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terça-feira, 31 de março de 2026

O Esquadro e a Marcha: A Física Social no Pátio da Escola

O Esquadro e a Marcha: A Física Social no Pátio da Escola

O relógio marca exatamente sete horas. No pátio, não se ouve o burburinho caótico que costuma definir a juventude. Há, em vez disso, uma geometria humana: colunas e fileiras perfeitamente alinhadas, uniformes sem vincos, colares e brincos discretos. Ali, o indivíduo parece dar lugar à "Humanidade", aquela entidade coletiva que Auguste Comte descrevia como o único ser verdadeiramente real. Como um jornalista observando as engrenagens de um relógio, vejo a "Física Social" em pleno funcionamento.

Naquela escola, a "estática social" — a teoria da ordem — não é um conceito abstrato; é o brilho das botas engraxadas. Para o positivista, a sociedade é um organismo que precisa de harmonia. Onde a "fase metafísica" via direitos individuais e discussões tempestuosas sobre a liberdade, a "fase positiva" enxerga deveres. "O homem propriamente dito não existe", diria o mestre francês, e no pátio da escola cívico-militar, essa máxima ecoa. O aluno não é uma ilha de desejos, mas uma peça de uma engrenagem que busca o Progresso através da Ordem.

No entanto, como analista do Direito, observo o conflito. O ordenamento jurídico brasileiro, em sua face constitucional, preza pelo pluralismo de ideias. Mas, para a lente positivista que fundamenta esse modelo escolar, o pluralismo é muitas vezes visto como "anarquia mental". A disciplina militar entra como o "poder moral" necessário para reorganizar a sociedade que, em tese, perdeu seu norte. É a substituição da "vã discussão de direitos" pela "fecunda apreciação dos deveres".

Enquanto a bandeira sobe, o lema "Ordem e Progresso" — nosso DNA positivista — parece ganhar vida. Para os defensores desse modelo, a escola é o laboratório onde se cultiva o "espírito positivo", combatendo o egoísmo individualista em prol do altruísmo social. Mas o observador atento se pergunta: ao buscar a "física social" da ordem perfeita, o que fazemos com a "dinâmica social" da criatividade e do questionamento, tão vitais para a evolução das leis?

Ao final da cerimônia, a marcha começa. Esquerda, direita. O ritmo é o da lei natural e invariável. Para o positivismo, não há espaço para o acaso ou para o caos. A realidade ali analisada é um espelho de um Brasil que, vira e mexe, volta a Comte para tentar consertar com régua e esquadro o que a política, em sua natureza imperfeita e humana, insiste em desordenar.



Pedro Dutra de Melo - Matutino 

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