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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Precarização, Marx e um motoboy

 Às 6 da manhã de um domingo, Marcos, um jovem negro de 18 anos, acorda, toma seu café e se despede às pressas de sua filha e de sua esposa para iniciar o seu dia de trabalho na Grande São Paulo. Sua mulher havia pedido para ele tirar um dia de descanso junto com a família, porém ele já estava há uma semana sem receber por causa de uma virose que o impossibilitou de trabalhar nesse período. Convencido pela ideologia do esforço individual de que é o único responsável pelo próprio sucesso e o "empreendedor de si mesmo", ele liga a moto e sai da periferia, pois aparece uma demanda do iFood para entregar um cappuchino gourmet junto de um combo de brunch artesanal em um condomínio.

  Ele corta o trânsito na busca de chegar o mais rápido possível, já que na sua mente “tempo é dinheiro”, e assim segue levando uma encomenda que custa o dobro do que ele ganhará no turno inteiro. Em uma manobra brusca para evitar um carro de luxo, a sua moto tomba. O joelho dói, mas o pânico é outro: a bolsa térmica. Ao abri-la, vê o cappuchino gourmet entornado sobre o papel de seda da embalagem. Ele se desespera com medo de chegar atrasado e receber uma péssima avaliação, enquanto limpa o sangue no jeans com a mão suja de óleo. Assim, ele volta para a moto e segue até o condomínio. Chegando lá, é recebido por um jovem de sua idade que aceita a encomenda, mas reclama da demora, diz que Marcos está atrapalhando o seu domingo e se despede com um “mas tudo bem, valeu aí”. Enfim, essa foi apenas a primeira entrega de Marcos; ele ainda tem um dia inteiro de trabalho antes de chegar em casa, dormir e começar tudo de novo.

  Essa é uma história fictícia, mas a situação de Marcos é a realidade de muitos brasileiros. No fenômeno da "uberização", milhares de cidadãos têm seus direitos negligenciados por aplicativos digitais. A precarização do trabalho dos motoboys, em especial, é caracterizada pela perda de direitos trabalhistas, instabilidade e condições inseguras. Alguns conceitos de Karl Marx ajudam a entender, por meio de uma relação analógica, o cenário retratado e a realidade do Brasil. De acordo com Marx, a alienação ocorre quando o trabalhador deixa de ser o objetivo final de sua própria produção. Tal conceito é visualizado nessa narrativa e em muitos “proletariados” brasileiros, tendo em vista que o algoritmo do iFood é quem detém o poder de decisão sobre a força de trabalho de Marcos e dos motoboys que utilizam o aplicativo. Ainda mais, o fetiche, para Marx, acontece quando a mercadoria passa a ter “valores mágicos” que a tornam mais importante que a própria vida humana. Isso é observado no jovem destinatário do pedido, que valorizou mais a sua encomenda do que a integridade de Marcos.

 
 Desse modo, os motoboys tornam-se engrenagens para aumentar os lucros de proprietários de aplicativos. O risco de morte e a precarização são intensificados por algoritmos para fomentar o lucro, enquanto os trabalhadores recebem uma insignificante parcela desse ganho (mais-valia). Conclui-se que, na "uberização", o progresso tecnológico mascara velhas formas de exploração, onde o sucesso individual prometido é, na verdade, a face mais cruel da desumanização contemporânea.


Arthur Paranhos - 1° ano Direito noturno

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