Na noite da última quinta-feira, um
amigo me convidou para uma palestra. Apenas ao chegar, descobri do que se
tratava. Acontece que o movimento estudantil da faculdade de minha cidade
estava doutrinando os estudantes acerca do combate à “abominável” escala 6x1.
Essas crianças não sabem o que falam, praticam desserviços a essa cidade.
Arrisco-me a dizer que esses discursos comunistas são os responsáveis pela
decadência das indústrias da cidade. Elas simplesmente não conseguem encontrar
mais mão de obra, pois os proletas estão enfeitiçados por essas ideias
comunistas; ninguém mais quer trabalhar!
Sobre a
palestra, num primeiro momento, estavam comentando sobre a questão das IAs e
explicando sobre a queda nas vagas de empregos que elas vão gerar. Até esse
ponto, concordei quase que plenamente — também abomino esses malditos robôs —,
mas o que seguiu esse comentário foi asqueroso. Passaram a explicar a
importância de assegurar o emprego de pessoas que tiveram seus trabalhos
“automatizados”. Como fariam isso? Você pode estar se perguntando. A resposta:
aumentando os impostos dos empresários! Isso é um ultraje. Como é possível que
os bilionários sejam obrigados a pagar? Simplesmente porque encontraram uma
forma de se esquivar dos trabalhadores preguiçosos criados pela esquerda? Dessa
forma, ainda mais dinheiro será desviado para fora da economia nacional, para
alguma indústria chinesa! Isso é inadmissível.
Depois
disso, já irado, mal consegui acompanhar o resto da palestra. No entanto, o que
recordo me desperta ainda mais cólera. Passaram, então, a explicar como o
trabalho em escala 6x1 é “desumano”. Gostaria de saber de onde tiram esses
dados. Todos os meus conhecidos trabalharam 6x1 e viveram até os 50 anos (e
muito bem, eu diria). Atacam de todas as formas a boa e velha meritocracia,
como se existisse outra força capaz de trazer o sucesso além do trabalho duro e
incessante. Mal sabem eles que não há pobreza no mundo que resista a 16 horas
de trabalho! No entanto, ao invés de trabalhar de verdade, só se preocupam com
baboseiras como saúde mental e burnout.
Desse modo,
sinceramente, estou desacreditado com o futuro desse país. Com esse pensamento
preguiçoso, não sei de que maneira esses jovens vão conseguir continuar o
progresso que minha geração buscou com tanto afinco. Ficam inventando doenças e
transtornos simplesmente para não precisarem trabalhar. Não sei até que ponto
irão conseguir sustentar essa maluquice. Por sorte, diante dos meus pesados 53
anos de idade, não vou ficar por aqui por muito tempo para ver qual o resultado
desse caos.
João Pedro Hernandes dos Santos | Direito Noturno
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