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domingo, 27 de março de 2022

"XLI"

 É notório que, nos últimos anos, com a facilidade para compartilhar informações, as fake news foram massivamente inseridas no nosso cotidiano. Dessa forma, contribuindo para o avanço da desinformação e alienação social, as notícias falsas fazem com que o mundo se vê necessitado a superar o que foi denominado por Francis Bacon de “ídolos da tribo”.  

Segundo esse conceito, os sentidos podem trazer uma falsa asserção sobre a realidade, ao basear a verdade nas medidas humanas. Nesse viés, decretar algo como verdadeiro de acordo com a experiência de um ou outro é o que permite a expansão das fake news nos dias atuais. Assim, não apenas em relação a educação, mas todos os setores sociais são prejudicados, sendo, principalmente, a da saúde.  

Isso se deve, pois, em meio a pandemia da Covid-19, as notícias falsas sobre a vacinação colocaram medo naqueles que, por falta de meios, ou por escolha, basearam-se nas vertentes do senso comum. Os ídolos da tribo, do filósofo Bacon, aqui se encaixam em razão dessas informações equivocadas terem fonte da realidade limitada de cada um. Ilustra-se esse quadro por meio da afirmação de que as vacinas contra a Covid-19 não têm eficácia porque “uma pessoa foi vacinada e mesmo assim pegou o vírus”.  

Dessa forma, ao dizer, no século XVII que “O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe”, Francis Bacon justifica os problemas da desinformação, em pleno século XXI. 

sábado, 26 de março de 2022

Pensar e existir: entre sair da caverna e ser enganado

            Final do século XX: começam a surgir indícios de um período que mudará para sempre a forma com que a humanidade se relaciona com informações e conhecimento. Eis que se tem início a Terceira Revolução Industrial, também chamada de Revolução Técnico-Científica e Informacional. Vejamos seus desdobramentos já no século XXI: quantidades exorbitantes de informações são despejadas diariamente sobre os usuários da internet, os quais não conseguem filtrá-las. Surge então uma das maiores complicações advindas com o surgimento de tantas facilidades tecnológicas: as fake news. Ora, se tal complicação surge de algo tão benéfico para sociedade, isto é, a facilidade de acesso à informação, há uma salvação para não ser enganado enquanto se desfruta de tantas ferramentas? Tal questionamento é análogo a outros na busca de conhecimento ao longo da história.

                França, século XVII: um homem está diante de uma angústia contraditória. Analogamente ao processo paradoxal de desinformação por conta do acesso massivo à informação, René Descartes notou que sua ignorância se tornava cada vez mais nítida após tantos estudos durante a juventude. Entretanto, em sua obra “Discurso do Método”, surge uma saída para a crise do conhecimento: a dúvida. Após constatar que “deveria rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com o intuito de ver se, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável.”, Descartes chega em sua famosa máxima “eu penso, logo existo”. Há, portanto, uma negação dos sentidos humanos como ferramenta para alcançar o conhecimento, visto que a racionalidade seria a ferramenta necessária para tanto. Assim sendo, trazendo tal pensamento para nossa questão contemporânea, poderíamos concluir que sem a clareza da racionalidade e sob influência de noções adulteradas por sensações enganosas, as mentiras encontrariam espaço para sua livre circulação ao não serem questionadas.

                Passemos agora para o território inglês também do século XVII. Nele, o filósofo Francis Bacon também busca uma base para a ciência. Em sua obra intitulada “Novo Organum” – já nomeada com o intuito de ir contra os preceitos postulados pela obra “Organon”, de Aristóteles- o pensador moderno demonstra seu desejo por uma nova forma de se chegar ao conhecimento. Indo contra princípios medievais e da antiguidade, o filósofo objetiva uma praticidade da ciência a partir do desprezo pelas questões metafísicas. Com o chamado método empírico-indutivo, Bacon busca valorizar as experiências para se chegar à verdade, dado que são necessárias para direcionar nossa mente ao conhecimento, distanciando-nos dos ídolos, definidos pelo autor como bloqueadores da mente humana. Paralelamente com a atualidade, Bacon poderia afirmar que a manipulação humana por notícias falsas seria de responsabilidade dos ídolos da caverna, considerando que são erros relacionados a leitura e a interpretação do mundo.

                Entretanto, vale ressaltar também uma ruptura com uma visão chamada “mecanicista” do mundo. No filme “O Ponto de Mutação”, dirigido por Bernt Capra, a cientista Sonia Hoffman caracteriza como “crise de percepção” o fenômeno de enxergar o mundo e seus eventos sociais e políticos como uma mera máquina. Para ela, há uma interdependência entre os acontecimentos cotidianos que tendem a gerar os problemas sociais. Por exemplo, à luz desse pensamento, poderíamos dissecar a problemática da disseminação de falsidades como uma crise da educação, visto que, por conta da falta de escolaridade e acesso à meios confiáveis de informações, grande parte da população tende a acreditar e compartilhar fatos enganosos, de modo que um problema esteja diretamente ligado ao outro.

