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segunda-feira, 7 de agosto de 2017


O Conhecimento de Anne 


A história da evolução humana é a trajetória do conhecimento consciente e da busca constante por atingi-lo. A conquista da erudição total foi, é e sempre será almejada socialmente,sendo concretizada em uma luta vã pela busca de humanizar-se sempre mais. Paradoxal, porém pertinente, que a chave do poder e a característica maior de nossa humanidade seja, por muitas vezes, tão aparentemente inatingível e momentaneamente improvável.
Início da década de 40, uma pequena casa holandesa abriga aquela que viria a ser a eterna voz-símbolo do holocausto. Seu universo limita-se a um quarto de 5 x 2 metros e a adversa Europa exterior é composta por medo e sangue. Não poderia existir cenário pior para o conhecimento. Não havia como libertar-se dos ídolos baconianos, o da caverna fazia-se a realidade cotidiana da jovem Anne e, logo, as conclusões advindas puramente da razão tornam-se intangíveis à realidade da judia. Conjuntamente, estabelece-se um panorama tão pouco propício à prática pura da dúvida metódica cartesiana e sua respectiva lógica. A razão pura, fria e calculista, prova-se como a inimiga exterior, o combustível intelectual dos nazistas genocidas. Entretanto, o mundo de Anne abre espaços para dar voz à experiência e ao inatismo. É assim, por meio de sua dura realidade diária e de seu senso de justiça, que  Frank procura o conhecimento de sua situação pessoal e étnica através da escrita e da leitura, proporcionando à humanidade uma das maiores análises sobre o mais importante conflito da era moderna.
O diário da púbere judia apresenta-se como a prova cabal de que o conhecimento real vai além não só do senso comum, mas também da razão. As conclusões de Anne Frank não são imparciais, mas fruto da certeza sobre a relevância do homem como pensador, fazendo com que sua obra vá muito além da mera descrição histórica e torne-se o relato do sentimento social vigente.
Diante de tal descrição, é plausível afirmar que a sistematização da racionalidade já proposta por diversos pensadores, como Bacon e Descartes, é relativa e não completamente essencial para a obtenção real do conhecimento. A teoria crítica dos ídolos de Bacon, por exemplo, ignorada por Anne, levou-a à percepções provavelmente consideradas pelo filósofo como “falsas”, mas indissociáveis ao microcosmo da garota. Entretanto, é possível perceber traços não exatos do método cartesiano nas análises situacionais do relato pessoal em questão, fazendo com que a autora elabore suas dúvidas e exponha seu dualismo psicofísico. Desse modo, por meio de tantos questionamentos, dúvidas e altos e baixos metodológicos, a escritora apresenta uma  certeza que se relaciona estreitamente com os objetivos de Descartes e Bacon e suas buscas pelos dogmas: a convicção de que o conhecimento é necessário e muitas vezes difícil de ser encontrado e demonstrado. “Nunca mais recuarei diante da verdade; pois quanto mais tardamos a dize-la; mais difícil torna-se aos outros ouvi-la” (Anne Frank, 2 de abril de 1943)

Lucas Correa Faim - 1° Ano Direito Noturno

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