Total de visualizações de página (desde out/2009)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

A pseudociência instrumentalizada para a tentativa de legitimação de discursos racistas

A canção Maria, Maria - do cantor Milton Nascimento- faz uma homenagem à resiliência inerente à mulher, sobretudo à afrodescendente, a qual é vítima de diversos tipos de violência - simbólica, física, sexual e racial. Diante desse cenário, a música apresenta a afrodescendente como sujeito de resistência ao romper com o paradigma de determinismo patológico de cunho positivista - evidenciado pela sexualização dos corpos - e de submissão, a qual é amplamente retratado na teledramaturgia por meio da atuação do elenco negro majoritariamente em papéis de sulbalternidade, de pobreza e de marginalidade. Dessa forma, é explícita a tentativa de legitimação de discursos racistas pela banalização da realidade alheia e de suposta justificativa científica para a prevalência de tal postura.

  Sob essa óptica, infortunadamente, verifica-se que a exclusão da população negra perpetuou-se de maneira implícita por intermédio da estrutura social, a qual busca se legitimar por via da pseudociência que objetiva materializar o racismo e justificá-lo.  Nesse contexto,  a escritora portuguesa Grada Kilomba ressalta em "Memórias da plantação: episódios do racismo no cotidiano" o julgamento sofrido por ser negra e os obstáculos impostos na tentativa de acesso à universidade, além da dificuldade de aceitação de suas produções acadêmicas, em razão do questionamento quanto à veracidade e ao valor das conclusões de suas pesquisas. Ou seja, o sistema institucionalizado positivista almeja o estabelecimento do que é ciência por perspectivas elitistas alegando a detenção exclusiva da verdade de um modo dito objetivo, que, no entanto, acaba por subjetivamente desconsiderar visões da alteridade. Nesse aspecto, a individualidade restringe o sujeito da elite ao seu próprio plano e o que é exterior é visto como exceção distante da verdade concreta "universal". Desse modo, o panorama, tanto nacional quanto internacional, demonstra contradições devastadoras de perpetuação do racismo, visto que os diálogos fomentadores do fortalecimento do protagonismo afrodescente têm se limitado ao âmbito teórico com ínfima aplicabilidade, em razão da mentalidade arraigada “justificada por argumentos científicos”.

Ademais, esse cenário degradante faz-se presente na sociedade brasileira desde os primórdios do estabelecimento da escravidão no país e, preocupantemente, ainda é existente. Nesse viés, a abolição da escravidão eximiu-se do amparo, de fato, aos ex-escravizados, os quais, em sua maioria,  deixaram de possuir moradia e oportunidade de emprego, o que os marginalizou ao impelir a habitação nas periferias.   Nesse sentido, tal mazela foi agravada com a exortação de ideais racistas e discriminatórios relacionados a um suposto cientificismo defendido por Raimundo Nina Rodrigues, o qual pressupunha a necessidade de miscigenação para o “branqueamento” da população brasileira devido à perspectiva de “atraso e de inferioridade” da população afrodescendente. A partir dessa lógica distópica, foi promovido o discurso de “branquitude” e houve o desenvolvimento de aparatos institucionais para a busca por concretização de exterioridade dos negros do processo de ascensão social. Logo, a mentalidade egocêntrica das elites viabilizou uma tentativa de legitimação do racismo mediante uma pseudociência, a qual ambicionou subjugar as populações preta e parda.

Portanto, a estrutura social brasileira foi fundamentada em ideais racistas e excludentes que instituíram violência simbólica e opressão aos afrodescendentes, já que o sistema vigente desestabiliza as oportunidades dessa população de superação da marginalização social sistemática imposta pelo processo histórico nacional alicerçado na pseudociência. Nessa lógica, depreende-se que o “discurso de branquitude” continua existente, tal como é possível verificar com a negação do conhecimento empírico de afrodescendentes e do prevalecimento da estruturação histórica de sua discriminação. Assim, torna-se imperioso conceder voz e reparação à população negra com o fito de propiciar resistência e justiça social tal como Milton Nascimento projeta em suas criações musicais.


Nenhum comentário:

Postar um comentário