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domingo, 20 de agosto de 2017

Adeus, mãe

Querida mãe,

Eu sei que você estará triste no momento em que ler essa carta. Espero que isso a ajude a entender que nunca foi sua culpa. Desde novinhaqueria ser modelo. Gisele Bündchen, Isabeli Fontana... maiores ídolos da minha vida. Você sempre dizendo que eu era linda e que meus olhos de jaboticaba a encantavam. E por muito tempoassim eu acreditei. Até que em meus 11 anos me mudei de escola, quando a senhora conseguiu o serviço que me dava aquela bolsa de estudos. E como somos pobres, toda esmola que vem é bem aceita. E lá, mãe, encontrei o que seria por muito tempo meu inferno. Não digo isso numa tentativa de te culpar. Sei que o melhor era o que você queria para mim. Digo isso porque durante 6 anos escutei todos os dias "preta imunda, suja, estranha, gorda, cabelo ruim, filha de lixo, pobre, nojenta." Machuca me expressar assim, mas, depois de um certo tempo, eu acreditei que eu era resumida nisso. Meu sonho de ser modelo se tornava mais distante. Meus olhos de jaboticaba não conseguiam ver nada mais que uma escória em frente ao espelho. Comecei com as dietas em que, você mesma sabe, não comia durante dias. Se comesse, punha para fora. Me achava cada vez mais ridícula. Não conseguia olhar para mim mesma. Até que chegou o dia em que parei de ligar, de tentar me encaixar em algo que não caibo, em algo que a minha existência é irrelevante e descartável. E hoje, o que eu sinto se resume em dor. Marcas no meu corpo mostram que a dor não é suficiente dentro de mim. E a angústia de saber que sou um peso, me faz querer partir. E assim eu vou. A sociedade me fez assim, e assim devolvo meu cadáver de entranhas e resquícios para essa morte suja. A anomia de minha vida se resumiu em um adeus.


Seja feliz.
Sempre sua pequena, Carla.
20/08/2025


Izadora Barboza Maia - 1° Ano Direito (Noturno)

The Mother´s Will

   O sol estava forte e escaldante. O ponteiro do relógio de pulso marcava 15:17 e o dono do pulso se movimentava rapidamente em direção ao banco. Olhares tortos o fitavam enquanto vozes surdas murmuravam, passando pelo guarda-chuva em sua mão direita. Sentia-se inacreditavelmente estúpido por ter dado ouvidos à esposa que dissera-lhe que iria chover. O terno acumulava um calor insuportável e a gravata o enforcava. Mas agora já não mais importava. Estava passada a metade do caminho e se não continuasse a se mover rapidamente chegaria atrasado.
    Dobrou duas esquinas e vislumbrou o parque. Estava próximo. Viu, displicentemente, um carrinho de sorvetes cercado por crianças e sentiu o ressoar do sino. Sem gastar tempo com futilidades continuou o movimento rápido cruzando-o em direção a seu destino. Estava no centro do parque, quando ouviu um barulho seco, seguido por um grito úmido. Olhou ao redor, mas não era capaz de distinguir os fatos em meio à confusão. Atirou-se ao chão e buscou abrigo sob um banco de madeira enquanto os tiros se intensificavam. Estava tudo barulhento demais e o caos havia se instaurado. Em meio a toda aquela confusão, somente uma coisa passava pela cabeça de Mike... “definitivamente chegaria atrasado”.
