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segunda-feira, 23 de março de 2026

Da palestra de 19 de março

No dia 19/03, o Centro Acadêmico de Direito organizou uma palestra que tinha por mote precarização, automatização dos processos e escala 6x1: a quem serve o Direito do Trabalho? Ao que nos interessa, fomos convidados a confrontar o pensamento positivista comteano com a análise essencialmente materialista e criticista dos palestrantes que desenvolveram o debate.      

No que é possível trabalhar Comte em termos dialéticos sem incorrer num conflito epistêmico — não seria a própria ordem e desordem um binômio de opostos? —, cabe-nos avaliar a cumulatividade do progresso humano na relação trabalho-ciência mediante a óptica dos nossos apresentadores.      

Diferentemente das aventuras naturalistas do século XIX — quando o fazer ciência definia-se pela correspondência entre alguns círculos de jovens românticos com laboratórios domésticos, obcecados pelos segredos da filosofia natural —, ocorre que atualmente a produção científica é um processo industrializado. A comunidade de pesquisadores depende majoritariamente do interesse do capital privado para se sustentar. Daí surgirem projetos socialmente alienantes, monomanias do Vale do Silício, quimeras tecnológicas para fascínio dos acionistas e espanto do público global. Quando acontece de um desses inventos estourar a bolha tecnocrata, assistimos a mais um choque de sofistificação.  

O privilégio da posteridade nos permite um retrospecto crítico das ingenuidades da iniciativa positivista (ingenuidades que deixaremos a cargo dos pós-modernos). Mas porventura não haverá maior testemunha de perjúrio do que a base trabalhadora, presa numa constante temporal. Desde a máquina a vapor, passando pelas esteiras fordistas até as aberrações mais recentes do universo empregatício (informalização, uberização, pejotização, dessindicalização); para quem recorde um mundo pré-neoliberal, há nessa trajetória anacronismos impróprios a uma narrativa linear da História.

Nesses sismos da tecnificação, força-se uma reorganização compensatória das massas, uma sopesagem economicista que se verifica a longo prazo, mas de um cinismo procedural que mata o "amor por princípio" do terceto positivo. A culpa da destituição é internalizada pessoalmente pelo sujeito, que acredita ser sua inadaptação aos novos movimentos do mercado uma falha do próprio caráter. Nariz caído e orelhas em pé para os discursos de autoajuda das escolas do empreendedorismo meritocrático, tentativas de relativização de um ideário produtivista pela promessa de mobilidade social — que é isso senão o tipo marxiano de ideologia?

Uma realidade crescentemente marcada pela individualização dos próprios utensílios cotidianos, assinalara Norbert Elias, e onde mesmo os instrumentos de serviço e prazer foram feudalizados, emendou Yanis Varoufakis. Isso é utopia transumanista para alguns e querela existencial para a maioria. E para saber quem somos na fila, o que sobra é ganhar pão: outro truísmo a se perder. Trabalho — que sempre dignificou o homem, enquanto o ócio de pensador não pagava; o castigo divino, fardo mundano, mais tarde a epígrafe duma ética protestante; canal de honra e libertação moral, letreiro estampado nos portões das fábricas mais otimizadas e dos operários mais eficientes: Arbeit macht frei.  

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