramenta de organização produtiva, ignorando que a norma não existe no vácuo, mas impacta corpos e mentes reais.
Dissociar a norma da realidade social transforma a lei em um instrumento de manutenção de um modelo que consome o indivíduo. A verdadeira força de um sistema jurídico não deveria ser medida pela sua capacidade de preservar regras arcaicas, mas pela sua aptidão em proteger a dignidade humana frente às inovações técnicas e às pressões do mercado.
Portanto, a urgência de uma revisão na estrutura trabalhista não é apenas uma demanda econômica, mas um imperativo ético. Se o Direito continuar a negligenciar o homem para salvar a regra, ele provará ser não um pilar de justiça, mas apenas uma burocracia do desgaste. Que a busca pelo "progresso" não soterre, definitivamente, a qualidade de vida de quem o constrói.
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