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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Noivas a caminho do Oriente

  (As adolescentes Shamima Begun, Amira Abase e Kadiza Sultana em aeroporto inglês antes de partirem para a Síria¹)

“Nossa querida Kadiza e as duas amigas acompanhando você. Nós, juntos, sinceramente rezamos e esperamos que esta mensagem chegue até vocês. Nós oramos para que nenhum mal aconteça a vocês, e que vocês estejam em segurança e com boa saúde (...). Em sua ausência, nós, como uma família, estamos nos sentindo completamente angustiados e sem entender por que você fugiu de casa” (tradução livre)².

O caso das três meninas de 15 e 16 anos que partiram de Londres em fevereiro de 2015 em direção à Síria, para se juntarem ao movimento extremista do Estado Islâmico (EI), é mais um dos tantos outros que têm ocorrido ao redor do mundo recentemente e têm deixado perplexos famílias, estudiosos e governantes. ‘Noivas do Jihad’ é como os tablóides britânicos denominam as mulheres que partem rumo ao Oriente Médio com o ideal de se casarem com os soldados e participarem da luta armada.

Assim como as três dedicadas estudantes de Londres, estima-se que 12 mil indivíduos, de 50 países, deixaram seus lares em lugares desenvolvidos como Reino Unido, Estados Unidos e Austrália, para lutar ao lado de grupos extremistas na Síria, é o que aponta o jornal The Guardian sobre dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos³. Para Charlie Winter, pesquisador do grupo contraterrorista Quilliam Foundation, o recrutamento de pessoas decorre, em parte, da propaganda ostensiva do grupo EI, mas também da desconexão e do senso de inadequação que os recrutas em potencial sentem no país em que vivem. Perguntado sobre a diferença de comportamento entre alguns recrutas que aceitam seu papel no EI e outros que se arrependem e fogem de volta a seus países de origem, ele afirma que não há um perfil definido da pessoa que se junta ao EI, e sim uma variedade de pessoas, que fazem isso por motivos diferentes¹.

Parece ficar claro que uma compreensão mais profunda desse fenômeno social requer uma análise que vá além da perspectiva estrutural ou histórico-econômica da sociedade de origem dos indivíduos, alcançando o ser humano em si. Afinal, são pessoas provenientes dos mais diversos países e de diferentes núcleos familiares que deixam tudo para trás, rumando ao desconhecido, munidos apenas do seu ideal. Em uma perspectiva sociológica weberiana, tais ações seriam racionais, engendradas por valores próprios dos indivíduos. Tais valores, por sua vez, seriam influenciados por diversos fatores, e em diferentes medidas conforme o indivíduo, dentre eles a religião, a cultura, as relações sociais e a propaganda extremista.

Todavia, prever quais indivíduos escolherão esse caminho futuro não é tarefa simples. Os comportamentos em questão fogem à lógica padrão esperada daqueles que vivem em democracias ocidentais. Em termos da metodologia de Weber, equivaleria dizer que os fatos concretos apontam uma realidade bastante diferente do modelo hipotético (tipo ideal) construído com base nas prováveis ações racionais dos cidadãos de regimes democráticos. A “irracionalidade” parece desafiar a capacidade das autoridades de conter o fenômeno. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou que planeja aumentar a revista em aeroportos e convocou as escolas para auxiliarem na identificação dos estudantes em risco de serem cooptados. Por outro lado, a ex-ministra Sayeeda Warsi, primeira muçulmana a integrar o governo britânico, alertou para o papel da internet na radicalização dos jovens muçulmanos e lembrou que “não se faz um terrorista em um dia”4.
   

Fernando – 1º Ano Direito Noturno (texto sobre Compreensão sociológica - Weber)

Referências:
1.       Notícias UOL. Desconexão com o próprio país motiva fuga para o EI, diz especialista. Disponível em:
2.       The Telegraph. Parents of three runaway British ‘jihadi’ brides beg them to come home. Disponível em:
<http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/islamic-state/11427093/Parents-of-three-runaway-British-jihadi-brides-beg-them-to-come-home.html> . Acesso em: 08 ago. 2015.
3.       Exame. Por que jovens ocidentais estão lutando pelo Estado Islâmico. Disponível em:
< http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/por-que-jovens-ocidentais-estao-lutando-pelo-estado-islamico#2> . Acesso em: 08 ago. 2015.
4.       O Globo. Adolescentes britânicas já cruzaram fronteira da Síria para se juntar ao Estado Islâmico. Disponível em:
<http://oglobo.globo.com/mundo/adolescentes-britanicas-ja-cruzaram-fronteira-da-siria-para-se-juntar-ao-estado-islamico-15410732> . Acesso em: 08 ago. 2015.

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