Ano de eleição, é comum que nossos pré-candidatos comecem a radicalizar suas pautas e multiplicar seus canais. Falas postas, falas retiradas, o calor do momento parece agir sobre seus ânimos inconscientes e produzir cada pérola que nos fazem questionar quão direcionada deve ser uma retórica para atingir seu público-alvo sem que se fira a boa-fé alheia. Caso foi que, num 1° de Maio, certo pré-candidato condenou a noção supostamente consolidada no Brasil de que "criança não pode trabalhar sem ser considerada escrava", comparando-nos com o suor honesto e bem ganho dos newsboys americanos do século passado.
Apesar das retratações ex post facto, estas apontam muito mais para uma recauchutagem do discurso do que para um possível lapso na sua intencionalidade. Mas são bem-vindas as correções, na medida que relembrem a existência da nossa Constituição. Essa visão idílica do trabalho infantil, em que a criança se torna, não objeto de tutela, mas empreendedora do próprio futuro, sinaliza certamente para um grupo de interesse específico, uma classe específica (pensamento quase medieval, quando diferenciavam-se as crianças dos adultos pelo tamanho somente). Ao menos assim entenderia São Marx, se visse a apelação que nosso pré-candidato faz ao senso comum: "Toda criança pode estar ajudando com questões simples. Eu trabalho desde que aprendi a contar. Acompanhava meu pai o dia todo, contava parafuso, porca e ajudava ele a embrulhar em jornal."
Há cachorro mais chutado que a meritocracia? As porcas e parafusos embrulhados decerto não vinham para completar renda. Trabalho proveitoso, de fato, quando prestado dentro da empresa do próprio pai e ditando o ritmo da própria produção. Sim, o trabalho dignifica o ser humano. Puro suco ideológico. A realidade dos últimos dois séculos e meio então correspondem falsamente (Oliver Twist datando quase duzentos anos!). Mas façamos aqui uma distinção preciosa: a iniciação profissionalizante para jovens é suficientemente regulada pela legislação brasileira, e quando aliada a estruturas funcionais e fiscalizadas que não prejudiquem a vida escolar, abre um mundo de oportunidades de qualificação. Falar de estrutura no Brasil inspira animosidade, e bem sabemos que o intento do nosso orador consiste mais em propagar outras modalidades de trabalho na infância que, se não destinadas a inflar dita estrutura (em vez de ampliá-la), devem dispensá-la totalmente.
A grande magia do capitalismo é sua elasticidade, não de reinventar apenas sua técnica, mas também as metanarrativas que devem sustentá-la. Se falta renda, deixem que empreguem a prole, e se disso o custo da força de trabalho cai como um todo, a rixa entre pais e filhos será resolvida na privacidade de uma mesa de jantar, comendo o que sobrar das bolsas. Todo o estudo não tem por fim o mercado de trabalho mesmo? É cortar caminho! Não se precisa ir longe para recordar a onda dos coachs mirins, outro golpe para a razão do ensino básico. E se, a despeito de tudo, a emergência de outras economias no cenário global prova de novo e de novo o valor da educação no desenvolvimento de uma sociedade a longo prazo, relativizemos: "Europa e Ásia são outro mundo".
Então refaçamos a velha pergunta: a quem serve essa flexibilização?
Enzo Moriguchi Breslau — Matutino
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