Em um contexto de guerra, revolução e premente necessidade de reorganização social, após um longo período de instabilidade política e transformações sociais profundas, Auguste Comte inaugura o estudo dos fenômenos sociais : a Sociologia ou Física Social. Inspirado nas leis da astronomia, física, química e biologia, o autor buscou estabelecer regras universais presentes nas relações humanas. Para tal, Comte estruturou o Positivismo, uma filosofia que estabelece a ciência e a observação empírica como fundamentos únicos do conhecimento verdadeiro.
Diante desse cenário, Comte provocou uma inovação ao sistematizar um ramo específico da ciência voltado para o estudo das relações sociais. No entanto, por escrever predominantemente sobre a sociedade ocidental, Comte elaborou uma teoria da evolução das civilizações dividida em três estados: teológico, metafísico e positivo, na qual a ordem e o progresso seriam condições necessárias para se atingir o Estado Positivo, estágio em que a razão e a ciência assumiriam papel central na organização social. Ao hierarquizar as sociedades nesse modelo linear e eleger a Europa como seu estágio mais avançado, Comte promove uma classificação do mundo. Desse modo, saberes culturais, tradicionais e empíricos que sustentam civilizações há séculos são automaticamente desqualificados por não se encaixarem nos critérios de uma racionalidade que se proclama “universal”.
Ademais,
os impactos do Positivismo extrapolam o campo teórico. Ao legitimar
uma hierarquia entre civilizações com base em critérios pretensamente
científicos, o pensamento comtiano contribuiu para o desenvolvimento
de pseudociências como o evolucionismo social, que classificava povos
não-europeus como "menos evoluídos" e justificava, sob o verniz da
racionalidade, projetos de dominação colonial. No Brasil, esse ideário se
materializou em políticas concretas de exclusão, a exemplo das políticas de
branqueamento populacional do início do século XX que buscavam,
deliberadamente, apagar traços culturais e étnicos de povos africanos e
indígenas em nome de um progresso modelado à imagem europeia. Nesse processo,
corpos foram subalternizados e saberes inteiros foram descartados como “irrelevantes”,
“supersticiosos” ou “primitivos”, simplesmente por não se encaixarem nos moldes
das lentes ocidentais.
É precisamente essa violência
epistêmica que a intelectual e psicanalista, Grada Kilomba, denuncia em “Memórias
da Plantação”. Para a autora, o problema vai além do viés histórico, ele
persiste na forma como, ainda hoje, o conhecimento produzido por pessoas negras
é sistematicamente classificado como "subjetivo",
"emocional" ou "parcial", enquanto o conhecimento
branco-europeu é naturalizado como "objetivo" e universal. Kilomba
evidencia que essa distinção não é neutra, já que ela é um mecanismo de poder
que determina quem tem autoridade para falar, o que pode ser dito e o que conta
como ciência legítima. Desse modo, a legitimidade do conhecimento científico
nunca foi definida apenas por critérios epistemológicos, mas também por políticos.
Portanto, o reconhecimento da ciência, como se
percebe, foi negociado, historicamente, a partir de relações de poder, raça e
colonialidade. Nesse sentido, uma ciência verdadeiramente legítima é aquela que não necessita silenciar outros saberes para se afirmar como universal, sendo capaz de reconhecer seus
próprios limites, seu lugar de fala e a pluralidade de formas de conhecer o
mundo. Legitimar a ciência, em última instância, exige democratizá-la, abrir
espaço para que vozes historicamente excluídas sejam objeto de
estudo e, mais ainda, sujeitos ativos na produção do conhecimento.
Arthur Paranhos - 1° ano DIREITO Noturno
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