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segunda-feira, 23 de março de 2026

Progresso para quem?

 Durante uma quinta-feira chuvosa em meados de março, o tema de uma palestra organizada pelo Centro Acadêmico de Direito da UNESP “Prof. André Franco Montoro” chamou a atenção de Augusto, um homem taciturno e cético. O evento abordaria a precarização do trabalho, a automatização dos processos e a escala 6x1, o que deixou Augusto instigado a conhecer uma perspectiva diferente daquela em que acreditava, já que, para ele, mudanças na jornada de trabalho resultariam na desorganização da sociedade.

Ao ouvir os primeiros minutos da palestra, Augusto conteve o impulso de se levantar e ir embora. Ele, um adepto do positivismo, interpretava a sociedade de maneira estritamente racional: entendia que a ordem era estabelecida pelas leis, normas e convenções sociais e que, para alcançar um progresso constante e permanente, ela deveria ser mantida e regulada pelo Estado e demais autoridades. Entretanto, a convidada Ma. Débora de Araujo citou movimentos como o Ludismo (século XIX) — cujo objetivo era demonstrar insatisfação com as condições degradantes de trabalho por meio da quebra de máquinas — para exemplificar que sempre houve questionamentos quanto ao chamado “progresso tecnológico”. Durante a Revolução Industrial, as inovações não foram benéficas para o proletariado, mas favoreceram o lucro das empresas; atualmente, a automatização dos processos é aceita pela maior parte da população, mesmo já gerando demissões em massa e consequente expulsão da produção. Para Augusto, nada disso era motivo de preocupação: a sociedade se aproximava cada vez mais do progresso e da dominação sobre as leis da natureza. Contudo, o que realmente o afligia era a visão crítica do evento, que, em sua percepção, poderiam estimular a contestação e um possível retorno a conceitos abstratos da metafísica.

Além disso, Matheus Riconatti, coordenador do Movimento Vida Além do Trabalho, acentuou os malefícios desse avanço tecnológico. Para ele, esse “progresso” gera o controle dos trabalhadores pela automação, tornando-os cada vez mais esgotados — devido ao tempo reduzido para metas cada vez mais elevadas — e dependentes das máquinas, quase como se fossem uma extensão delas. Mesmo diante da exposição e discussão desses fatos, Augusto não os enxerga como algo concreto, mas como meras observações, facilmente anuláveis quando comparadas ao lucro e às descobertas científicas possibilitadas pela tecnologia. O positivista, tão focado em seguir adiante, não percebe as contradições do capitalismo contemporâneo: principalmente em países emergentes, empregos de baixa qualificação são substituídos pela automação, enquanto surgem postos voltados ao seu controle, destinados apenas a trabalhadores altamente qualificados. Desse modo, a noção de progresso cultuada pelo positivismo se esvazia à medida que o trabalhador se torna cada vez mais refém de sua própria criação, ao mesmo tempo em que se esgota física e mentalmente em um sistema que não visa a nada além do lucro dos grandes empresários.

Ao final da palestra, Augusto deixou o auditório com a mesma convicção com que entrou, ao menos, era isso que tentava sustentar. No entanto, algo havia se deslocado silenciosamente: a incômoda percepção de que o progresso que tanto defendia talvez não fosse tão linear quanto supunha. Pela primeira vez, a ordem que lhe parecia tão sólida revelou pequenos questionamentos e, embora ele se recusasse a admiti-los, eles já não poderiam ser ignorados.


Laura Falvo Lima - Direito Matutino

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