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segunda-feira, 27 de agosto de 2012



"De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co'os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:
"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".
Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!
Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.
Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!
Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:
"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"
Durkheim, em sua obra A Divisão Social do Trabalho, tem como uma das temáticas a maneira como as sociedades se organizam, o que influencia o modo de percepção acerca do crime.
O sociólogo considera que diferentes graus de evolução de uma sociedade acarretam em tipos diferentes de consenso, necessários para a coesão social. Assim, a solidariedade mecânica seria o consenso produzido em sociedades tidas como arcaicas e a solidariedade orgânica, em sociedades modernas.
Nas sociedades de solidariedade mecânica há um maior sentimento de pertencimento ao grupo, isso porque os indivíduos são e sentem-se semelhantes uns aos outros, não havendo divisão social do trabalho, exceto entre homens e mulheres. Este sentimento oriundo do compartilhamento de valores semelhantes, senão iguais, e de crenças sociais também semelhantes acentua a consciência coletiva que, por sua vez, acarreta no modo como o crime é encarado. Como a coesão social está baseada nos costumes, na tradição e nos valores, e a consciência coletiva é demasiado ativa, o desvio comportamental e o crime não são tolerados e têm-se os mecanismos de coerção exercidos de maneira imediata, violenta e punitiva.
Já nas sociedades de solidariedade mecânica, o sentimento de pertencimento é extirpado devido principalmente ao surgimento da divisão social do trabalho, gerando indivíduos socialmente diferentes, os quais não mais compartilham os mesmos valores e crenças sociais. Além disso, tal divisão aumenta o grau de interdependência entre eles. Dessa forma, para que a coesão seja mantida é necessário estabelecer direitos e deveres, contidos nas normas jurídicas.
Mas será que é possível manter essa divisão entre sociedades de solidariedade mecânica e sociedades de solidariedade orgânica? Nota-se que há muitos resquícios da consciência coletiva e, portanto, da noção como o crime deve ser punido na sociedade brasileira atual, que seria considerada por Durkheim como uma sociedade de solidariedade orgânica. Isso ocorre porque o aperfeiçoamento moral não se dá para todos, seja por falta de oportunidade seja por influência externa – como da religião.
O fato é que há episódios em que são facilmente notadas a presença da consciência coletiva e da forma das sociedades primitivas em punir “desvios de condutas”, considerados uma ameaça ao equilíbrio social. Um exemplo é o ocorrido com a estudante de direito Geisy Arruda que foi hostilizada por cerca de 600 colegas por usar um minivestido, este tomado como o desvio de conduta. Isso demonstra que ainda hoje a consciência coletiva se faz presente e que a cólera coletiva acaba gerando tantas outras Genis de Chico. Portanto, conclui-se que por mais que as sociedades evoluam, muitos indivíduos ainda consideram que os mecanismos de coerção para se combater o crime devem ser punitivos e violentos, já que a simples restituição não é suficiente para eles. 

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