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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Alimento dos Homens

“Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.” É dessa maneira que Bertolt Brecht sintetiza sua hipótese que garante características humanas aos tubarões. Na construção do alemão, tubarões se tornam amigáveis aos peixes menores, lhes dão educação, comida e moradia para que, em troca, estes trabalhem e um dia se tornem alimento para os peixes maiores. Seria construída uma cultura de culto aos grandes dentes desses animais, os peixinhos que foram obedientes, nadaram para a barriga dos tubarões, seriam lembrados e serviriam de exemplo para toda a sociedade, a religião submarina exaltaria tal ato, outros peixes bons ensinariam a boa conduta para os mais novos. Isto é, a civilização do mar convergiria para a satisfação dos tubarões por meio de uma enorme força coercitiva, a mesma que atua na sociedade em que os homens são homens, exposta por Durkheim em seu estudo sobre os “fatos sociais”, ou seja, a maneira de pensar e agir exteriores ao indivíduo, tal como ocorre com os peixinhos de Brecht expostos à doutrinação dos tubarões.  
Muitas vezes, em cidades repletas de anúncios com os dizeres “Customize!”, “Dê a sua cara!” e “Seja livre”, é difícil destoar da massa, é difícil trilhar um caminho novo sem olhares de rejeição, não há espaço para a prática desses anúncios, não há espaço nem mesmo para a originalidade de novos anúncios. Gerações inteiras fazem o mesmo percurso que seus avós e pais fizeram, a faculdade deixou de ser uma opção para os jovens, ela é necessária, o diploma define o quanto vale cada um, e se vale. O empreendedorismo, a inovação, aquela mesma elogiada por Descartes, se encontra desfalcada em uma cultura como a brasileira atual, os riscos, até mesmo as críticas, enquanto manifestação da individualidade, são tomadas como ameaças à ordem social.
Mas qual seria a grande consequência à ordem social que tanto é temida? Novamente, é Durkheim quem nos apresenta outro conceito, o de “anomia”, ou seja, fratura as normas, em que uma sociedade perde o norte a se guiar, uma crise de valores, a qual garante tanto temor às organizações mais conservadoras. É a responsável pelas grandes mudanças comportamentais no decorrer das Eras, em geral provocada pela falta de coesão social e temporal, isto é, voltando à alegoria de Brecht, se alimentados com uma comida que já não lhes agrada, os peixinhos teriam sua fidelidade aos tubarões enfraquecidos, a coesão nos mares estaria comprometida. Em síntese, a busca da individualidade notada na atualidade é uma resposta à inadequação do tempo, traduzida na incapacidade de concretização dessa individualidade, os próprios homens, portanto, devem alterar sua alimentação para reestruturar uma nova ordem, ou seja, sua organização.
Felipe Cardoso Scandiuzzi - 1ª ano - Direito Matutino  



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