               Observa-se, portanto, a atemporalidade dos pensamentos citados. Surgidos com o intuito de compreender o mundo de suas respectivas épocas e melhorar a forma de se obter conhecimento, tais filosofias podem hoje ser observadas como indicadoras das causas e consequências de mazelas, sob o exemplo das fake news citadas. Seja por falta da racionalidade cartesiana, por enganações dos ídolos de Bacon ou, de acordo com Hoffman, por uma cegueira em relação a correlação de problemáticas, as fake news são um obstáculo para sairmos da caverna de Platão e atingirmos, por conseguinte, a maioridade kantiana.

Ainda que o ser humano seja Racional

 

          

Ainda quando escrevia livros num site de fanfiction, uma colega minha costumava sempre investir na ideia de que tudo devia ser analisado através de um todo, não somente por uma pequena parte. Dizia que analisava isso na própria medicina que, por ensino das faculdades, ensinavam apenas o foco físico, nunca o mental.Foi nessas que conheceu um cadeirante ainda fazendo engenharia. A história da escolha do curso era muito simples. Os pais queriam um filho engenheiro. Fim. Ele nada pôde fazer senão aceitar esse destino que se tornaria cruel.

 

Descartes diria que a razão diferencia os seres, que os humanos a têm, mas que os animais não nasceram com a mesma habilidade. Me custo a acreditar que um humano, que projeta no outro seus sonhos tenha algum tipo de racionalidade. Na minha opinião, é o mesmo que acreditar em astrologia, projetar num astro todo o fracasso de sua vida.

 

Enfim, voltando à medicina e à engenharia, o rapaz tornou-se cadeirante na terceira semana do curso, após questionar se poderia largar as exatas e investir em qualquer coisa que o agradasse. Não podia. E sem explicação alguma, deu entrada num hospital: estava impossibilitado de andar. Os médicos o analisaram parte por parte, como se ele fosse algo que tivesse alguma peça danificada e não um corpo todo.

 

Todos devemos questionar, até mesmo a dúvida que subitamente nos cerca. É por isso que o rapaz se questionava tanto daquele caminho que seguia, e na ausência dessas dúvidas os médicos não sabiam qual o problema. Quando chegou a formatura, e ele enfim pode ficar livre de toda aquela angústia, o rapaz milagrosamente voltou a caminhar, tal qual antes andava.

 

Nenhum médico compreendeu aquilo, talvez eles tivessem entendido e descoberto o problema se tivesse analisado o rapaz de uniformemente, se tivesse na faculdade ensinado que a psicológico influencia, e que o fato dele odiar aquela vida impediu consequentemente o corpo físico.


Angela Ramos - Direito Noturno (turma 39)

 

Penso logo existo e por isso uma nova visão da sociedade posso ter.

 

O filme “O ponto de Mutação”, baseado no livro de Fritjof Capra, junto a análise de O discurso do método (1637) e Novum Organum, ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza (1620), evidencia o embate entre a física moderna e o misticismo oriental, dando enfoque ao abandono do pensamento coletivo para o individualismo. Colocando em discussão e contestação o método cartesiano de René Descartes. Método este que consiste em quatro regras: evidência, análise, ordem e revisões, ordenados para buscar conhecimentos pela razão e não pela experiência. 

Descartes divide o mundo como um relógio, uma máquina, tendo uma visão mecanicista: de modo que une os problemas do mundo em um todo. Contudo tal modo não tem a percepção de que o mundo não se pode ser divido, sendo a vida e as interações parte de um único sistema, uma teia inseparável de relações; não se pode mudar apenas um fragmento para concertar o todo. De mesma maneira Bacon também divide o mundo, com a diferença de crer na regulamentação da mente por mecanismos de experiência

A diferença entre a visão mecanicista com a visão sistêmica, chega à conclusão de que não há como compreender o mundo o dividindo em partes, tampouco resolver os problemas existentes de tal maneira. Portanto se faz necessário ter uma “Nova visão da sociedade”.

De tal modo, tal ideia também se aplica ao empirismo de Bacon, visto que não se deve esperar que males aconteçam para que possamos os corrigir, como se acontece na atual política em que não se há o encorajamento a prevenção, somente a intervenção.

 


Curso: Direito

Período: Matutino

Aluno: Clara Letícia Zamparo 

 

 

 

Quem busca sempre alcança?

        A busca pelo conhecimento, pela verdade, pela felicidade, por respostas em geral é o que move e sempre moveu o desenvolvimento da sociedade. O questionar, o querer saber é a engrenagem do mundo, o que nos faz sair em busca pelo novo.  

         Com o advento de diversos dos maiores pensadores que a humanidade já viu, vieram algumas respostas juntamente com outras questões. A busca pelo verdadeiro com Descartes e Bacon vêm com uma certeza: a razão. A racionalidade tem papel central no que difere o homem do animal, o pensamento é o que os torna animais políticos e sociais.  

        A ruptura com os autores clássicos tem fundamento no desenvolvimento da ciência não pela especulação e observação somente, mas pela transformação da realidade em busca do "bem estar do homem", sendo isso possível somente com o instrumento da produção de conhecimento.  

        Em relação à isso, René Descartes coloca a dúvida, o ceticismo como ponto central pela busca do conhecimento. "Penso, logo existo" é uma de suas célebres frases, mas não tira de perspectiva o outro, externo ao indivíduo. Não ter a certeza de que o outro existe ou que qualquer coisa além da própria mente e Deus fazem parte da realidade verdadeira é ponto de partida pela busca da verdade. A própria existência é um ato de dúvida, e duvidar é necessidade inexorável a humanidade. 

