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segunda-feira, 7 de agosto de 2017


Dor

Seguindo seu caminho ia Javi. Com uma passada alta admirava em si mesmo o quão belo é ser. O ser em sua existência, em suas várias formas de expressar, mas o ser preso, claro, no seu próprio cogito. No passeio se depara, em uma loja, com uma televisão ligada em um discurso do Grande Irmão Disto Descartes, da linha sucessória do racionalista revolucionário que dera início ao Império da Razão. Desde que René Descartes, junto a Francis Bacon, havia exposto suas ideias, tornaram-se diarcas de um império que viria a ser uma monarquia com o golpe cartesiano por uma discussão em que Bacon falara que haviam eles se tornado a incorporação dos próprios ídolos. Mas voltemos ao nosso jovem Javi fitando o discurso de Disto Descartes. “Cogito ergo sum”, iniciara Disto num discurso que prolongou-se em racionalidades gloriosas acerca do ser, de como a ciência aproximava o homem à Deus e, “como o homem cada vez mais se tornava o próprio Deus.” ressaltava Disto, “digo-vos ainda...”, Javi iria ao êxtase não fosse a repentina interrupção causada pelo encerramento de expediente na loja, que carregou consigo toda a ciência profética idolatrável, possibilitando um furtivo vislumbre do Eu, nas imagens as quais se encarregaram de entreter Javi: seu próprio reflexo iluminado por teimosos fios de luz que fugiam da ordem das lâmpadas no poste. “Eu sou”, pensa, e por pensar nota que realmente é: e chega a máxima racional cartesiana. “Mas sempre fui?”, estava ai então o caos que trouxera aquele inocente reflexo: nunca precisou pensar na sua existência, não era necessário gastar tempo com contemplações uma vez que a urgência da atualidade tornava muito mais confortável trabalhar.

Gasta, então, alguns minutos ali, fitando-se: Como era belo! Cada traço de sua silhueta fora pensado por uma complexa equação cartesiana que o tornara perfeito para o específico e o geral, é o que escutara quando criança. Todavia, começa a notar imperfeições em seu físico que, logo, passam para sua personalidade e, de súbito, a beleza não está mais ali. Parou seu devaneio para limpar as lágrimas e quando reabre os olhos não se vê mais na tela. Readquirindo a razão volve para seu caminho racional, uma ultima tentativa de vislumbre na tela e vê o intragável: um indigente tirando suspiros de um violino. “Como ousa?” indignou-se Javi com ele “como pode, ao menos tocar em uma ferramenta da glorificação?”, ao que responde-o “como não ousar? Se é o que ainda me segura nessa existência.” diz o indigente à Javi, que continuaria a discução não fosse a chegada do ônibus que arranca o andarilho da vida do jovem deixando toda dúvida gerada naquele parto ilustrado.

Seguindo seu caminho vai Javi em questionamentos e contemplações com intermitentes repreensões sobre o quão danosas à Sociedade científica eram as dúvidas. Desvencilha da costumeira retidão para o lar e dá-se onde só o irracional o levaria: a queda d’água que levava o nome e o monumento de René Descartes. Deparando seu reflexo no bronze que esculpia a perfeição cartesiana, comete o crime de, mais uma vez, contemplar-se a si mesmo. “Penso logo existo”, sussurrava para seu “eu refletido”. Sentia pela primeira vez a brutalidade do resultado daquele pensar. Mas a inquietação que o indigente presenteara-o fazia aquela dor ainda mais insuportável: o que estaria o segurando nessa existência? Segue em direção da Catarata de Descartes, essa pequena cachoeira que carrega consigo a ironia do Império: “a cegueira da razão” riu ele da própria desgraça. E pega uma pedra no chão, e debuta a olhar para trás, e não vê nada além do gigante René Descartes de bronze, no qual Javi deposita sua esperança ao jogar a derradeira pedra. Dessa vez Davi não venceria Golias, essa era a realidade. E torna a olhar para a queda da Catarata e, no auge de sua irracionalidade bem pensada, finda seu sofrimento ao juntar seu sangue com a água. Ao que lembra Javi, havia se esquecido de tomar as pílulas anti-realidade.


Vinícius Henrique O. Borges, 1º Ano Direito (Noturno), UNESP FRANCA

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