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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Conservadorismo reacionário e mudança social: as metamorfoses do positivismo na contemporaneidade

         A partir do século XX, se intensificaram as lutas pela ampliação dos direitos sociais. Grupos que até então eram marginalizados ou diretamente excluídos da sociedade, como as mulheres e as pessoas LGBT+, foram progressivamente ampliando sua presença na vida social, conquistando espaços que até então eram inalcançáveis. Contudo, é evidente que parte considerável da sociedade ainda se opõe a esses avanços: de acordo com a pesquisa Índice de Conservadorismo Brasileiro do instituto Ipsos-Ipec de 2025, por exemplo, cerca de 93% da população brasileira é considerada de grau alto ou médio de conservadorismo.

        Tal cenário não se dá no vácuo; é, porém, uma junção de fatores sociais, culturais e históricos, em que um dos contribuidores é o positivismo. Embora esse ideário já seja ultrapassado academicamente, a maneira pela qual Comte entende que se deve olhar a sociedade e suas problemáticas se assemelha à visão contemporânea de diversos setores da população, sobretudo no campo conservador – portanto, estudar o positivismo é compreender uma das fontes desse pensamento.

       A princípio, uma das bases do pensamento positivista é a noção de que, para que haja o “progresso” da sociedade humana, uma certa “ordem” se faz necessária. Tal ordem deve se assentar em alguns elementos considerados invariáveis por Comte: a moral, a família, as normas etc. Quando há a quebra ou o distanciamento da sociedade em relação a esses elementos estáticos, caminha-se para a “desordem”, ameaçando a estabilidade e o desenvolvimento da coletividade.

    Semelhante pensamento ressoa nos movimentos conservadores reacionários contemporâneos, que compartilham a visão de que se vive um período de “crise de valores”, em que a família, a tradição e a cultura estão ameaçadas pelas novas “ideologias radicais” – a chamada “cultura woke”, ou o “marxismo cultural”, cujos maiores expoentes são a Escola de Frankfurt. Quem supostamente propaga esse radicalismo busca destruir as bases socioculturais do “Ocidente”, violando a família tradicional cristã e os valores morais até então estabelecidos. Como exemplo, é imprescindível citar o governo de Jair Bolsonaro, a eleição de Donald Trump em 2024 e o crescimento de grupos como a AfD, na Alemanha; todos esses movimentos políticos ecoam, cada um com as suas formas, o autoritarismo como resposta à ameaça dessa “crise”.

     Essa perspectiva da atualidade conversa diretamente com aquilo que Comte já chamava de “desordem”, rompendo com os elementos estáticos da sociedade, o que inviabiliza o pleno estabelecimento de uma ordem coesa e próspera. No entanto, essa ordem não é inclusiva, pois ela serve para privilegiar o sujeito branco, cristão e heteronormativo, reforçando a dominação daqueles grupos marginalizados. Grada Kilomba, em Memórias da plantação, questiona exatamente esse discurso: os sujeitos brancos privilegiados não são os únicos que têm lugar de fala.

Leonardo Vaz Samogim, 1º ano de Direito - Matutino

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