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domingo, 10 de maio de 2026

O ideário burguês na sociedade contemporânea


Em “A Ideologia Alemã”, Marx e Engels tem como objetivo principal se opor ao pensamento idealista defendido por Hegel, que se baseava em um método de análise da sociedade focado unicamente em ideias filosóficas. Enquanto Hegel permanecia no campo das ideias para a análise sociológica, Marx entendia que a compreensão da sociedade só poderia ser feita por meio da análise da realidade social. Para Marx, todas as pessoas expressam sua vida por meio da produção material, que dá origem à divisão do trabalho. Assim, duas classes antagônicas surgem: a burguesia, classe dominante que controla os meios de produção, e o proletariado, classe dominante que vende sua força produtiva em troca de um salário. Como forma de mediar essas relações entre classes sociais, o Estado surge como uma força mediadora, agindo de forma “neutra”, quando na verdade mantém a ordem daqueles que comandam a sociedade.

De forma geral, tudo que circunda a vida em sociedade traz consigo concepções sustentadas pelo ideário burguês. Assim, âmbitos como a política, a economia e até mesmo a arte são produtos diretos do que a burguesia entende como válido, correto e bonito. Em relação à arte, mais especificamente, à música, isso pode ser visto pela desvalorização e até mesmo criminalização de gêneros como o samba e o funk. Ou seja, ritmos majoritariamente criados e ouvidos por pessoas que são exploradas pelo sistema capitalista. Para além disso, há também um recorte de raça, uma vez que, no Brasil, os ritmos apresentados foram criados pela população negra e periférica. O samba foi criminalizado na década de 1930, durante a Era Vargas, época em que esse tipo de música era comumente associado à “malandragem” e os sambistas eram constantemente presos e perseguidos pela polícia. Atualmente, o funk se encontra na mesma situação. 

O funk começa a ser criminalizado na década de 1990, situação que perdura até os dias de hoje. Com raízes semelhantes ao do samba, o funk se tornou popular entre os jovens residentes das periferias brasileiras, e ultrapassou esse público, sendo tocado em grande parte das festas. Entretanto, esse ritmo ainda é entendido como “sujo” e “violento” por grande parte da sociedade que, alinhadas com o projeto de vida burguês cultuam preconceitos acerca de ritmos populares. Como resultado disso, surgem projetos de lei como o PL 26/2025, conhecido como “Lei Anti-Oruam”, que visa suspender o financiamento público de shows de funk. Esse tipo de medida é construída a partir da justificativa errônea de que o funk está associado ao crime organizado, criando assim um espectro de preconceito e elitismo em relação ao funk. Para além disso, fica evidente que essa justificativa é falha, uma vez que, a partir de recentes investigações, foi exposto a relação entre o PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa, e empresas com sede na região da Faria Lima. 

Desse modo, o Estado, além de mediar as relações entre burguesia e proletariado, é um aparato de defesa dos interesses das classes dominantes, perpetuando um ideário burguês, elitista e preconceituoso. Assim, ritmos brasileiros periféricos, que ganham cada vez mais espaço no mundo, acabam sendo desvalorizados pela própria pátria, que deveria servir como instrumento de enriquecimento desses gêneros. 


Maria Clara Basile Fardin - Direito Noturno

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