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quinta-feira, 26 de março de 2026

Um positivista, assistindo à palestra do CADir, diria que...

Atenção! A situação retratada nessa carta é ficção e, portanto, não é baseada em acontecimentos ou pessoas reais. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
    
Caro amigo,

    Espero que se encontre bem. Há muito tempo não lhe envio notícias. Minha vida tem estado muito agitada desde que consegui aquele emprego como auxiliar na Câmara dos Deputados. Apesar de adorar o que faço, são muitos prazos a cumprir, textos oficiais para publicar, documentos para separar... Quase nunca consigo aproveitar meu tempo livre, já que tenho tanto trabalho que frequentemente preciso terminá-lo em casa. E, há ainda, o estresse causado pelas discussões entre os deputados opositores, que embora, raramente, envolvam o partido para o qual trabalho tem me causado grande desgaste pelo ambiente de constantes discussões. Sei que era de se esperar que presenciaria dissidências, mas não acreditava que esse emprego chegaria a me fatigar dessa maneira. Na verdade, é por esse motivo que lhe escrevo: preciso manifestar o que sinto para não enlouquecer. 
    Na última reunião, um deputado federal do partido Ordem chegou ofegante e com voz estridente proferiu o seguinte discurso ao subir à tribuna:
    - Senhoras e senhores deputados, peço a atenção de todos para a lástima que presenciei, a qual causou-me profunda indignação: os rumos que nossos estudantes tem tomado. Recentemente, fui até uma palestra do Centro Acadêmico de Direito (CADir) da Unesp de Franca. O assunto debatido, cujo título era "Entre precarização, automação dos processos e escala 6x1", foi abordado com o enfático objetivo de doutrinar os nossos jovens para que sejam cooptados para elegerem os candidatos ditos "progressistas" nesse ano eleitoral. Essa palestra defendia a necessidade de garantir o direito dos trabalhadores ao lazer e à saúde psicológica por meio da redução da jornada de trabalho que poderia desestruturar ainda mais a frágil economia nacional, a qual apresenta sérios riscos de ser levada à ruína juntamente com os empreendedores responsáveis pela geração de grande parte dos empregos do país e pela circulação da moeda. Além do mais, querem direitos para os trabalhadores? Quais trabalhadores? Se não trabalharem não serão trabalhadores. As mentes juvenis não tem o discernimento necessário para rejeitar as incoerências que lhes são ditas. Alguém tem que...
    Então, antes que ele pudesse continuar, foi interrompido pelo presidente do partido Sororidade:
    - Como pode o senhor, deputado, acusar de maneira tão violenta uma perspectiva diferente da sua? Como pode questionar os males experienciados por aqueles que sempre estiveram à margem da sociedade, que nunca obtiveram os privilégios que o senhor, que nasceu em berço de ouro, sempre teve? Como consegue ignorar a precariedade e a pobreza, às quais são expostos cidadãos, trabalhadores dedicados, que não buscam nada além de conseguir chegar em casa vivos e promover o sustento de seus filhos, irmãos, pais e avós? Eu, sinceramente, gostaria de saber como o senhor consegue dormir à noite sem remorso por defender a escravidão moderna, por defender não uma pátria justa, tal como o senhor alega, mas sim a estagnação do operariado em seu estado de exaustão constante e de angústia existencial pela desesperança quanto a melhoria das condições de vida. O senhor, ao que me parece, não defende a nação, a explora e ainda possui a audácia de acusar os trabalhadores de indolentes e os jovens de ignorantes, quando o ignorante é, na verdade, o senhor que desconsidera o sofrimento alheio!
    Depois dessa fala, pode-se imaginar o que se seguiu: um grande tumulto. Já não era mais possível haver diálogos completos, apenas alguns gritos, já que as interrupções tornaram-se constantes:
    - Vocês, sororistas, são a perdição da nação! Usam a academia para subverter a ordem e desvencilhar o progresso do país. Sempre querem sabotar a estrutura que os sustenta, querem ajudar os pequenos às custas dos grandes, aos quais devemos o que temos hoje! São traidores da pátria que querem vê-la ruir, são ladrões que querem tudo do modo mais fácil! 
    - E vocês, ordenistas, contraditoriamente, prezam pelo engrandecimento por meio das tecnologias, das start ups em detrimento da integridade da nação a qual afirmam defender. Assim, vocês são verdadeiros hipócritas que querem o retrocesso das conquistas de direitos básicos!
    Logo as divergências ideológicas culminaram em ofensas diretas e xingamentos mútuos. Por fim, alguns deputados tiveram que ser separados para evitar um embate físico.
    Agora, após relatar o ocorrido, estou mais leve, embora ainda mais cansada. Em breve, vou dormir, pois tenho muito a fazer amanhã. Estou ansiosa para saber o desfecho dessa situação nos próximos dias.
Não se esqueça de me contar as novidades.
Abraços, 
Amiga 


Mariane Almeida Santos - 1°ano- Direito-Matutino

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