A Constituição Federal,
de 1988, estabelece no parágrafo 3º, do artigo 226, que “para efeito da
proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como
entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”. Quando
interpretar esse fragmento, fora do contexto, conclui-se que a legislação
brasileira não aceita a união e o casamento homoafetivo.
Todavia, deve-se interpretar
o texto constitucional levando em consideração o todo, ou seja, considerar-se-á
não só uma parte, mas sim todas as normas positivadas e os
princípios que estabelecem os pilares do ordenamento jurídico.
Baseando-se nisso, em
2011, o Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, considerou constitucional a
união afeita entre casais do mesmo sexo, o que garantiu diversos direitos, que casais heteronormativos já possuíam. Porém para conseguir uma união normalmente era
necessário uma ordem judicial, isso até 2013, quando o Conselho Nacional de
Justiça aprovou uma portaria que obriga os cartórios oficializar essas uniões.
Com a aquisição desse direito
é provável que ocorra uma diminuição do número de processos visto que não será
mais necessária uma ordem judicial para autorizar o casamento ou para
reconhecer a união estável. Outras questões judiciais como pensões alimentícias,
adoções, divisão de bens, entre outras ficam facilitadas, pois os magistrados
já terão o parâmetro para suas decisões, que são as normas já existentes
(casais heteronormativos e homoafetivos passam a ter os mesmos direitos, então suas
relações jurídicas devem ter por base as mesmas leis). Dando agilidade aos
processos e segurança jurídica aos envolvidos.
Para considerar legal
essas decisões podemos invocar a concepção sociológica de constituição, que tem
em Ferdinand Lassalle seu principal representante. Caso os textos escritos não condizem
com a realidade, eles podem perder seus efeitos, visto que a Constituição real é
a soma dos fatores reais de poder que regem uma determinada nação. Existem nas
sociedades homossexuais, que lutam para terem seus direitos reconhecidos e
contam com apoio de parcelas da população, formando um fator que influencia no
social. Então a concepção apresentada pode ser utilizada para considerar as
decisões favoráveis, a esses grupos, como constitucionais.
Surgem questionamentos
sobre as ações dos judiciários (nesse caso do STF) se seria possível eles
tomarem essas decisões, já que seria competência do legislativo. E ao usurparem
essas funções estariam as judicializando e ferindo a democracia por não serem
representantes eleitos.
Apesar de o ideal ser
essas decisões serem regulamentadas pelo legislativo não necessariamente o
judiciário está sendo autoritário. Eles não estão modificando ou criando novas
normas, estão as interpretando e as aplicando de acordo com os princípios
básicos estabelecidos de forma democrática pelos legisladores. Essas mudanças
preservam a democracia e não a atingem.
Vale lembrar também que
as normas brasileiras aceitam que existam regulamentações que não sejam feitas
pelos legisladores, um dos principais exemplos são as Agências Reguladoras que
podem atuar em certas questões.
De fato a
judicialização não é o melhor caminho para a solução de controvérsias e a
aquisição de direitos, mas apesar disso não significa que ela seja ilegal.
Devemos considerar que esse fenômeno não altera os princípios da constituição e
sim adapta as normas a eles e as aplicam. No caso da constitucionalização do
casamento homoafetivo houve um grande avanço que apesar de não solucionar todos
os problemas reconheceu a existência e a importância desses indivíduos, dando a
eles direitos e segurança jurídica. Concluindo o que aconteceu foi uma adaptação
da norma que mesmo sem ser feita pelo legislador não ofendeu a constituição e a
democracia.
João Pedro Costa
Moreira – 1º Ano Direito Noturno
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