Em um momento histórico no qual ligar a TV ou abrir as redes sociais tornou-se sinônimo de acompanhar tragédias naturais ou sociais, a sociedade enfrenta o complexo desafio de hierarquizar os problemas que abalam suas estruturas. Surge, então, o questionamento: “Será este um problema sobre o qual devemos nos preocupar ou apenas mais um entre tantos iguais?”.
No dia 31 de janeiro, uma adolescente de 17 anos foi violentada por quatro homens e um menor em Copacabana. O caso gerou uma ampla repercussão, causando uma grande revolta na população, intensificada quando um dos criminosos se apresentou à delegacia usando uma camiseta com a frase “Regret Nothing” ("Não se arrependa de nada"), lema comum em grupos “Red Pill” que disseminam ideologias machistas no ambiente virtual.
Esses grupos, influenciados por figuras como Andrew Tate, exercem uma força enorme no ambiente digital, promovendo a dominação masculina e o desprezo às mulheres. Com vídeos de ódio acessíveis de forma rápida e fácil, jovens são constantemente expostos a discursos que transformam frustrações pessoais em uma violência organizada contra a mulher.
Sob a lente da imaginação sociológica de C. Wright Mills, esse caso e tantos outros de violência direcionada à mulher, deixam de ser apenas uma "perturbação pessoal" da vítima para se tornar uma "questão pública" grave. Mills defende que nossas vidas estão ligadas à história e às estruturas sociais. Em grande parte desses casos, a agressão e o comportamento dos envolvidos não nascem do nada, são moldados por uma estrutura social que valida a misoginia e permite, muitas vezes pela sociedade identificar o problema como sendo da esfera individual, que essas agressões aconteçam da forma e da frequência em que estão acontecendo.
A imaginação sociológica permite perceber que esse drama individual é, na verdade, um sintoma de uma crise profunda nos valores da sociedade moderna. Compreender a ligação entre o conteúdo que circula nas telas e a violência real é o primeiro passo para enfrentar as causas estruturais desse problema e diminuir sua ocorrência.
Portanto, o que é racional para o Direito nesse cenário não é apenas a punição isolada, mas a compreensão científica das causas desse comportamento. Afastando-se das "antecipações da mente" mencionadas por Francis Bacon, a justiça deve analisar o crime como um fenômeno moldado por fatores sociais e digitais. A racionalidade jurídica reside em transformar a indignação social em uma análise clara e distinta da realidade, reconhecendo que o combate à misoginia estrutural é o único fim prático capaz de garantir o bem comum e a segurança das liberdades individuais.
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