        Francis Bacon, por outro lado, expõe que as antecipações da mente são base para o senso comum, o familiar leva o humano a parar de racionalizar e deixar as coisas serem datadas por verdade. Os ídolos tem papel fundamental nas falsas percepções do mundo, sendo eles por exemplo, a própria condição humana (mente produzindo interferências), a própria formação como indivíduo, as relações sociais, os sentimentos e as superstições são fontes do falso, artifícios para a enganação. Dessa forma, é perceptível que mesmo a razão tem patologias, e por vezes não é fonte de verdade.  

        Dessa forma, a busca pelo real, pelo verdadeiro, pela fonte da razão ainda está em desenvolvimento. O progresso têm diferentes dimensões em diferentes realidades, e nem sempre o moderno se faz certeiro.  

        O que nos leva a pensar até que ponto o desenvolvimento da ciência melhorou a vida humana nesse últimos 300 anos, com o advento da indústria, de tecnologias antes impensáveis, ao mesmo tempo em que trouxe pandemias e epidemias, desastres globais e naturais, a destruição da natureza em larga escala e com a perda de biomas e ecossistemas por vezes inteiros. Qual o objetivo desse desenvolvimento e onde o mesmo vai ter fim é o que faz continuarmos questionando. Ou seja, a humanidade se encontra bem longe do fim da linha, tem muito a que se perguntar e trabalhar em prol do bem comum. 


Helena Motta

Direito noturno- turma XXXIX 

sexta-feira, 25 de março de 2022

Que racionalidade é essa?

 

O método é racionalizar!
Racionaliza e tornar padrão.
Padrão até que se torne absoluto.
Absoluto até que só exista um direção.

O mundo buscou pela rapidez,
E rapidamente estávamos manipulando
A natureza, a sociedade, o homem, o pensamento.
E então tornamo-nos doentes.

Nos alimentamos de produtos racionalizados,
Consumimos até adoecer.
E então buscamos a cura para o corpo, afinal esse não pode parar.

E logo já estamos novamente consumindo.
Não há prevenção! Somos racionais,
Mas consumidos ingredientes para produzir uma bomba.
 
Juliana Cristina Barbosa Silveira  - Direito Noturno
 

quinta-feira, 24 de março de 2022

O cientificismo contemporâneo à luz do pensamento cartesiano

 Cauan Eduardo Elias Schettini

Turma XXXIX – Direito - matutino

O poeta espanhol Antonio Machado disse em sua obra “Proverbios y Cantares”: "La verdad es lo que es, y sigue siendo verdad aunque se piense al revés". Nesse sentido, o pensamento cartesiano, iniciado no século XVII, partiu do pressuposto do “cogito”, isto é, da máxima: “Penso, logo existio”. Dessa maneira, por meio da análise de si mesmo e dúvida radical de todos os objetos externos, Descartes buscou, em primeiro lugar, se desvencilhar de conhecimentos arcaicos que, em sua época, ainda estavam em voga, chamados de esotéricos, como a astrologia e a alquimia. Em segundo lugar, decidiu se afastar do arcabouço teórico grego baseado em uma falsa racionalidade, tendo em vista que se sustentava nos sentidos e não no entendimento propriamente dito, como é o caso de Platão e Aristóteles. Destarte, por meio da razão pura, conceito posteriormente definido pelo filósofo alemão Immanuel Kant, Descartes concluiu que a única verdade conhecida estaria no pensamento. Relacionando com a frase de Machado citada no começo desse texto, a verdade, mesmo que se pense ao contrário, permanece igual. Entretanto, o filósofo francês postulou um conceito que caminha em uma direção tortuosa e diferente daquela de Machado: a verdade, já que não é conhecida pelos sentidos, só pode ser encontrada no pensamento e, consequentemente, a existência daquele que pensa é comprovada.

Com efeito, Descartes dividiu o mundo externo em “res extensae” ou “coisas extensas”, que são desprovidas de qualidades secundárias, como a cor, e “res cogitans”, ou “mente particular”, que é tudo aquilo que não é uma coisa extensa. Essa visão serviu de base para a ciência moderna que, anos depois, se fundamentou em um método de verificação de hipóteses por meio de experimentos. O método científico atual, portanto, está diretamente relacionado a essa visão do filósofo francês que, conforme denominação do físico Wolfgang Smith, se trata de uma “bifurcação cartesiana”, ou seja, uma simplificação do mundo que leva a um reducionismo científico.

Logo, com física contemporânea, depois da descoberta do princípio da incerteza de Riemann e da Mecânica Quântica por Heisenberg, a objetividade do método científico, acreditada com tanto afinco por Descartes ao ponto de desprezar a percepção sensível, se tornou prejudicada. O exemplo do gato de Schrondigger, inclusive, já é uma evidência habitual para sustentar a afirmação anterior.

Portanto, conclui-se que o pensamento de Descartes deu início ao atual mito da objetividade científica materialista, a qual pode também ser chamada de cientificismo contemporâneo. Por consequência, em última análise, a objetividade, que era o alvo do filósofo francês ao criar seu método, paradoxalmente, levou ao efeito inverso: atualmente, na ciência contemporânea, herdeira de Descartes, não há mais objetividade material. 


