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terça-feira, 10 de março de 2026

A Racionalidade das Sombras

Era apenas mais um clique, um "investimento" de dez reais entre o café e o ônibus. No Tribunal do Direito, o sujeito que aposta é visto como o homo economicus: um ser dotado de vontade livre, capaz de ler contratos e decidir racionalmente o seu destino. Para o ordenamento jurídico, se há autonomia de vontade, há validade. Mas, ao fecharmos o código (ignorância) e abrirmos a janela da realidade social (contexto da Sociologia), a imagem do indivíduo autônomo se desfaz em pixels de ansiedade.

Quando ligamos um aparelho eletrônico, seja o telefone, televisão, rádio e entre outros, para assistirmos, sobre os avanços avassaladores das plataformas de apostas (Bets) sobre o orçamento das famílias brasileiras. As redes midiáticas trata o fenômeno ora como entretenimento e com um tom de brincadeira, ora como tragédia individual, pós conhecimento sociológico. É aqui que entra a Imaginação Sociológica, a "Promessa" de C. Wright Mills. No qual, o autor nos ensina que, para compreender nossa vida cotidiana, precisamos conectar a nossa biografia com a história da estrutura social.

O endividamento do vizinho não é apenas um "problema pessoal" decorrente de uma falha de caráter ou de uma má decisão racional; é uma questão pública. Como explica Mills, quando um homem está sem dinheiro, o problema é dele; mas quando uma malha social inteira compromete o auxílio-aluguel em algoritmos de cassino, estamos diante de um colapso das instituições. A racionalidade jurídica ignora que o "livre arbítrio" é condicionado por uma publicidade agressiva que molda o desejo impulsiovo de indivíduos.

Mas o Direito pergunta: "Houve fraude?". Mas também, a Sociologia pergunta: "Quais forças históricas empurraram essa multidão para a armadilha?". A crise das bets revela o descompasso entre a norma e a vida. Enquanto o Direito se ocupa da validade do contrato e nas autonomias de vontade, a realidade grita pela compreensão das estruturas. Ter imaginação sociológica é perceber que o apostador não está sozinho em seu quarto; ele está sentado à mesa com a crise econômica, o marketing de influência e a fragilidade das redes de proteção. Somente ao entender que o pessoal é político — e social — é que deixamos de ser figurantes de uma história que não escrevemos.


Pedro Dutra de Melo - Matutino

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