Black Mirror e a nova “física social”: o positivismo na era dos algoritmos
E se a sociedade pudesse ser medida, prevista e até controlada com base em dados? Essa ideia pode parecer futurista, mas, na verdade, ela já foi defendida no século XIX por Auguste Comte, criador do positivismo. Para ele, a sociologia deveria funcionar como uma “física social”, capaz de identificar leis que explicassem o comportamento humano e, assim, organizar a sociedade de forma racional.
Agora, pense na série Black Mirror.
Conhecida por explorar os impactos da tecnologia na vida humana, a série apresenta cenários que, muitas vezes, parecem exagerados. Mas, em episódios como “Nosedive”, vemos algo extremamente próximo da realidade: uma sociedade em que cada interação social é avaliada por notas, gerando um sistema que define status, oportunidades e até relações pessoais.
No universo de Black Mirror, tudo é quantificado. Emoções, comportamentos e relações humanas são transformados em números. Isso dialoga diretamente com o ideal positivista de transformar a sociedade em algo mensurável e previsível. Afinal, se conseguimos medir, conseguimos controlar.
Em “Nosedive”, as notas não são apenas registros objetivos,elas moldam comportamentos. As pessoas deixam de agir espontaneamente para agir estrategicamente, buscando aprovação constante. Ou seja, o sistema não apenas observa a sociedade, ele interfere nela. Isso revela um limite importante da ideia positivista: ao tentar transformar o social em algo puramente objetivo, ignoram-se aspectos fundamentais como subjetividade, emoções e liberdade.
quem criou esse sistema? A partir de qual lugar ele foi pensado?
Essa pergunta é essencial. Tanto na série quanto na realidade, os sistemas que organizam a vida social não surgem do nada. Eles são construídos por pessoas inseridas em contextos específicos, com interesses, valores e objetivos próprios. Assim, aquilo que parece uma verdade universal pode, na verdade, refletir apenas uma perspectiva particular.
No mundo real, isso fica evidente nas redes sociais. Assim como em Black Mirror, algoritmos analisam nossos comportamentos, atribuem relevância ao que fazemos e influenciam o que vemos. A promessa de uma análise “baseada em dados” muitas vezes esconde o fato de que esses dados são utilizados com finalidades específicas, principalmente econômicas.
Dessa forma, a ideia de uma sociologia como “física social” precisa ser revista. Não se trata apenas de entender a sociedade como um conjunto de padrões, mas de reconhecer que esses padrões são interpretados a partir de determinados lugares.
Black Mirror, então, não é apenas uma ficção distópica. É um alerta.
Ele nos mostra que o sonho positivista de prever e organizar a sociedade pode facilmente se transformar em um sistema de controle, onde a objetividade aparente esconde relações de poder.
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