A natureza pela ciência humana

 Beatriz Grieger

Turma XXXIX – matutino

  No filme ‘’O Ponto de Mutação’’ de 1990, uma das personagens principais, Sonia Hoffman, cita uma ‘’crise de percepção’’ que assola a contemporaneidade e que, consequentemente, impede que os problemas enfrentados pela humanidade, como questões relacionadas à mortalidade infantil, saúde e destruição do meio ambiente,  sejam solucionados. Tal crise consiste na objetivação de intervenção nos problemas e não em sua prevenção, fazendo com que eles persistam constantemente e não sejam realmente elucidados de forma definitiva. Entretanto, esta crise não é apenas um fenômeno contemporâneo, mas também moderno e questionado por filósofos como Descartes e Bacon no século XVII.

  Em sua obra ‘’Novum Organum’’, Francis Bacon ressalta a necessidade de criação de um novo método científico que seja racional e permita a apreensão do real para uma possível transformação do mundo, em contraponto com a filosofia antiga grega, como de Aristóteles, que era baseada na contemplação da realidade sem a objetivação de sua transformação, ou seja, Bacon propôs uma crise de percepção entre a ciência da antiguidade e a da modernidade em relação à sua utilidade. Para o filósofo moderno, esta nova ciência possibilitaria a intervenção e modificação da natureza pelo homem proporcionando o desenvolvimento que era almejado pela burguesia da época, porém para Sonia Hoffman esta intervenção seria maléfica, pois teria possibilitado uma tortura do planeta pelo homem que persiste atualmente, gerando, por exemplo, a destruição da Floresta Negra do sudoeste da Alemanha.

  Assim como Bacon, Descartes cita a necessidade de produção de um conhecimento que seja útil em sua obra ‘’Discurso do Método’’: ‘’ ... apesar de no juízo que faço de mim próprio eu procuro inclinar-me mais para o lado da desconfiança do que para o da presunção, e que, observando com um olhar de filósofo as variadas ações e empreendimentos de todos os homens, não exista quase nenhum que não me pareça fútil e inútil, não deixo de lograr extraordinária satisfação do progresso que creio ter feito na procura da verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que, se entre as ocupações dos homens puramente homens exista alguma que seja solidamente boa e importante, atrevo-me a acreditar que é aquela que escolhi.’’ Ou seja, a ‘’crise de percepção moderna’’ é, assim como para Bacon, objeto de estudo e crítica para Descartes que exprime a necessidade de uma razão instrumental como uma nova maneira de entender a vida acarretando, para Sonia Hoffman, o que ela denomina como ‘’ visão mecanicista do mundo’’ que seria comumente adotada por políticos em seus discursos e soluções, porém que nada serviria para a resolução dos problemas enfrentados pelo mundo, o qual, para Descartes funcionaria como uma máquina, tal qual o corpo humano. Entretanto, para a personagem, a ciência atual já teria superado essa visão mecanicista, gerando a necessidade de uma revolução em seu método, a qual seria a forma possível de superar a ‘’crise de percepção’’.

  Observa-se, portanto, que diferentes contextos e épocas provocam a necessidade de novas ciências que sejam úteis para os problemas enfrentados em cada período. Assim como os filósofos pré-socráticos observavam o mundo com o intuito de descobrir sua origem e composição, como Aristóteles refletia sobre questões metafísicas, Descartes e Bacon sobre razão instrumental e métodos científicos para atender os problemas da burguesia em ascensão, Sonia Hoffman defende a necessidade atual de uma ciência pós-moderna que possibilite a superação de problemas gerados pela ciência moderna, mecanicista e puramente utilitária. Cada uma dessas ciências relaciona-se de diferentes formas para com a natureza: as duas primeiras a contempla, a próxima a usa a transforma e a terceira a salva e reconstrói. 



Visão ou percepção. Método cartesiano ou ecológico

                 No filme “Ponto de mutação” há diferentes pontos de vista. A cientista desiludida, o político de mãos atadas e o poeta decepcionado. A cientista questiona a sociedade atual, rompendo com os métodos propostos por René e Bacon, os quais influenciaram o estudo científico por mais de 300 anos.

Descartes, com seu método cartesiano revolucionário coloca em dúvida tudo aquilo que pode ser duvidado, não como um cético mas procurando encontrar a verdade. Bacon, por outro lado, criou um método visando evitar os erros próprios da natureza humana, uma ciência sem interferência de “ídolos”.

       Segundo a cientista, a visão mecanicista proposta por Descartes e concretizada por Newton, embora tenha sido positiva no início, hoje mostra-se um problema. É proposto por ela uma maior percepção, um método ecológico, uma tentativa de não se dividir em pequenas etapas como no método cartesiano, mas sim de visualizar o todo. O político a entende, mas questiona como seria possível agir perante tais ideias, segundo ele, o povo quer o que funciona, simples e direto, ela já pergunta se só por funcionar algo é bom. O poeta por outro lado diz que declarar tudo como um todo seria questionar a própria noção da humanidade, a própria noção de escolha.
      Assim, não é uma questão de “ou” e sim de “e”. É necessário tanto visão quanto percepção, tanto um método cartesiano quanto ecológico, porque o mundo e as relações são complexas. Visão porque cada pessoa e situação é diferente, percepção porque cada relação em diferentes situações torna-se em uma forma que deve ser considerada. Portanto, tais métodos seriam importantes mas a vivência e a interpretação de cada coisa que acontece no mundo não deve ser ignorada, a verdade não consistiria em apenas uma coisa.