    Passados alguns minutos, ouviu o silêncio. Ergueu os olhos e viu que a confusão se dissipara. Pôs-se novamente em pé no centro do campo de batalha, checou o relógio e correu até se deparar com um obstáculo em seu caminho. Um corpo pequeno, de pés nus, e um sorvete sabor sangue.
    Ficou parado, sem saber o que fazer e sem saber o que pensar. Não que fosse a primeira vez (nunca era), mas jamais sabia como lidar com o fato, não importava quantas vezes se repetisse. “Que espécie de sociedade era aquela? ”. Não sabia responder. Agora que parava para pensar, não havia muita coisa que soubesse responder. Sabia onde ia e sabia que tinha que chegar, mas não sabia o porquê. Sabia, logicamente, que precisava daquele emprego, e chegar atrasado à entrevista não ajudaria, mas “porque precisava do emprego? ”. Um corpo jazia em sua frente e “tudo se resumia a dinheiro? ”. Mike não era assim. Se importava com a curta vida, sem tempo suficiente para ter sido vivida, que se perdia à medida que a poça de sangue aumentava e o sorvete derretia. “Até que ponto dinheiro valeria mais que a própria vida? ”... “Droga! ”. Precisava chegar ao banco. Era imposto a ele. Precisava do emprego, precisava do dinheiro... precisava fazer parte do sistema. A vontade da Sociedade era infinitamente maior do que a dele, e Mike era uma engrenagem que precisava funcionar. Se chegasse atrasado, não conseguiria o emprego, e sem o emprego seria punido. As leis da Deusa Sociedade eram implacáveis e suas sanções atrozes. Precisava ceder ao seu caráter coercitivo... precisava ser aceito.
    Afastou de si toda aquela idiotice reflexiva existencialista e se pôs, novamente, em movimento. “Todo mundo sabe que pensar é inútil. Quanta idiotice.... Onde eu estava com a cabeça? ”. Terminou de cruzar o parque e avistou o banco, aguardando no final da rua. “Gastei tempo demais com essas bobagens. Tempo é dinheiro...”. Pensava enquanto checava o relógio, agora trincado. “Todos sabem que pensamentos individuais são execráveis. Além de dolorosos e a mais completa perda de tempo. Sem mencionar pecaminosos... Que a Deusa me perdoe! ”. “E que seja feita a vontade de nossa Mãe Sociedade! ”...
    Mike sentiu um vento frio após pronunciar as últimas palavras. Olhou ao redor e percebeu olhos tortos julgando e vozes surdas murmurando. Buscou ajuda no braço direito, mas percebeu que estava vazio. “Devo tê-lo deixado cair no parque”. O terno emprestado, agora estava ensopado e não mais somente a gravata enforcava.
    A chuva caia e molhava um homem parado em frente a um banco, fuzilado por olhares de desaprovação. A água lavava uma poça de sangue e um sorvete derretido, contaminado por sua vermelhidão. A Sociedade se banhava indiferente aos indivíduos. Nada importava. O céu desabava...

