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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

et facta est lux


A dúvida, desde as mais complexas até às mais ordinárias, pertence e caracteriza a forma de vida mais curiosa do vasto Jardim do Éden. E por isso de lá fora expulso, por provar, e gostar, do conhecimento. O homem criou o plantio, a espada, a família e a razão, ápice da espécie, que aproximava dos deuses e distanciava das bestas. A razão, dominada pelos homens livres, justificava os amargos anseios da alma, o pensar era uma arte. O sol era Apolo, que com seus cavalos de fogo cruzava os céus, as trevas eram Érebo, traído por sua irmã gêmea e aprisionado, a terra era Gaia, que zelava por deuses, homens e monstros, e a razão era o dom da contemplação, da adoração das formas do existir.
O crescimento populacional, o contato com diferentes culturas, o aumento multifacetado das necessidades sociais exigiram maiores dúvidas e melhores respostas. Após o longo período de poderio e monopólio do conhecimento pela Igreja Católica, a sociedade sentiu necessidade de novas soluções que contrapunham a verdade clerical. Esse anseio originou-se na classe burguesa, renegada pelo clero e pela nobreza, que por meio do resgate do conhecimento dos antigos, consolidou uma nova forma de verdade, mas dessa vez capaz de provocar transformações reais no ambiente.
Um novo constructo social e racional nascera. Conheces a verdade? Prova-te. A necessidade da experiência e a suprema razão nega a presença dos ídolos, cultua o tangível e o inovador, e inaugura a modernidade. A ciência como máximo humano é quem esclarecerá as incógnitas da mente, o funcionamento dos astros, do tempo e da carne. A pura ciência de tudo duvida, nega antigas sentenças e constrói a nova verdade.
Os trabalhos do novo saber auxiliaram na elaboração da medicina, da arquitetura, da física e do próprio homem. O antigo contemplador passa a ser agente transformador, um cientista atento ao método e a reprodução em escala de suas comprovações, despe-se das certezas e busca pelo novo, nega o senso comum e busca pela mítica árvore do conhecimento. A natureza, antiga inspiração dos poetas, transforma-se em mina de ouro, onde tudo se extrai e tudo se aproveita. Morrem Apolo, Érebo e Gaia. Nascem as estrelas, as lamparinas e a biologia. Morre o homem, nasce a ciência. 

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