Racionalizar

 Juliana Cristina Barbosa Silveira 

Direito Noturno : 1 semestre 


O método é racionalizar!

Racionaliza e tornar padrão.

Padrão até que se torne absoluto.

Absoluto até que só exista uma direção.


O mundo buscou pela rapidez,

E rapidamente estávamos manipulando

A natureza, a sociedade, o homem, o pensamento.

E então tornamo-nos doentes.


Nos alimentamos de produtos racionalizados,

Consumimos até adoecer.

E então buscamos a cura para o corpo, afinal esse não pode parar.


E logo já estamos novamente consumindo.

Não há prevenção! Somos racionais,

Mas consumidos ingredientes para produzir uma bomba.


 Poema crítico baseado na obra "Novum Organum" de Francis Bacon, especificamento o aforismo XLVI, que diz repeito à convicção do ser humano, a qual, independentemente das instâncias contrárias, sempre tende a se mover em direção àqueles eventos positivos à sua visão, seja desprezando, rejeitando ou até mesmo condenando outras opniões.

 Essa obra possui como inspiração o formato de postagens da rede social "twitter" e visa relatar a vida social contemporânea da massa jovem brasileira, além de possuir exatos 280 caracteres, mantendo-se fiel ao limite original.


280 caracteres

O ser contemporâneo, quando certo de sua convicção,

Procura qualquer um ao alcance para compartilhar sua opinião,

Ao mesmo tempo, ignora ideias contrárias e até as rejeita.

Para completar, cancela quem não a aceita.

Para um “douto” do séc. 21, chama-se visão perfeita...


Curso de Direito – Campus de Franca – período matutino

Disciplina: Sociologia

Nome: Bruno Issamu Ishioka


A resposta

 Atenção: a história do seguinte texto possui natureza totalmente fictícia e foi inspirada pela leitura e interpretação da obra ‘’Discurso do Método’’, de René Descartes, da obra ‘’Novum Organun’’, de Francis Bacon, e do filme ‘’O Ponto de Mutação’’, dirigido por Bernt Amadeus Capra.  



             A questão era que não fazia sentido. Não havia sentido. Ana tinha vinte e três anos. Ela era saudável, se exercitava regularmente, consultava uma nutricionista. Nunca tinha fumado ou bebido em toda a sua vida. Não havia histórico de doenças na família. Ela usava casaco em dias frios e não saía de casa quando estava chovendo. Ela nunca tinha ficado resfriada, nem mesmo na infância. Aquela havia sido a primeira vez que Ana ficara doente. A primeira e a última.

            Ana tinha vinte e três anos. Vinte três anos como ela. Ela que fumava ocasionalmente e bebia mais do que ocasionalmente. Ela que não se exercitava e mal comia entre uma sessão de estudos e outra. Ela que queria se formar para recomendar aos outros aquilo que ela mesma não seguia. Ana tinha o seu rosto, a sua idade, a sua genética. Ana tinha muito mais. Ana tinha o juízo, e os sonhos e a bondade. E, ainda assim, era ela quem estava ali. Não Ana.

            Não fazia sentido. Mas a fazia sentir. Até demais.

            Por isso, ela foi atrás das respostas. Ela se trancou em um quarto, não tão grande, para que a solidão não entrasse, mas não tão pequeno, para que as dúvidas não a sufocassem. Um quarto limpo, estéril, insensível. Ela fechou as janelas, para que não pudesse sentir o calor do vento em seu rosto e começou a ler. Ler era encontrar, seus professores diziam. Encontrar respostas, conhecimento, soluções. Ler era encontrar, Ana teria dito. Ela queria ser professora. Ela queria salvar o mundo, mas sabia que isso era muito complicado. Por isso, Ana se contentava em ajudar aqueles que estavam ao seu alcance. Ana tinha muito mais, veja bem. 

            Ela revirou os livros de medicina, pesquisou artigos, leu e releu pesquisas. Ela esmiuçou cada sistema do corpo humano, cada órgão, cada tecido. Categorizou as doenças, procurou entender cada fator que poderia levar à contaminação e cada fator que poderia evitar uma cura. Dias perderam-se em semanas, semanas em meses, até que, por fim, ela obteve as respostas que buscava. Ela entendeu o que havia dado errado, como a doença que levara Ana tinha surgido, como tinha a infectado e destruído a harmonia delicada do seu organismo pouco a pouco, feito uma infestação de cupins sobre uma antiga casa de madeira.

            Só que algumas dúvidas não sumiram. Os ‘’por ques’’, eles permaneceram, escalando a sua garganta, atando suas mãos, prendendo seus pés ao chão daquele quarto. Então, ela continuou a procurar.

            Da ciência, ela partiu para a física, da física para a biologia, da biologia para a química, para a história, para a geografia. Ela visitou cada área do conhecimento, como em uma viajante em uma jornada repleta de escalas, mas com um destino só e incerto. E a cada resposta que ela obtinha, mais dúvidas surgiam, multiplicando-se como as células de um tumor.