Abner Santana de Oliveira- 1º Ano, Direito Noturno.

Aonde estão meus olhos de robô?

Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluido em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado
Mas lá vem eles novamente, eu não sei o que fazer
Reinstalar o sistema
Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, dia
Não, senhor, sim, senhor
Não, senhor, sim, senhor
Os agentes ideológicos do Estado estabelecem normas, padrões e estruturas que, independente do indivíduo, regem o agir do homem em sociedade. O predomínio da mesmice em detrimento da singularidade e da identidade da nação representam um povo carente de pensamento crítico e capacidade de julgamento. Como um espírito de época, os hábitos, na dimensão do coletivo, são predeterminações do fenômeno social vigente. Na obra Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, uma sociedade distópica é criada sendo o nascimento concebido em laboratórios e a felicidade comprada com o uso do soma – uma droga utilizada para entorpecer o indivíduo a se tornar incapaz de perceber a sua realidade, altamente coercitiva e opressiva. Fazendo um paralelo com tal obra, a cantora Pitty, autora da música Admirável Chip Novo, citada acima, demonstra tal sociedade fadada a agir conforme a estrutura social enraizada.


Maria Helena Gill Kossoski
1º Direito- Diurno

Meninas gostam de rosa e meninos de azul?

Uma sutil imposição introduzida em nossas vidas exemplifica o domínio de certas opiniões perante à sociedade. A simples ideia de que meninas devem gostar de rosa e os meninos de azul, desde quando nascemos, mostra um fato social, fatos que devem ser considerados como coisas para o sociólogo Durkheim, essa coisa que impõe uma forma de pensar no que é certo ou errado, por exemplo.
Se opiniões banais, como qual cor cada indivíduo deve gostar, já possui grande força na forma de pensar da sociedade, opiniões relevantes ou até opiniões que possam colocar a vida de outros em risco, devido ao extremismo, podem, abertamente, serem impostas ou disseminadas pela sociedade.
Nos últimos anos, em grande parte do mundo, principalmente no ocidente, o extremismo esteve tomando muito espaço. Uma crise mundial possui uma força imensa sobre os indivíduos, isso faz com que esses procurem uma forma de se adequarem, abraçando discursos que os façam pensar que a situação em que vivem irá melhorar de alguma forma. O extremismo de direita presente na situação brasileira atual ocorre, principalmente, devido à crise política e social que o Brasil enfrenta. Discursos de ódio a etnia, identidade gênero e orientação sexual, como por exemplo os do deputado Jair Bolsonaro, são abraçados por diversos cidadãos brasileiros porque procuram algum tipo de conforto e procuram jogar a culpa do que está ocorrendo agora em outros indivíduos diferentes dele. Esses cidadãos ficam tão cegos pela influência desses discursos, que não conseguem nem raciocinar individualmente sobre se, realmente, o que poderia agravar a crise econômica do pais seria o fato de uma mulher exigir um salário igual ao do homem.
Ouvimos diariamente atrocidades sendo realizadas devido ao extremismo ao redor de todo o globo. O mundo está divido em dois, os que mandam/influenciam e os que obedecem ou que sofrem com isso. Os que abraçam discursos extremistas e as próprias vítimas estão do mesmo lado da moeda, estão sofrendo pela coercitividade do mesmo fato social, pois, afinal, meninas gostam de rosa e meninos gostam de azul.

Emily Caroline Costa da Cunha - Direito - 1º ano (diurno)

Metodologia durkheimiana atrelada à encarceramentos psíquicos




Compre. Beba. Vista. Consuma. Tais palavras imperativas são, cotidianamente, bombardeadas na sociedade, culminando com a imposição de ideologias as quais arraigam-se na psique humana. Desde meados do século XVIII, com a emergência da Revolução Industrial, constata-se a consolidação do sistema capitalista, o qual engloba a integralidade de grupos sociais, perdurando independentemente da vontade dos indivíduos e pressionando estes a seguir determinados comportamentos. Analogamente, tal qual o sistema capitalista, o fato social – protagonista da metodologia sociológica de Durkheim- explicita-se como geral, externo e coercitivo. Assim, liberdades particulares são estabelecidas de acordo com os parâmetros de certo grupo, uma vez que o agir individual transcende noções individuais, firmando-se em hábitos forjados na dimensão do coletivo. Tais hábitos, os quais fundamentam a estrutura da sociedade, estão na essência da explicação dos fenômenos sociais. Por esse motivo, Durkheim discorre sobre a existência de uma “causalidade eficiente”, ou seja, determinado fenômeno social cumpre certa função de acordo com a sociedade analisada.  Dessa maneira, podemos reputar que o estupro coletivo de uma mulher de 16 anos por 33 homens, ocorrido no Rio de Janeiro possui como causa eficiente a banalização da figura feminina em uma sociedade machista. Tal fato pode ser exemplificado na obra "Eichmann em Jerusalém" de Hannah Arendt, no qual esta disserta sobre o conceito de banalidade do mal, afirmando que a massificação da sociedade fomenta a criação de uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, razão pela qual a coerção impõe-se sem questionamentos.  Portanto, tanto a padronização crescente de ideologias e concepções – estas ancoradas em um sistema capitalista o qual incita um consumismo desregrado – quanto comportamentos patológicos – a exemplo de estupros coletivos - corroboram com o fortalecimento do conceito de “fato social”, perpetuando a metodologia sociológica de Durkheim e incentivando encarceramentos psíquicos constantes.
 

Visão

Tenho uma visão.
Educa-se minha ação.
Obediência é minha função;
Funcionar sem emoção.
Coerção.

Nos pilares do corpo,
Os milhares de porcos.
Caminhando sem cantar,
Seguindo o padrão... Aceitar.
Visão.

De que me vale abstrair
Nada vai se esvair,
Tudo é tão banal.
Sou apenas um ser
Social.

