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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Contesto-te, Professor !
Na última aula de sociologia, o Professor abordou dois pensadores clássicos do século XVII e os enalteceu por serem muito “atuais”.
O primeiro pensador, René Descartes, pelo pouco que lembro, é um racionalista: defende a razão como primado básico da pesquisa científica e para transformação do mundo. Qualquer coisa além disso é balela, sejam as nossas superstições, as nossas crenças religiosas, os nossos preconceitos, a nossa ideologia... Já o segundo pensador, Francis Bacon – de nome bem sugestivo, ainda mais quando você ainda não jantou – é um pensador que defende o uso da experiência para comprovação de teorias e fenômenos de qualquer natureza por meio de métodos indutivos. Também, descreveu com bastante riqueza os tipos “gurus” que fazem a nossa cabeça, aos quais atribuímos a explicação e solução de tudo que acontece mundo, os ídolos.
Contudo, é interessante notar que esses pensadores têm nada de atuais, afinal em nossa sociedade pós-moderna, “dita evoluída”,  o que impera é a imbecilidade do indivíduo, que não analisa  criticamente os diversos fatos do seu cotidiano, prefere terceirizar o pensamento a um “especialista” – nomeação dada aos ídolos do século XXI, de grande bagagem intelectual, os quais ministram suas aulas no YouTube, formados em futilidades ou “achismos” e pós-graduados em ódio e sensacionalismo – e tomá-lo como verdade, pois acha um incômodo raciocinar. Como se uma opinião ou conhecimento sobre algo fosse uma daquelas comidas baratas de fast food, fácil de achar e pronta para ser consumida; ficando saciado com a “verdade” engolida e farto de conhecimento suficiente para ir no Facebook e proclamar os ensaios da revolução cultural. E, diante de qualquer objeção, mesmo que uma criticazinha bem mixuruca, combate à moda jacobina digital os contrarrevolucionários : xingando-os, humilhando-os, plantando mentiras e por aí vai. É o que ocorre com os seguidores e militantes dos principais candidatos à Presidência da República: Jair Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva. Para você ver, caro leitor, como imbecilidade não tem ideologia.
Além disso, já que não querem pensar com a própria cabeça, não têm ao menos a curiosidade em descobrir as coisas tentando experimentá-las, sentido-as e formando juízo de valor com base na realidade vivida, o que engrandece a pessoa e faz abrir um leque de opções, antes preso a diversos preconceitos, dogmas. Mas não, preferem manter-se confinados na caverna vendo somente a imagem das sombras a ver a Luz. Questões como a legalização da maconha, a desmilitarização da polícia, a privatização das estatais são prontamente rechaçadas, sem que haja alguma experiência anterior que prove o sucesso dessas medidas ou não.
Portanto, discordo do meu Professor quando chama esses autores de “atuais”, pois denominá-los assim é equipará-los a toda sandice que governa nossos tempos, no qual o debate acerca das principais questões é raso, pobre e violento; não havendo razão alguma ou experiência vivida que o norteia, tendo apenas como “grandes referências” pessoas de baixa formação intelectual e que opinam com “achismos” ou paixões pessoais, mas como têm coragem – ou loucura – de falar a uma massa alienada, conseguem angariar milhões de seguidores. Como dizia o músico Renato Russo: “falam demais por não terem nada a dizer”.
Descartes, deve revirar-se no túmulo ao ouvir que é “atual”; Bacon provavelmente gostaria de ser fritado e servido para uma tribo de canibais.
O professor não é bobo, ele é “macaco velho” da Sociologia. Para dar essa opinião ele analisou com prudência e tem experiência.  Pensando bem, ele pode até ter razão... é que na verdade, esses pensadores são atuais,  e nós “sociedade evoluída” é que somos pré-históricos, vivendo nas cavernas e achando que a sombra da fogueira é a Luz do Sol, como contava Platão.

John R. Angelim Novais, 1º ano Direito - Noturno, 2017.







Um comentário:

  1. Uma visão muito clara realmente. A sociedade em que vivemos, e que Descartes e Bacon tentaram, através de seu império da razão, construir é, em verdade, uma representação de mau gosto da modernidade. Poucos são os que existem através de seu pensar. O que queria construir os autores, o que estava em suas "utopias", tornou-se a realidade distópica da modernidade.

    Vinicius H. O. Borges

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