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sábado, 9 de maio de 2026

Sofrimento no presente para Glória no futuro

 Dona Maria era a primeira a chegar na missa das seis. Seus joelhos já estavam gastos, mas ela sentia um orgulho silencioso naquela dor. Para ela, cada sofrimento era um depósito que fazia em sua conta no céu.

Naquela semana, a situação estava difícil. O preço do gás tinha subido tanto que ela estava cozinhando no álcool, e a goteira sobre sua cama ganhava o ritmo de um relógio quebrado. Mas, enquanto o padre falava sobre a beleza do sacrifício e como os "últimos seriam os primeiros", Dona Maria sorria. Ela achava um luxo sofrer. Acreditava fielmente que, quanto mais vazia estivesse sua barriga na terra, mais farto seria o banquete ao lado dos anjos.

— É a minha cruz, meu filho — dizia ela ao neto, que tentava convencê-la a entrar com uma ação contra o antigo patrão, que a dispensara sem pagar um tostão de indenização após vinte anos de faxina.

— Mas vó, o Direito existe para isso! O homem é rico, ele ficou com o que era seu! — o rapaz insistia, apontando para as contas de luz vencidas sobre a mesa.

Dona Maria balançava a cabeça, num gesto de santa paciência.

— Deixa o doutor pra lá. O dinheiro dele é pó. Eu não quero brigar por coisas desse mundo. Se eu sofrer aqui com humildade, Deus me dará a coroa de glória. Justiça de homem a gente não pede, a gente suporta.

Ela vivia flutuando. Para Dona Maria, o trabalho duro era uma provação para testar sua fé, nunca uma forma de exploração.

Certo dia, ao sair da igreja, Dona Maria viu um grupo de operários da fábrica vizinha parados no portão. Eles gritavam, seguravam faixas, exigiam o que era justo. Um deles, suado, tentou lhe entregar um panfleto sobre direitos trabalhistas.

Dona Maria desviou o olhar, apertando o terço contra o peito.

— Que gente cheia de ódio! Não sabem que tudo é vontade de Deus? Querem mudar a ordem das coisas com as próprias mãos... que falta de espírito!

Dona Maria era tudo que o sistema ama. Era uma mulher que não se revoltava, porque acreditava que o chicote que a fere hoje é a mesma mão que a abençoará amanhã.


Mariana Moraes Lobato Rodrigues, do 1º ano de Direito Matutino

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