Gustavo Lobato Del' Alamo - 1º Ano - Diurno


O fato social na cadeira ao lado


                                           



Para Durkheim o fato social é visto como uma coisa, sendo caracterizado como coercitivo, geral e externo. Os fatos sociais permeiam a sociedade, criando ações que não são naturais, mas construídas por meio de instituições, como a escola, ou pelo grupo social. Destarte, o experimento postado acima demonstra de uma forma clara como o fato social é construído. Em uma recepção, um grupo de pessoas (que sabiam do experimento), se levantam sempre que um sinal toca, e quando pessoas leigas entram na sala começam a fazer o mesmo, ainda que sem saber o motivo ou pedir alguma explicação racional. Depois de algum tempo, os participantes iniciais não estavam mais presentes entretanto, a ação continuou acontecendo mostrando como o agir de um grupo é coercitivo e mesmo sem haver vontade individual de se levantar, as pessoas o fazem para serem parte integrantes. Membros de um grupo tomando as mesmas atitudes é algo comum e descrito por Durkheim, pode ser observado tanto em círculo sociais de amizades, membros de uma faculdade, ou em algum grupo específico como punks, indies, hipsters, etc. A vontade individual está ancorada em aspectos sociais, tornando complexo separar o que é próprio do indivíduo, com o que é construído em sociedade. A força das coerções dos fatos sociais são percebidas quando há alguma transgressão, uma anomalia ao que é esperado, sendo seguida de uma reação punitiva que busque restabelecer a norma. As normas a serem seguidas não são estabelecidas apenas pelo direito formal, mas também pelas instituições e grupos que impõem regras e costumes aos quais não podemos escapar. A liberdade de escolha se limita portanto ao que o ser humano conhece, ao que faz parte de sua realidade. 




1°ano Direito noturno

ORGANIZAÇÃO E CICLICIDADE
A humanidade nunca se contentou com explicações que tivessem o acaso como resposta: a existência da vida, seu propósito. É quase impossível para o ser humano, individualmente ou coletivamente,  conceber o caos como algo natural
Logo a anomia, embora temida por muitos, não é um fenômeno duradouro. Os dadaístas, mesmo com sua proposta de quebrar a arte, acabaram sendo os responsáveis por um novo estilo artístico, cuja regra era a quebra de padrões pré-estabelecidos; o movimento punk também tinha uma visão parecida, porém relativa a música, e mesmo assim acabou criando um certo código de conduta não verbal no qual seus integrantes usam o mesmo estilo de  roupas, instrumentos musicais, maquiagem, etc. Nesse contexto a anomia não representa uma simples ruptura da ordem mas também o surgimento de uma nova, o princípio de uma revolução.
 Não se trata apenas de organização mas também de ciclicidade. Um sistema, antes de ser reconstruído, precisa ruir. A fratura das normas, além de sintoma, também é um tipo de cura para uma sociedade em colapso (econômico, religioso, de valores, etc.). Assim a fratura da ordem não necessariamente significa algo ruim, visto que pode gerar mudanças tanto boas quanto ruins e que o período de anarquia não será longo, haja vista a preocupação humana com a ordem das coisas.
Portanto percebe-se que a sociedade, sempre em mutação, cria mecanismos capazes de assegurar suas mudanças, garantindo sua evolução e, mesmo que tais  mecanismos gerem desconforto em alguns de seus membros, nem os mais incomodados são capazes de detê-los.  


Aline Ferreira do Carmo        1º ano Direito - Matutino

Inescapável padronização

É incrível como o ser humano é padronizado. Parece que todo mundo pensa igual, tem as mesmas ideias, e conforme as gerações vão mudando, cria-se também um novo padrão de normalidade.
Desde pequenos somos ensinados a nos comportar e a fazer as coisas de um determinado modo que reflita o padrão. Ao crescermos, somos levados a cursar uma faculdade, de preferência pública, a, um dia, encontrar o amor de nossas vidas e casarmos, focar na carreira por um bom tempo e ter um ou dois filhos, mas não tão cedo quanto as gerações anteriores. Almejamos ter sucesso na carreira para conseguir ter uma vida confortável e com algum luxo na terceira idade.
Os sonhos? Também são sempre os mesmos: encontrar um amor, ficar rico, viajar...
Essa padronização também está presente no modo de se vestir, falar, se comportar, nos produtos que consumimos.
Por mais que você se ache diferente porque se veste de um determinado modo, porque fala ou se comporta de um outro, ou simplesmente porque se recusa a consumir os produtos industrializados ou capitalistas; pode ter certeza, existe um movimento de pessoas que se veste, fala, se comporta igual a você, ou, como você, também se recusa a consumir tais produtos.
Eu gostaria de terminar esse texto dizendo que consigo me desvencilhar de tudo isso, tal qual fiz em Comte, mas simplesmente não há como escapar dessa padronização. Você pode pensar que está escapando, mas já existe todo um grupo de pessoas que também tentou escapar, e acabou fazendo as coisas como você. Isso tudo é gerado pelo fato social, como nos explica Durkheim, que busca evitar a anomia. No fundo, apesar de nos padronizar, indiferenciar e nos transformar em nada além de uma engrenagem sem liberdade de uma sociedade, os fatos sociais a organizam e a preservam, talvez a um preço que não incomoda a maioria das pessoas.