            De repente, o problema não estava mais em Ana, estava no mundo. O mundo não fazia sentido algum. A medicina nunca estivera tão avançada e, ainda assim, pessoas morram todos os dias, não por conta de doenças, mas por conta de complicações, algo incontrolável e incurável, apenas evitável, mas, que, ainda assim, não era evitado por ninguém. O mundo atravessava a quarta revolução industrial, as empresas jamais estiveram tão bem equipadas tecnologicamente, e, ainda assim, elas continuavam a extrair, e a minerar, e a destruir o próprio ambiente que lhes fornecia a energia para que o mercado continuasse funcionando. Era para a sociedade estar testemunhando o ápice da proliferação das lutas sociais, a era da liberdade de expressão e do compartilhamento de conhecimento, mas, ao invés disso, eles conviviam com mentiras que se proliferavam como um vírus, opiniões formadas com base em nada e partilhadas como se fossem tudo e causas que eram diminuídas e polidas até poderem se encaixar na tela de fundo de uma propaganda política bonita e vazia. A comida era o suficiente para alimentar a todos, mas nem todos conseguiam comer o mínimo para sobreviver. Guerras nasciam e cresciam, ao contrário das crianças que morriam por causa delas. Regras eram debatidas, e formuladas, e positivadas, só para serem quebradas a todo instante, como estacas no rumo de uma avalanche.

              Estavam todos doentes, todos eles, desfalecendo sem ao menos perceber.

            Mas devia haver uma razão, um agente etiológico, uma justificativa maior que desse sentido a tudo que acontecia. Ela precisava de uma maneira de compreender, de aceitar. Então, ela continuou a procurar.

            Primeiro, ela tentou a religião. Foi reconfortante, mas não o bastante. Então, ela passou para a filosofia. Filosofia, a arte da busca pelo saber. Era sua grande aposta, a sua última esperança de silenciar as dúvidas de uma vez por todas. E o quão frustrante foi se dar conta de que as respostas que lá estavam carregavam em seu ventre novas perguntas, que nasceram na cabeça dela com choros estridentes.

            De repente, o problema não estava mais no mundo. Estava em tudo. No existir, no conhecer, no viver. O sistema era falho, as justificativas eram inúteis e eles eram seres perdidos, famintos e teimosos, que tentavam apagar marcas em folhas de papel já muito amassadas. Dias perdiam-se em semanas, semanas em meses, meses em anos, em todos os lugares, a todo tempo. E tudo que permanecia eram as dúvidas, infecciosas pequenas criaturas berrantes, parasitas em seu ser.

            O conhecimento era repicado e suas fatias eram isoladas, jogadas ao espaço como corpos celestiais. Elas estavam tão distantes umas das outras que era fácil se esquecer que faziam parte da mesma galáxia. Eles estavam tão distantes um dos outros que era fácil se esquecer que faziam parte do mesmo mundo. O mundo estava tão distante dela que era fácil se esquecer que ela fazia parte dele. Mundo tornou-se abstrato. E em sua abstracidade, tornou-se compreensível do modo mais dolorido. O luto dela inchou até o tamanho de um balão com um raio de seis e mil e trezentos quilômetros.

Ela leu e releu, leu e releu, porque não podia parar, não até se livrar do choro das larvas. Por fim, ela retornou a Descartes. Alguns diziam que o problema começou em Descartes. Ela concordava e discordava. O problema existia antes de Descartes, sempre existiria. Descartes somente tentara solucioná-lo, amenizá-lo com pitadas de lógica e fé, e, como todos os outros que decidiram se arriscar, havia conquistado sucesso por um instante e falhado dali adiante. Dessa vez, ela viajou pelas páginas e pousou em trechos que não haviam estado em suas escalas antes. Ela viu Descartes com outros olhos, olhos mais pesados e secos.

            Descartes vira o mundo como uma máquina, o homem como um ser racional, e a existência como uma linha de pensamento. Ela conseguia entender, trancada naquele quarto, distante no espaço. Mas, dessa vez, ela viu além das respostas que ele tentara oferecer. Ela viu as dúvidas que Descartes carregara. Ela notou a voracidade por trás das teorias, a necessidade de compreender, de achar uma justificativa maior. Ela viu Descartes como algo a mais do que um ser racional e, naquela linha de pensamento, ela tocou toda uma existência que se encontrava com a sua.

            De Descartes, ela partiu para Bacon, de Bacon para Kant, de Kant para Weber, depois Marx, depois ela revisitou Platão, Sócrates e Aristóteles. E, em cada um deles, ela encontrou as dúvidas. Ela encontrou uma constante, talvez a única que tinha sentido. Na dúvida, ela encontrou a humanidade, e na humanidade, ela encontrou a dúvida. Ela aceitou, após dias, semanas, meses e anos, que talvez aquela seria uma viagem interminável. Que as repostas estariam sempre um passo a frente. Ou, talvez, um passo a dentro.

            Ana queria salvar o mundo, mas sabia que isso era complicado demais. Ana tinha mais. E ela, ela queria mais. Perguntar mais, procurar mais, encontrar mais. E o único jeito de testar era experimentar. O único jeito de tocar a certeza era tentando senti-la.

