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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Mero Casaco de Erudição

    A sociedade hodierna enfrenta um colossal inimigo no que tange a obtenção e o ciclo do conhecimento. Parece, no entanto, impreciso e incorreto afirmar que tal inimigo esteja atrelado somente à atualidade. Desde os primórdios da existência humana, o homem tende a supervalorizar seu conhecimento e menosprezar qualquer forma de expressão e interpretação da natureza conflitante com a sua. Tem-se a arrogância e a prepotência de crer incondicionalmente que tudo o que se sabe condiz com a realidade, limitando o saber pela crença ilusória de que se sabe tudo, de que se pode tudo. Dessa forma, a humanidade se vê frente a fatos despercebidos e impotente perante as situações cotidianas, incapaz de se livrar das pesadas, mas confortáveis, correntes do comodismo, com a visão turva pelos óculos da idolatria e marginalizando o mais importante instrumento de desenvolvimento do conhecimento: a dúvida.
    O pressuposto básico para o desenvolver do conhecimento é saber que tudo é contestável. Partindo se de que quase nada se sabe perto de tudo o que é passível de se conhecer, busca-se através da racionalidade e da experiência contestar suas próprias crenças e alcançar a verdade. Porém, é possível ainda hoje notar uma certa sacralização da ciência, de tal forma que o conhecimento científico é tido como uma ostentação de status, prevalecendo a preocupação com a vitória sobre os adversários por meio de argumentos em detrimento da obtenção do conhecimento da verdade de forma clara e manifesta. Tornou-se mais importante vestir e exibir um casaco de erudição, dizer e vangloriar que se sabe, do que propriamente saber alguma coisa.
    Vestindo o casaco erudito, o indivíduo trata os outros com arrogância e despreza todo e qualquer saber diferente do seu. Como afirma Bacon, “ o homem se inclina a ter por verdade o que prefere” e assim se vê aprisionado pelo conhecimento de mundo ilusório que ele acredita ter. Em meio a tantos preconceitos e intolerâncias, a vida em sociedade se encontra ameaçada por um problema de dimensões gigantescas, de fato um colosso, que tende a barrar o avanço do conhecimento e colocar óculos de realidade alterada nos olhos da sociedade, que parará de enxergar fatos e ficará condicionada e inerte, apaixonada e obcecada por ídolos, utilizando o conhecimento cientifico como um adereço de moda e buscando a verdade somente em si mesma e nunca na natureza e no mundo a seu redor.

    Acima de tudo, o mais importante é saber, e saber com certeza, que não há uma única palavra aqui disposta que não seja questionável. E que nada aqui pode ou deve ser tomado como verdade absoluta. Em meio a tantas contradições e vagações pouco lúcidas, esse é um texto que não mereceria ser escrito se se tivesse certeza do que se diz, e cujo único objetivo é propagar a dúvida.

Abner Santana de Oliveira. 1º ano. Direito-Noturno.

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