Rafaela Carneiro Gonella - 1º ano Direito diurno

A limitação imposta pela coerção externa

Émile Durkheim foi um pensador francês que procurou estabelecer um novo método sociológico de análise da sociedade para que a sociologia consolidasse uma metodologia própria e definitiva. Afirmava que o ideal seria seguir uma ordem: investigar a causa de um fenômeno e depois tentar determinar seus efeitos. Nesse sentido, criticava a análise ideológica, que parte “das ideias para as coisas”, e defendia justamente o oposto, ou seja, seria preciso conhecer a realidade concreta para formular conceitos e noções. Essa situação, vale ressaltar, ainda é um problema nos dias de hoje e a análise puramente ideológica, sobretudo no ambiente universitário, ainda se faz presente e obstrui a busca pela verdade.
De acordo com Durkheim, existem maneiras de agir, pensar e sentir que, além de exteriores ao indivíduo, são dotados de uma força imperativa e coercitiva em virtude da qual se impõem a ele, quer ele queira, quer não. Trata-se dos fatos sociais, o domínio próprio da sociologia e cujo estudo consiste na busca do pensamento de Durkheim. A coerção, característica básica do fato social, se deve à presença de uma força que domina o homem e diante da qual ele se curva. O fato social, assim, é todo aquele que independe do indivíduo e tem como substrato o agir do homem em sociedade de acordo com as regras sociais, o que faz do meio social um fator determinante da evolução coletiva. A degeneração do fato social, denominada anomia, consiste no desregramento, a ruptura da ordem, e, por isso, o objetivo da sociedade é evitá-la.
A filosofia de Durkheim pensa uma sociedade que, antes mesmo de nascer, já cercou o indivíduo com “redes” que condicionam o seu agir, sendo que qualquer ato social ou motivação para agir dificulta o individual, está atrelado ao coletivo, às injunções sociais já sedimentadas que nos movem a agir a todo momento. Contextualizando para a atualidade, observa-se que é incontestável que a maior parte de nossas ideias e comportamentos não é elaborada por nós, mas nos vem de fora. Dessa forma, as condutas, mesmo que se expressem no indivíduo, traduzem hábitos forjados na dimensão do coletivo. Isso é facilmente constatado pelas regras de comportamento e convívio que são impostas ao indivíduo, que as incorpora geralmente de forma imperceptível. Tais imposições se tornam costumes de tal forma que se opor a elas implica consequências como isolamento, julgamento e preconceito.
A criança sofre a influência da coerção externa desde o seu nascimento e, nesse sentido, a educação contribui para impor regras que passam a ser interiorizadas, formando os jovens de acordo com os parâmetros normativos. Resultado disso é a privação da individualidade e, mais visivelmente, o estabelecimento de padrões determinados para cada categoria social, como ocorre entre homens e mulheres. Isso se evidencia, por exemplo, pela noção de que meninos devem ser mais grosseiros, sustentar a família, expressar sua masculinidade e possuir gostos típicos de homens. Ao mesmo tempo, as meninas aprendem desde cedo acerca da importância de cuidar da casa, serem delicadas, cuidarem da aparência e estarem sempre dispostas a servir ao homem. Isso gera polêmica quando questões de gênero entram em debate e impede a plena liberdade de expressão dos indivíduos, sendo as mulheres as mais afetadas ao se submeterem a comportamentos padronizados. Dessa forma, observa-se a forma como a teoria do fato social e da coerção externa de Durkheim se manifesta na atualidade como limitadora das expressões individuais.
Gustavo Garutti Moreira – 1º Ano Direito Matutino