Durante uma quinta-feira chuvosa em meados de março, o tema de uma palestra organizada pelo Centro Acadêmico de Direito da UNESP “Prof. André Franco Montoro” chamou a atenção de Augusto, um homem taciturno e cético. O evento abordaria a precarização do trabalho, a automatização dos processos e a escala 6x1, o que deixou Augusto instigado a conhecer uma perspectiva diferente daquela em que acreditava, já que, para ele, mudanças na jornada de trabalho resultariam na desorganização da sociedade.
Ao ouvir os primeiros minutos da
palestra, Augusto conteve o impulso de se levantar e ir embora. Ele, um adepto
do positivismo, interpretava a sociedade de maneira estritamente racional:
entendia que a ordem era estabelecida pelas leis, normas e convenções sociais e
que, para alcançar um progresso constante e permanente, ela deveria ser mantida
e regulada pelo Estado e demais autoridades. Entretanto, a convidada Ma. Débora
de Araujo citou movimentos como o Ludismo (século XIX) — cujo objetivo era
demonstrar insatisfação com as condições degradantes de trabalho por meio da
quebra de máquinas — para exemplificar que sempre houve questionamentos quanto
ao chamado “progresso tecnológico”. Durante a Revolução Industrial, as
inovações não foram benéficas para o proletariado, mas favoreceram o lucro das
empresas; atualmente, a automatização dos processos é aceita pela maior parte
da população, mesmo já gerando demissões em massa e consequente expulsão da
produção. Para Augusto, nada disso era motivo de preocupação: a sociedade se
aproximava cada vez mais do progresso e da dominação sobre as leis da natureza.
Contudo, o que realmente o afligia era a visão crítica do evento, que, em sua
percepção, poderiam estimular a contestação e um possível retorno a conceitos
abstratos da metafísica.
Além disso, Matheus Riconatti,
coordenador do Movimento Vida Além do Trabalho, acentuou os malefícios desse
avanço tecnológico. Para ele, esse “progresso” gera o controle dos
trabalhadores pela automação, tornando-os cada vez mais esgotados — devido ao tempo
reduzido para metas cada vez mais elevadas — e dependentes das máquinas, quase
como se fossem uma extensão delas. Mesmo diante da exposição e discussão desses
fatos, Augusto não os enxerga como algo concreto, mas como meras observações,
facilmente anuláveis quando comparadas ao lucro e às descobertas científicas
possibilitadas pela tecnologia. O positivista, tão focado em seguir adiante,
não percebe as contradições do capitalismo contemporâneo: principalmente em
países emergentes, empregos de baixa qualificação são substituídos pela
automação, enquanto surgem postos voltados ao seu controle, destinados apenas a
trabalhadores altamente qualificados. Desse modo, a noção de progresso cultuada
pelo positivismo se esvazia à medida que o trabalhador se torna cada vez mais
refém de sua própria criação, ao mesmo tempo em que se esgota física e mentalmente
em um sistema que não visa a nada além do lucro dos grandes empresários.
Ao final da palestra, Augusto
deixou o auditório com a mesma convicção com que entrou, ao menos, era
isso que tentava sustentar. No entanto, algo havia se deslocado
silenciosamente: a incômoda percepção de que o progresso que tanto defendia
talvez não fosse tão linear quanto supunha. Pela primeira vez, a ordem que lhe
parecia tão sólida revelou pequenos questionamentos e, embora ele se
recusasse a admiti-los, eles já não poderiam ser ignorados.
Laura Falvo Lima - Direito Matutino
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