"Eu não abro não
Você vem da pagodeira
Vai curar sua canseira
Bem longe do meu colchão"
A música em destaque, cuja melodia se assemelha com as cantigas populares infantis e que foi vocalizada pela dupla de irmãos Sandy & Junior em 1992, tem sua letra guiada por um enredo que narra as desventuras vividas por um casal anônimo. Ao se analisar seus versos é possível utilizar os elementos empregados pela canção como uma maneira lúdica de se explicar os principais conceitos da ciência social weberiana.
Segundo Weber, o objetivo da sociologia consiste em analisar as atitudes concretas dos indivíduos em sociedade a favor de uma compreensão do sentido subjetivo que estes vinculam ao seu próprio proceder. Sua meta é, em outras palavras, a de destrinchar os fundamentos que justificam tal compostura, tendo como objeto o conceito de ação social, sendo o indivíduo que a realizou — irrelevante por si próprio — as lentes que o cientista veste para a produção do conhecimento sociológico. Define-se como ação social, no emprego de Weber, toda conduta humana cuja finalidade atravessa a condição situacional de outra pessoa e que se orienta de acordo com ela. No cenário da melodia, a principal ação social se refere ao ato de abrir ou não a porta, sendo o sujeito capaz de realizá-la — e que detém a autoridade concreta naquela situação material — representado pela figura da esposa. Há também outras ações que são realizadas ao longo da letra, havendo cada uma finalidade distinta na relação empregada, como produtos vinculados à ação principal. Ou seja, para ambos os personagens (marido e esposa), o conflito da canção abre margem para a exposição de diferentes "sentidos subjetivos" (na linguagem weberiana) decorrentes da permissão ou negação da entrada do homem em casa.
O ser humano, enquanto indivíduo em sociedade, é tanto agente quanto paciente de vontades exteriores à sua condição pessoal. Enquanto sujeito de realização de seus desejos, ele é capaz de reunir os recursos necessários e os meios adequados para a efetuação do que lhe é conveniente, quer aja respeitando as normas sociais ou não. Todavia, por pertencer a um conjunto de indivíduos sob um mesmo pretexto (espacial, racial, socioeconômico, etc.), suas atitudes — mesmo aquelas que visam a finalidades egoístas e que atinjam unicamente o sujeito que a realizou — interferem, sob diferentes graus de causalidade, em algum elemento de alguma esfera de alguma vida de outrem. Para isso não é necessário um forte vínculo causal com outra pessoa, mas apenas, conforme descrito pela música, ter ido ao forró. Tanto a atitude de isolar o marido para fora de casa quanto a ida dele à ocasião servem como fundamento para a perturbação dos envolvidos de modo a abalar suas estruturas emocionais.
"Oh! Mariquinha, não levei você comigo
Tive medo do perigo, desse tal de Ricardão
Fui no forró, mas agora tô de volta
Venha já abrir a porta
Que eu não durmo fora não"
Vale ressaltar a oração destacada nesse trecho. Como dito anteriormente, para Weber há um sentido subjetivo em toda ação humana. A compreensão desse sentido, quando está voltado para as relações interpessoais, levará à formulação de uma ciência social. O fato do esposo não levar Mariquinha consigo ao forró demonstra um receio de que ela possa o trocar com um sujeito externo (Ricardão), que retém, ao menos para a subjetividade do marido, o potencial de agir contra seu benefício. Nesse caso, trata-se de uma ação social subjetivamente carregada por caráter idealmente emocional, conforme a teoria desenvolvida por Weber dos "tipos ideais", podendo esconder temeridades passionais como ciúmes e vergonha social ou, por outro lado, racionais, sendo estas relacionadas à ideia de uma escusa para que ele pudesse desfrutar de uma noite longe dos olhos de sua mulher. A compreensão da verdadeira matiz do comportamento do esposo aproximará o cientista não só de um entendimento das ações dos envolvidos como também da própria relação que entre eles se estabelece.
"Eu já falei que não vou abrir a porta
E peço que você volte sem fazer reclamação
Se eu abrir, já sei o que vou fazer
Você vai ter que gemer
É no pau-de-macarrão"
Por fim, resta avaliar os nuances encontrados na ameaça empregada por Mariquinha em interferir, na criação de um novo ato social (bater no marido), uma forma de exercer sua autoridade. Diz-se em "autoridade" por considerar Mariquinha a verdadeira pessoa capaz de canalizar e concretizar sua vontade na relação social. Afinal, é a esposa quem decide se vai ou não abrir a porta, matiz de todo o conflito estudado. Weber considera o poder como "toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação pessoal, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade" (Economia e Sociedade, p.33). Portanto, a autoridade nada mais é do que uma representação pela qual uma ação social se orienta, sob o pretexto de um poder sendo exercido por algum agente em vigor. Inclusive, alinhando tal ideia à ciência jurídica, é possível dizer que, segundo Kelsen, toda norma carrega em si imperatividade e tem, por conseguinte, autoridade o bastante para orientar as ações dos indivíduos para o cumprimento do comando tipificado.
Fica comprovada a capacidade de Sandy & Junior de exemplificar em linguagem artística os conceitos fundamentais da sociologia compreensiva weberiana. A relação marido-mulher no cenário narrativo de "Abre a porta Mariquinha" indica a tridimensionalidade que perpassa as ações sociais, ocultando motivações nem sempre cognoscíveis mas passivas de serem compreendidas ainda que de maneira imperfeita e hipotética, conforme as palavras do próprio Weber.
Gabriel Camilo de Sousa,
turma XLIII, matutino.
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