domingo, 5 de abril de 2026

Neutralidade ou Viés?

A ideia de pensar a sociedade como uma “física social”, proposta por Auguste Comte, aparece hoje em práticas que tratam os fenômenos sociais como dados objetivos, passíveis de medição e controle. Um exemplo disso é o uso de mapas de criminalidade e algoritmos para orientar o policiamento em grandes cidades. A partir de registros estatísticos, definem-se áreas consideradas mais perigosas, concentrando ali maior presença policial. À primeira vista, trata-se de uma aplicação direta do ideal positivista: identificar padrões e agir racionalmente para garantir ordem social.

No entanto, essa aparente neutralidade revela problemas quando observamos quem é mais afetado por essas políticas. Bairros periféricos e populações negras costumam ser mais vigiados, o que gera mais registros e reforça o ciclo que justifica ainda mais policiamento nesses locais. Os dados, portanto, não são neutros: refletem uma história de desigualdades e de controle seletivo. É nesse ponto que a reflexão de Grada Kilomba se torna fundamental. Ao questionar quem pode falar, ela mostra que essas populações aparecem como objeto de análise, mas raramente como sujeitos que produzem conhecimento sobre sua própria realidade.

Assim, enquanto gestores defendem decisões baseadas em “evidências”, moradores dessas regiões relatam experiências de violência e estigmatização que não são plenamente consideradas. O caso evidencia que a aplicação de uma lógica de “física social” pode ocultar relações de poder e silenciar vozes, transformando a promessa de neutralidade científica em um mecanismo que, na prática, contribui para a manutenção de desigualdades sociais.

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