            Rose fechou os livros, levantou-se do chão e abriu as janelas.

            O vento da manhã bateu quente contra o seu rosto.

 

Curso de Direito – Campus de Franca – período matutino

Disciplina: Sociologia

Nome: Isabela Maria Valente Capato

A pluralidade e as diferentes análises do mundo

    A interpretação do mundo foi e ainda é baseada em uma diversidade de variáveis, o que torna complexo e até mesmo inconcebível tentar encontrar uma verdade absoluta. O filme “O Ponto de Mutação” deixa isso claro a partir de conversas reflexivas ocorridas entre três figuras: um ex-candidato à presidência da República, com uma visão pragmática, um escritor, representando o ponto de vista romancista e uma cientista que, como já especificado por sua profissão, possui uma opinião mais científica. A partir desse contraste de ideias, fica eminente os diferentes fundamentos do pensamento científico que perduram até a sociedade contemporânea.

    A reflexão mecanicista entra em pauta durante os diálogos. Ela é trazida pela figura do relógio, metonímia da máquina, que mostra como a Ciência moderna se embasa, na maior parte das vezes, somente na contemplação do mundo a partir de um conceito fragmentado, sem correlação entre as partes, sobre o qual a população justifica suas ações, sejam elas políticas, científicas ou até mesmo sociais. Em contraponto a esse fato, o enredo apresenta o pensamento sistêmico, que demonstra como uma visão expansionista, caso fosse utilizada atualmente, ajudaria os cientistas a chegarem em conclusões mais amplas e eficientes.

    Ademais, a razão e a experiência são discutidas a partir dos ideais de cada um e demonstram que a sociedade como um todo possui maneiras de pensar, de acordo com o ambiente em que estão inseridas, que as levam a examinar a realidade de maneiras diversas e únicas. Nesse meio tempo, conceitos primordiais para o século XXI também entram em jogo, como a importante representatividade de mulheres na ciência, a tomada de indivíduos como parte de uma relação complexa em torno da sociedade e os feitos dos governantes em prol de interesses individuais.

    Dessa forma, é certo que analisar variáveis em defesa do vínculo de seres humanos é preferível do que aplicar soluções pontuais e passageiras. Sendo assim, essa longa-metragem pode ser utilizada como base para o entendimento de que o mundo não chegou ao seu desenvolvimento máximo e necessita de avanços que possibilitem uma maior racionalização do ser social, sem questionamentos ilógicos por parte daqueles que não acreditam que a ciência deva ser creditada pelos vários feitos que conseguiu até então. Para tal fato ocorrer, também é preciso respeitar a pluralidade de convicções como dito no livro “O discurso do método” de Descartes: “a diversidade das nossas opiniões não decorre de uns serem mais razoáveis que os outros, mas somente de que conduzimos nossos pensamentos por diversas vias e não consideramos as mesmas coisas”, desse modo, o pensar crítico será crescente e contribuirá para a busca de respostas dos vários questionamentos existentes.


Núbia Quaiato Bezerra

1° ano- Noturno

quarta-feira, 23 de março de 2022

Uma carta de compreensão

 Eu entendo Descartes

Numa época de ciência tão regrada

e pouco explorada

Seria claro a criação de novas variáveis


Pode-se dizer que, 

se desvencilhar do comum e propor a transformação

Tem em suas vertentes

uma verdadeira busca da razão


Assim como Descartes, 

entendo Bacon

Ainda que diferentes, 

ambos apenas queriam consolidar algo humano


De um lado por método universal

e do outro pela experimentação,

porém, de qualquer modo

voltamos a razão


Logo, a crítica aos pensadores gregos, se fundamenta

Épocas novas precisam de conceitos novos

E é então que, ainda que entenda os dois

ouso-me a fazer observações


Uma vez que entendemos que na realidade atual

analisar um mundo dividido e,

reconhecê-lo de forma mecanizada

torna-se banal


Compreende-se que ao decompor para entender, 

apenas pequenas chamas são apagadas

e não o grande incêndio social

Dessa forma, do que valeria o esforço?


Portanto, com todo respeito

digo novamente, Descartes, Bacon, 

eu os entendo, mas minha sociedade

precisa de conceitos diferentes


Conceitos que valorizam a necessidade de

às vezes dizer adeus ao mais fácil

e aprender a viver com o mais sustentável,

ainda que seja um processo duro e demorado


Conceitos que entendam que, 

num planeta finito e doente

deve-se voltar o olhar ao meio ambiente

Compreender que, uma sociedade evoluída em um mundo desgastado

não se mantém, e apenas espera a notícia do fim

em um de seus aparelhos mecanizados


Vitória Santos da Silva - 1º ano de Direito


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

A questão da raça importa para o Direito?

 O Direito é o elemento que rege e que está no cerne de toda a vida na sociedade moderna. É ele que determina como se darão as relações econômicas, sociais, governamentais, diplomáticas, familiares e comerciais. É ele que diz quais ações são vistas como éticas e quais são inaceitáveis dentro de uma sociedade. Assim, também ordena como se dão as relações de opressão e exploração. Por conta disso, é um instrumento de muito poder para quem o dominar e ditar suas normas. 

