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sábado, 21 de março de 2026

O Relógio de Vidro: Entre a Ordem e o Algoritmo

O Relógio de Vidro: Entre a Ordem e o Algoritmo

Sentado na última fileira do auditório do CADir, o Positivista ajusta os óculos. Ele observa, com um misto de fascínio e preocupação, o debate sobre a precarização e a escala 6x1. Para ele, a sociedade é um organismo que deveria operar em harmonia; contudo, o que ouve na palestra soa como uma patologia social. "Se a tecnologia avançou", ele sussurra, "a norma deveria ser o lubrificante dessa engrenagem, não a sua areia".

O palestrante menciona o movimento VAT (Vida Além do Trabalho) e a recente decisão do STF na ADO 73, que exige proteção contra a automação. O Positivista anotaria em seu caderno: "A lei é o fato social que organiza o progresso". Ele veria na automação não um inimigo ludista, mas uma ferramenta de eficiência que, por erro de cálculo legislativo, está sendo usada para transformar o homem em mera extensão da máquina — um retrocesso ao século XIX que fere a lógica da evolução social.

É aqui que o pensamento de C. Wright Mills, em sua Imaginação Sociológica, ancora-se à realidade concreta. O Positivista, ao ouvir sobre o "burnout" de um atendente substituído pelo autoatendimento, perceberia que o que parece um "problema pessoal" daquele trabalhador desempregado é, na verdade, uma "questão pública" da estrutura social. Mills ensina que não podemos entender a vida do indivíduo sem entender a história da sociedade.

A situação concreta é nítida: enquanto a tecnologia promete a "Teoria da Compensação", a realidade entrega a escala 6x1. O Positivista diria que o Direito do Trabalho falha ao não codificar o progresso técnico em tempo livre. Para ele, a justiça não é um conceito abstrato, mas a manutenção da ordem: se a produtividade explode com a IA, é biologicamente ilógico e socialmente desordenado que a jornada de trabalho permaneça estática.

Ao fim, ele fecharia o caderno com uma conclusão seca, porém certeira: a precarização atual é uma disfunção sistêmica. Se o Direito não absorver a evolução das IAs para proteger o humano, o "Estado de Direito" será apenas um simulacro servindo à supremacia do capital, e não à ordem necessária para o verdadeiro progresso da humanidade.


Pedro Dutra de Melo - Matutino 

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