Desta maneira, o Direito ocidental permitiu a potencialização da acumulação de riqueza feita sobre a mais violenta forma de trabalho ao ratificar um ideário construído para  justificar a exploração escravista colonial. Este ideário precisou desumanizar totalmente a figura do negro, colocando-o apenas como um objeto, uma máquina sem sentimentos, família, cultura, crenças, singularidades e conhecimentos. Precisou efabular, sobre ele, uma imagem de ser ameaçador, o qual toda a sociedade deve vigiar e temer, para assegurar que não se liberte dos grilhões que o prendem à sua situação de subordinação que assegura privilégios para grupos economicamente dominantes.

Portanto, por séculos, a questão da raça esteve explicitamente tratada dentro das legislações coloniais. Aos brancos, estavam reservados cargos, privilégios e direitos. Para eles, a lei poderia exercer a sua função: garantir a justiça e a dignidade aos seres humanos. Aos negros, ao contrário, havia a total ausência de direitos e a lei tratava sobre ações que intensificavam, ainda mais, sua desumanização. Ela permitia, por exemplo, que senhores torturassem seus escravos, mas caso eles se insurgissem contra isso, seriam severamente punidos. Tudo isso para assegurar os lucros do capitalismo.

Quando este se reinventou e a mão de obra escrava deixou de ser vantajosa, a liberdade puramente formal passou a ser o novo artifício do Direito capitalista para justificar as situações subalternas em que os grupos racializados se encontram dentro da sociedade. Ao se recusar a tratar sobre a raça, o Direito, linguagem do sistema, se nega a estudar, buscar soluções e indenizar essas populações pela posição que ele as colocou, perpetuando-as. Direitos, garantias e políticas afirmativas dão sustentação e estrutura para que as pessoas  possam desenvolver-se educacional, social, profissional e economicamente. Negar que grupos como negros precisam de legislações específicas para que possam, realmente, atingir a igualdade plena que o liberalismo pressupõe aos cidadãos é assegurar que permaneçam em condições, como a pobreza, que facilitem sua exploração.



Sofia Moreira Pinatti

Possíveis intersecções entre o Direito e a questão racial

 A partir de duas aulas temáticas, uma delas contando com a presença especial do Prof. Dr. Jonas Rafael dos Santos, foram estabelecidas e refletidas diferentes formas de se pensar a questão racial à luz da Sociologia Jurídica, com o auxílio de ideias de Achille Mbembe.

Primeiramente, nas reflexões realizadas, é possível evidenciar que a agressão ao negro tem múltiplas facetas, muito além daquela que talvez seja mais noticiada (a violência física atrelada à atuação policial). Para manter o negro em condição de inferioridade e tentar tirar dele o protagonismo de sua vivência, muitos artifícios mais sutis, porém igualmente poderosos, são com frequência utilizados por diversos agentes do tecido social.

Nesse sentido, um ponto relevante a ser mencionado é o esforço para invisibilizar a razão negra. Trata-se de um tipo de violência às vezes mais oculto, direcionado às formas de pensar, acreditar e viver de pessoas negras e que perpetua a imagem do ser humano genérico como sendo o indivíduo branco. Desse modo, importante se torna a reflexão sobre agentes midiáticos do empresariado brasileiro e internacional, que até poucos anos atrás não incluíam em suas produções propagandísticas pessoas negras, contribuindo para a invisibilidade desses indivíduos em relação às suas demandas particulares de consumo, e, portanto, como um todo, já que, por consequência, inviabilizam uma existência plena. Isso porque, mesmo atualmente, quando essa representação se tornou maior, foi feita, de acordo com uma perspectiva mbembiana, a partir de uma consciência produzida externamente, e algumas publicidades até acabaram contribuindo para reforçar estereótipos racistas, como o polêmico caso de 2018 da marca Perdigão. Contra essa tendência, um resultado muito positivo é o movimento afrofuturista, que dá voz ao verdadeiro protagonismo negro e permite vislumbrar avanços na representatividade a partir de um ponto de vista mais orgânico.

Ademais, outro ponto a ser refletido pela perspectiva mbembiana é relacionado à discriminação das pessoas negras por meio da violência física atrelada à atuação policial ou a outros agentes estatais e de segurança. É interessante notar que, após a obra de Mbembe, escrita em 2013, muitos dispositivos tecnológicos, sobretudo de inteligência artificial, foram criados e indevidamente utilizados e contribuíram para discriminação em tribunais e até mesmo em lojas, como o recente caso da Zara, em Fortaleza, em um exemplo claro da legitimiação do estigma de que negros não ocupam lugares de poder e certos espaços reservados a quem o detém. Os meios se alteram, novos dispositivos são criados, mas a subjugação persiste e a mentalidade que a sustenta é quase a mesma de dois séculos atrás.

Por fim, é notável que o Direito se encontra em um campo de atuação muito fértil no sentido de enfrentamento de tais desigualdades retrógradas que remetem ao século XIX, pois há muito o que ser feito e assegurado para a população negra ainda. Enquanto isso, nas palavras de Mbembe: continua esse “signo ao qual se chama Negro, e, por tabela, o aparente não-lugar a que chamamos África e cuja característica é ser não um nome comum, e muito menos nome próprio, mas o início de uma ausência de obra.”

Isabela Mansi Damiski - matutino